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Após 2019 de investigações, multas milionárias e cerco na Justiça, Google e Facebook terão modelo de negócio colocado em xeque em 2020

Série de 10 vídeos especiais de GaúchaZH apresenta os principais temas que serão discutidos no novo ano e por que eles foram relevantes em 2019

Apenas 15 anos atrás, enquanto Mark Zuckerberg e seus colegas de Harvard criavam o Facebook, o Google se consolidava como uma gigante da tecnologia ao dar início à venda de ações na Bolsa de Valores. Desde então, o crescimento avassalador das duas empresas norte-americanas parecia irrefreável. Porém, 2019 indicou que isso pode estar mudando.

Desde que começaram a adquirir ou mesmo a deletar possíveis concorrentes como YouTube, WhatsApp e Instagram, além de drenar recursos publicitários cada vez mais vultosos, pela primeira vez os dois impérios digitais enfrentam um cerco crescente de críticos e órgãos de regulação nos Estados Unidos e na União Europeia sob alegação de concentração excessiva e uso indevido de dados pessoais.

As más notícias começaram a passar pela timeline de Zuckerberg ainda no ano anterior, quando se descobriu que a empresa Cambridge Analytica coletou informações privadas de 87 milhões de usuários do Facebook sem o conhecimento desses e as utilizou na campanha presidencial de Donald Trump. O descuido na proteção de dados levou a Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos a impor, em 2019, uma multa de US$ 5 bilhões e a exigir a reformulação da política de privacidade da rede social.

Não ficou apenas nisso. A empresa teve de pagar US$ 100 milhões para encerrar uma investigação da Comissão de Valores Mobiliários por não ter informado adequadamente seus investidores sobre as questões envolvendo gestão de privacidade. Outras investigações foram abertas e seguem em andamento sob responsabilidade de procuradores norte-americanos, Departamento de Justiça e Comitê Judiciário do Congresso.

Em setembro, o cerco sobre o Google também apertou. Um grupo de 50 procuradores dos Estados Unidos abriu uma apuração por suspeita de restrição à competição e ao livre mercado. Em março, a União Europeia já havia imposto multa de 1,5 bilhão de euros por abuso econômico e exigido liberdade para o usuário de celulares com sistema Android escolher o buscador de internet de sua preferência.

A pressão não se resume aos tribunais. Vozes como a do ator britânico Sacha Baron Cohen têm criticado a dupla de titãs tecnológicos por posturas como permitir anúncios políticos baseados em informações falsas. Em novembro, o Facebook foi o alvo preferencial de Cohen.

— Se o Facebook existisse nos anos 1930, teria permitido que Hitler publicasse anúncios de 30 segundos como a solução para o "problema judeu" — discursou o ator durante um evento da ONG judaica Liga Antidifamação.

A partir de 2020, restará saber o desfecho das novas investigações e o possível impacto delas sobre a estrutura e o modelo de negócios das gigantes digitais – até agora, as mudanças estruturais foram pouco significativas. Professor de Comunicação Digital na Escola de Comunicação e Artes (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica (PUCRS), André Pase acredita que as empresas costumam saber se adaptar às circunstâncias: 

— Google e Facebook sabem jogar esse jogo de economia e política, se adaptam rápido, então poderemos ver algumas mudanças ocorrendo — diz Pase. — Outra questão que deve marcar 2020 é uma disputa muito forte entre empresas de tecnologia em áreas como streaming, já que podemos pagar por diferentes serviços, mas nossa atenção é finita. O dia vai continuar tendo 24 horas. 

Conta a pagar

O Google é avaliado como a terceira maior empresa do mundo (atrás apenas de Amazon e Apple), com valor estimado de US$ 898 bilhões O Facebook é a quinta, valendo US$ 562 bilhões. 

Esse potencial econômico faz com que multas que as duas companhias têm recebido sejam cada vez maiores. 

— Mas ainda são uma fração de seus negócios — pondera Wout van Wijk, diretor do do News Media Europe, entidade representativa dos órgãos europeus de imprensa. 

Isso significa que práticas de apropriação de conteúdo e compartilhamento de dados podem trazer ganhos que superam as eventuais punições. 

— Essas empresas sabem que os procedimentos legais levam tempo — prossegue Wijk. – Colocam em ação um exército de escritórios de advocacia, consultorias e lobistas. Então, quando há uma decisão ou multa, o dano já foi cometido. 

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