
Com tantas galáxias no espaço sideral, é difícil pensar que não há vida lá fora. A ciência é produzida com persistência – e deixar de investir em universidades é perder a oportunidade de educar jovens que podem mudar o mundo. Essas são as reflexões da cientista norte-americana Janna Levin, PhD em astrofísica pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e professora da Universidade de Columbia (Nova York, Estados Unidos). Em Porto Alegre na noite desta segunda-feira (2), a cientista palestrou no ciclo de conferências Fronteiras do Pensamento, no Salão de Atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
— Pense no quão extraordinário é refletir onde estamos localizados no esquema do universo. É difícil pensar que não há vida lá fora. Provavelmente, há mais planetas do que estrelas — afirmou. — Pense na nossa pequeneza e, ao mesmo tempo, na vastidão do nosso conhecimento. Há beleza nesse contraste, porque nos lembra de que há significado em aceitar nossa insignificância.
Janna Levin é conhecida por seu papel como divulgadora da ciência. Além de ter publicado três livros – o mais recente, A Música do Universo (Companhia das Letras) –, é a protagonista do documentário NOVA: Black Hole Apocalypse (2018), disponível na Netflix. Em suas pesquisas, estuda Teoria dos Buracos Negros, cosmologia (criação e evolução do universo) e ondas gravitacionais.
Ao longo de duas horas, a astrofísica falou sobre buracos negros e instigou questionamentos sobre nossa posição no universo: quase tudo o que temos conhecimento vem da luz, mas 95% do universo está invisível para nossos olhos. Será que, de fato, entendemos a natureza? Descontraída e desenvolta, ela fez o público rir três vezes e palestrou andando pelo palco, sem o apoio de texto. Ao apontar para um fundo negro para uma projeção na tela, explicou:
— É um buraco negro. A imagem é bastante precisa... — brincou.
De forma didática, Janna explicou à plateia o bê-á-bá de buracos negros: são estrelas de massa muito densa que, ao morrerem, perdem o combustível nuclear e colapsam. Invisíveis, são mais um “lugar” do que um “objeto”. Tragam tudo o que está ao redor, mas não são tão ameaçadores como as pessoas pensam.
Estima-se que existam em mais de 1 bilhão na galáxia – e um deles está bem no meio da Via Láctea. O que aconteceria se caíssemos em um?
— Não há nada dentro. Quando a estrela colapsa, vira uma espécie de fóssil. O corpo da estrela se foi, fica caindo em direção ao centro - e o que acontece com o corpo, não sabemos. Não há nada lá, é espaço vazio. Você navegaria no horizonte de eventos (borda do buraco negro, cujo limite, uma vez cruzado, impede a volta) e depois não veria nada, não sentiria nada. Em um infeliz microssegundo depois, você seria amassado até a morte, até virar uma “singularidade”. Mas, antes disso, você estaria bem. Após cruzar o horizonte de eventos, você veria toda a luz da galáxia concentrada, caindo atrás de você. Seria quase como a luz no fim do túnel de uma experiência de quase-morte. Só que seria uma morte completa —explicou.
Albert Einstein, na Teoria da Relatividade, calculou que deveria haver, no universo, regiões das quais nenhum objeto – nem mesmo a luz – conseguiria fugir e onde o espaço-tempo seria diferente ao da Terra. Com base nisso, o astrônomo alemão Karl Schwarzschild, em 1916, encontrou as soluções para as equações de Einstein: sobretudo, investigou como o espaço-tempo pode ser deformado por um astro de massa muito grande e teceu conclusões que resultaram no horizonte de eventos, espécie de borda de um poço sem fundo. Soldado na 1ª Guerra Mundial, Schwarzschild morreu pouco depois, não sem antes compartilhar os achados com Einstein e ser elogiado. Hoje, é conhecido como o “pai dos buracos negros”.
As descobertas intrigaram cientistas a partir de então. Em 2000, após uma luta de décadas, pesquisadores construíram, nos Estados Unidos, um observatório de ondas gravitacionais (o LIGO), ao custo de US$ 1 bilhão. A expectativa, de ouvir sons do espaço, era alta – mas, por mais de uma década, nenhuma descoberta foi feita, o que gerou críticas pela falta de frutos após uma obra tão cara, destacou Janna.
Finalmente, em 2015, uma das descobertas mais importantes da astronomia foi feita: o observatório LIGO detectou o primeiro som de um buraco negro. No caso, de dois, cada um com 50 vezes a massa do Sol, colidindo um com o outro. O som de menos de um segundo viajou por 1,5 bilhão de anos até chegar ao observatório e ser captado. É o mais poderoso evento, desde o Big Bang, gravado pelo ser humano, descreveu Janna, ressaltando a importância da persistência dos cientistas. A descoberta rendeu o Prêmio Nobel de Física de 2017 aos cientistas.
O último grande achado citado pela astrofísica norte-americana foi a primeira foto da história da humanidade de um buraco negro, divulgada no mundo inteiro em abril deste ano. As condições para produzir a imagem exigiram 20 anos de esforço. Em suma, pesquisadores apontaram vários radiotelescópios espalhados pelo mundo para a mesma direção, até que captassem a mesma “imagem” e se transformassem em um telescópio virtual do tamanho da Terra. Para o futuro, há questões a serem respondidas: há outras dimensões no universo? Houve outros Big Bangs?

Ao fim da palestra, na hora das perguntas, a astrofísica Thaisa Storchi Bergmann, chefe do departamento de astronomia da UFRGS e mediadora do debate), questionou à colega norte-americana:
— O LIGO ficou 12 anos sem detectar nada, com cem cientistas trabalhando e US$ 1 bilhão investidos. No Brasil, estamos com um problema muito sério: nós, cientistas, estamos sem dinheiro até para pagar as bolsas de nossos alunos. Como a gente convence governos e parlamentares de que a ciência é isto: uma busca sem resultado imediato, mas que é preciso investir porque o resultado é maravilhoso, ao abrir a mente das pessoas? — perguntou a brasileira, aplaudida com força pela plateia.
— Também temos problemas nos Estados Unidos. Até o LIGO, que ganhou o Prêmio Nobel, tem dificuldades em conseguir financiamento. Entendo que há problemas, basicamente monetários. Pode parecer que a solução é apenas realocar dinheiro, mas é uma solução ingênua. As coisas não são tão simples. Com a ciência, você inspira as pessoas a mudar, a fazer mudanças locais e globais, a se dar conta de que todos fazemos parte do planeta. O que podemos fazer é continuar a fazer importantes descobertas — respondeu Janna.
Após a palestra, questionada por GaúchaZH, a cientista norte-americana completou o raciocínio:
— Entendo que parece fácil, por problemas financeiros, tirar dinheiro da universidade e colocar em outro lugar. Mas é muito simples, porque não antevê as implicações de ter uma população jovem desinformada, que não tem sucesso e não pode mudar o mundo. Se você não educa pessoas que podem mudar o mundo, então você fez uma decisão de consertar as coisas no presente em vez de consertar o futuro. É terrível. Já vimos na história várias vezes: há momentos em que avançamos de forma inesperada porque fomos reflexivos e imaginativos em vez de fazer o óbvio — refletiu.
Fronteiras do Pensamento 2019
O Fronteiras do Pensamento Porto Alegre é apresentado por Braskem, com patrocínio Unimed Porto Alegre e Hospital Moinhos de Vento, parceria cultural PUCRS, e empresas parceiras Unicred e CMPC. Universidade parceira UFRGS e promoção Grupo RBS.
Os próximos palestrantes
23 de setembro
Werner Herzog – Cineasta alemão que dirigiu clássicos como Fitzcarraldo (1982) alterna registros na ficção e no documentário em temas como a relação do homem com a natureza e tecnologia.
21 de outubro
Contardo Calligaris – Psicanalista, colunista e escritor italiano radicado no Brasil.
11 de novembro
Luc Ferry – Escritor, professor, filósofo e ex-ministro da educação da França, autor do best-seller Aprender a Viver (1996).
Conferências sempre às segundas-feiras, às 19h45min, no Salão de Atos da UFRGS (Av. Paulo Gama, 110), exceto no dia 21/10, quando será no Salão de Atos da PUCRS.
Os passaportes estão esgotados. É possível se inscrever em lista de espera clicando aqui. Mais informações no portal fronteiras.com e pelo telefone 4020-2050.
