
Transportar pás de turbinas eólicas de mais de cem metros por terra é uma missão quase impossível. Essa limitação motivou o engenheiro aeroespacial e empreendedor Mark Lundstrom a idealizar o que pretende ser o maior avião do mundo, capaz de levar essas peças a parques eólicos em locais remotos.
Para isso, ele fundou, em 2016, a Radia, sediada no Colorado, nos Estados Unidos. O projeto recebeu o nome de WindRunner e, se sair do papel, terá 108 metros de comprimento e 80 metros de envergadura, com um compartimento de carga seis vezes maior que o do Antonov An-225, aeronave ucraniana destruída no início da guerra contra a Rússia, em 2022.
A meta é levar até três pás de 80 metros ou uma de 105 metros, dimensões que hoje não podem ser levadas por estrada devido às restrições logísticas. As informações são da BBC.
Solução para o "gargalo" da energia eólica
Pás gigantes já são usadas em turbinas instaladas no mar, mas, em terra, o transporte por estradas limita o tamanho a cerca de 70 metros.
Por isso, Lundstrom acredita que a possibilidade de instalar turbinas maiores em áreas continentais (regiões afastadas do litoral, geralmente no interior, onde há grande potencial de vento), pode dobrar ou até triplicar a produção viável de energia eólica em diversos países.
Ainda segundo o fundador, o WindRunner seria, justamente, uma resposta à ausência de aeronaves capazes de lidar com esse tipo de carga.
— Estamos construindo o maior avião do mundo, e estamos fazendo isso porque há uma lacuna gigantesca na capacidade das aeronaves de carga pesada — afirmou à BBC.
Fabricação e parcerias
A Radia já arrecadou mais de US$ 150 milhões (R$ 813 milhões) e fechou acordos com empresas como a italiana Leonardo (fuselagem) e a espanhola Aernnova (asas).
Apesar disso, a companhia nunca construiu uma aeronave e ainda não revelou quem será o fornecedor dos motores. Mesmo assim, a promessa é usar peças e tecnologias já certificadas, acelerando o processo de homologação.
O plano é iniciar a produção sem um protótipo tradicional, investindo em design digital e na construção direta de modelos de teste em tamanho real, com previsão de voo para o fim da década.
Obstáculos
Apesar da proposta ambiciosa, o WindRunner enfrenta obstáculos para sair do papel. O escritor britânico Chris Pocock, especialista em defesa aeroespacial, questiona a viabilidade financeira do projeto, ressaltando a dependência de investimentos contínuos para o projeto avançar.
Além disso, ele também aponta que a distância alcançável pela aeronave, de cerca de 2 mil quilômetros, é considerada limitada frente a cargueiros de grande porte já em operação.
— O WindRunner não tem alcance transatlântico e, por isso, não é tão atraente desse ponto de vista quanto um transportador de carga de grande porte — disse à BBC.
Além das restrições técnicas, há concorrência no próprio segmento: fabricantes de dirigíveis híbridos também estudam alternativas para o transporte de componentes de energia eólica.
— Os dois projetos de dirigíveis híbridos mais confiáveis não são atualmente projetados para transportar cargas desse porte, mas ambos poderiam ser ampliados — complementa.
O projeto também enfrenta um cenário político instável: a energia eólica já foi alvo de críticas do presidente americano Donald Trump, que chegou a emitir ordens contra a expansão.
Potencial militar
Em maio de 2025, o Departamento de Defesa dos EUA assinou um acordo com a Radia para avaliar o uso do WindRunner no transporte de carga militar.
A empresa, no entanto, insiste que a prioridade continua sendo o setor de energia renovável.
De qualquer maneira, o WindRunner continua longe de cruzar os céus. Por enquanto, só existe em modelos digitais e testes de túnel de vento em escala reduzida.
Parceria no Brasil
Uma curiosidade é que uma empresa brasileira está participando do projeto do WindRunner. A Akaer fez uma parceria com a Radia, anunciada em junho, durante o Paris Air Show, tradicional evento da indústria da aviação.
A Akaer ficará responsável pelo desenvolvimento da cabine pressurizada da aeronave. O projeto será feito nas instalações da companhia, em São José dos Campos, no interior de São Paulo.
Fundada em 2016, a Radia é comanda por Mark Lundstrom, cientista de foguetes formado no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Segundo o jornal The Wall Street Journal, foram sete anos trabalhando no WindRunner. Ainda não há previsão de quando o primeiro protótipo será construído.



