
Quando o mundo inteiro parece falar apenas de tecnologia, a Gramado Summit — evento de inovação que começou ontem na Serra e segue até a próxima sexta-feira — propõe explorar o lugar do humano frente às inovações. No primeiro dia, palestrantes, expositores e visitantes realizaram uma imersão nas novidades do mercado e debateram onde ficam as pessoas na era da inteligência artificial.
As constantes transformações podem trazer incertezas, mas também são um motor para pensar novas soluções e abrir novos negócios. Para o filósofo e psicanalista Emanuel Aragão, ninguém sabe o que vai acontecer ou onde o futuro vai nos levar exatamente. Mas é justamente isso que torna o desconhecido instigante e assustador.
— É nosso papel reconhecer o afeto que isso causa na gente, reconhecer o medo, a insegurança, o não saber, a instabilidade, que para a gente são muito desconfortáveis de modo geral, e sustentar esse lugar de instabilidade para que a gente possa produzir algo com isso. O que eu trago na palestra é exatamente como o medo e a ansiedade que sentimos são motores para transformar as coisas — explica o palestrante, que falou na manhã desta quarta-feira sobre o tema “Você não é uma IA e isso é uma boa notícia”.
Uma das vozes mais aguardadas do primeiro dia, a psicanalista Maria Homem trouxe uma provocação central: o humano tem ocupado um espaço menor do que deveria no coração da inovação. Para reverter esse cenário, a convidada defende a ascensão de um líder "pós-super-herói", que rompa com os antigos paradigmas da hierarquia rígida e do racionalismo técnico.
Segundo Maria, o sucesso dessa nova era depende do abandono da lógica de "comando e controle", que se baseia em planilhas e visões engenheirísticas. Em vez de manter "clubinhos" excludentes, a psicanalista aponta para a necessidade de um modelo híbrido, capaz de integrar a diversidade e a sensibilidade humana aos processos de gestão.
— O novo tem a ver com o híbrido, com você não se assustar com esse modelo, mas tê-lo como ingrediente criativo. A vulnerabilidade é um motor para falarmos: "Opa, o que é que está acontecendo?” Se é vulnerável, é real. Se eu choro, é porque me toca. Se eu tenho raiva, é porque me afeta. Se eu tenho medo, é porque isso ecoa em mim — diz Maria.
Humano em primeiro lugar

Foi pensando no humano, mas utilizando a inovação e a integração que a tecnologia proporciona, que foi criada a Plataforma de Atenção Multidisciplinar Integrada (PAMI). A startup de Porto Alegre nasceu da necessidade de atender e incluir estudantes com deficiência. Ao centralizar documentos médicos e escolares de crianças e adolescentes em um único sistema, a PAMI funciona como um meio de comunicação entre a escola e os serviços de assistência social e saúde.
A ideia, como explica a coordenadora administrativa da PAMI, Bruna Aguirre, é evitar que a família precise repetir as mesmas informações e retomar a história de vida do aluno várias vezes. Com foco na inclusão, a startup leva essa ferramenta para as escolas como um instrumento de trabalho. Hoje, o sistema é utilizada em escolas municipais de Porto Alegre, Alvorada e Novo Hamburgo.
— Contamos com uma equipe multidisciplinar formada por assistentes sociais, fonoaudiólogas, psicopedagogas e psicólogos. As professoras utilizam a ferramenta para registrar toda a evolução do estudante. É possível verificar o que ele aprendeu no ano passado, como vem desenvolvendo habilidades e o que podemos adaptar nas atividades, independentemente da idade, focando sempre no perfil de desenvolvimento. A plataforma também utiliza IA para auxiliar os professores na montagem de Planos de Atendimento Individual e Singular — explica Bruna.
Em cinco anos, a startup PAMI alcançou a marca de 14 mil estudantes atendidos e 93 mil intervenções pedagógicas. Segundo o líder de Marketing, João Marcelo Rollsing, o acesso à plataforma ocorre via contratação escolar, modelo que pode ser estimulado pela indicação de pais de alunos neurodivergentes às instituições de ensino.
Somos de Porto Alegre e iniciamos o trabalho na região metropolitana, mas atendemos em nível nacional. Nada impede de irmos para qualquer estado ou até para outros países. Como oferecemos treinamento online, não precisamos estar 100% presenciais na escola. A educação no Brasil necessita de uma atenção maior para a inclusão, e estamos dispostos a ir a qualquer lugar
JOÃO MARCELO ROLLSING
Líder de Marketing da PAMI
Encontrando soluções
O Brasil produz mais de 80 milhões de quilos de resíduos por ano e, desse montante, cerca de 4% é reciclado. Foi a partir dessa realidade e da vontade de impulsionar mudanças sustentáveis que surgiu a startup Ciclo, de Cachoeirinha. Por meio de uma gestão de resíduos, a Ciclo integra a logística reversa e economia circular por meio de um ecossistema que une operação, tecnologia e engajamento.
A interface digital permite que o consumidor venda materiais recicláveis diretamente via aplicativo, convertendo o descarte correto em créditos financeiros que podem ser resgatados no app. A engenheira ambiental e coordenadora operacional da Ciclo, Nilma Gadelha, acredita que o lixo só é um problema quando não se enxerga uma solução para ele.
— Nosso idealizador e CEO, Jonas Bernardes, observou que a maioria das empresas da nossa área focava apenas em geradores de resíduos em larga escala, que produzem toneladas. No entanto, a maior parte dos resíduos pós-consumo é gerada por cidadãos comuns, que produzem cerca de um quilo por dia. Embora pareça pouco, ao final de um ano esse volume se torna expressivo — explica Nilma.

Além da logística reversa, a startup — que está na sua terceira participação na Gramado Summit — também realiza projetos de conscientização, levando educação ambiental para crianças através do “Ciclo nas Escolas”.
A startup é incubada pelo Grupo Recicla e tem atendimentos presenciais para pessoas físicas de Santo Antônio da Patrulha, Alvorada e Cachoeirinha. Já para o público corporativo, a empresa oferece soluções personalizadas, mediadas por atendimento direto e apresentações técnicas de seus produtos.
— Não é necessário acumular grandes quantidades para levar à Ciclo; mesmo poucas gramas, ao final do mês, geram resultados significativos — diz a engenheira ambiental.




