
O bloqueio do uso de satélites e GPS pelo Brasil pode ser a próxima sanção aplicada pelo governo Trump em meio à escalada do conflito comercial entre os países.
Aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro disseram à Folha de S. Paulo terem sido informados por membros do Departamento de Estado dos Estados Unidos que a revogação do visto do ministro Alexandre de Moraes seria "apenas o começo".
Entre as novas ações cogitadas pelos EUA, segundo eles, estariam dobrar as tarifas sobre os produtos brasileiros de 50% para 100%, aplicar punições junto à aliança militar Otan e o bloqueio do uso do sinal de satélites e GPS.
No entanto, os Estados Unidos teria mesmo o poder para realizar tais ações — como bloquear o sistema de geolocalização no Brasil?
Como funciona o GPS?
Criado pelo Departamento de Defesa dos EUA no final do século 20, o Sistema de Posicionamento Global (GPS) permite a localização de pontos na superfície terrestre, com precisão e rapidez. As informações são do portal BBC News.
O sinal pode ser utilizado em automóveis, dispositivos celulares e até em sistemas de monitoramento como tornozeleiras eletrônicas — dispositivo que Bolsonaro passou a usar em 18 de julho, após decisão de Moraes.
O GPS foi desenvolvido originalmente com fins militares, impulsionado pela corrida espacial em 1957. Depois, nos anos 1990, a tecnologia passou a ser aplicada para uso civil.
Atualmente, o sistema inclui 31 satélites em operação, distribuídos em seis planos orbitais ao redor do planeta Terra. Em qualquer ponto do planeta, pelo menos quatro deles estão sempre visíveis a um receptor GPS. Cada um dos satélites transmite sinal de rádio com informações sobre sua posição e o horário exato de emissão. Com os dados de quatro satélites distintos, o receptor consegue triangular sua posição com alta precisão.
É possível bloquear o sinal?
De acordo com especialista consultado pela BBC News, é pouco provável que o sinal seja cortado, apenas para o Brasil, em um curto prazo de tempo.
Os sinais transmitidos pelos satélites são unidirecionais. Eles saem do espaço e alcançam receptores em qualquer parte do mundo, ao mesmo tempo. Por isso, é improvável que o sinal seja cortado apenas em um país sem atingir outras regiões.
— Se os Estados Unidos resolvessem fazer isso, ele teria que mexer, primeiro, na forma como é transmitido esse sinal. Em termos práticos, seria praticamente inviável fazer isso, ainda mais no curto prazo — explica o engenheiro Eduardo Tude, especialista nas áreas de Redes Ópticas, Sistemas Celulares e Comunicações por Satélite.
Tude acredita que os Estados Unidos não esteja realmente cogitando essa opção, por poder afetar, inclusive, o próprio território norte-americano.
Apesar da dificuldade para bloquear o sinal, há como interferir no funcionamento do GPS. Uma das práticas, conhecida como jamming, já foi usada em zonas de conflito e consiste em emitir ondas de rádio para neutralizar o sinal original dos satélites.
— O jamming consiste em prejudicar a recepção do sinal do GPS com um transmissor na mesma frequência, mais forte. Para fazer isso para atingir o Brasil, por exemplo, seria necessário estar aqui para criar essa interferência, o que prejudicaria muita gente — diz Tude.
Outra técnica conhecida como spoofing substituí sinais legítimos por falsos, indicando uma localização incorreta.
A engenheira mecânica Luísa Santos, especialista em Indústria e Sistemas Aerospaciais pela Universidade de Buenos Aires (UBA), também acredita que a possibilidade de interferência no sistema é remota.
— Embora o sinal civil seja fornecido "gratuitamente" ao mundo (pago indiretamente por impostos), os EUA mantêm a capacidade de negar ou degradar o acesso a determinadas regiões. No entanto, particularmente, acredito ser muito difícil devido questões diplomáticas de longo termo que temos com os EUA — afirma.
Outros sistemas
Em caso de algum tipo de bloqueio ao sinal de GPS, é possível adotar um sistema próprio. Há o sistema russo GLONASS, o chinês BeiDou e o Galileo, da União Europeia. Há também os regionais, como indiano NavIC e o QZSS, no Japão.
— Esses sistemas são interoperáveis e, em muitos dispositivos modernos, funcionam em conjunto com o GPS. Há também sistemas de backup terrestres, como o eLoran, Navegação de Longo Alcance Aprimorada, em uso em alguns países, para garantir posicionamento e tempo mesmo sem satélites — explica Santos.


