
Dois homens investigados por participação direta na extorsão e sequestro de um colombiano foram presos preventivamente na manhã desta quarta-feira (9), em Estância Velha. O crime ocorreu em maio, em Sapiranga, e teria sido motivado por uma disputa pelo mercado de empréstimos ilegais no Vale do Sinos.
As prisões fazem parte da segunda fase da Operação Medellín, conduzida pela 1ª Delegacia de Repressão a Roubos do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic). Segundo a Polícia Civil, os dois suspeitos teriam participado da captura da vítima e das cobranças feitas para que ela fosse libertada.
Com as novas prisões, a investigação tenta descobrir se o sequestro foi ordenado por um integrante de posição superior na organização criminosa. Quatro pessoas investigadas pelo crime já foram presas nas duas fases da operação.
Disputa pelo mercado da agiotagem
A vítima é um colombiano que mora em Canoas há cerca de cinco anos. Conforme a investigação, ele fazia empréstimos com juros abusivos em Sapiranga e Novo Hamburgo, área de atuação de um grupo criminoso do Vale do Sinos que também exploraria a agiotagem.
O delegado Gabriel Casanova afirma que o sequestro teria sido usado pelo grupo para impedir a entrada dele no território controlado pelos criminosos.
— Era basicamente uma disputa territorial. Esses indivíduos pertencem a uma organização criminosa da região do Vale do Sinos — explica Casanova.
De acordo com o delegado, o grupo atua principalmente em Sapiranga, Novo Hamburgo e Estância Velha. A investigação aponta que os suspeitos sequestraram o colombiano ao descobrirem que ele oferecia empréstimos na mesma região.
A Polícia Civil identificou que grupos ligados à agiotagem delimitam áreas de atuação. Devedores que já não conseguem obter novos valores com o grupo local acabam recorrendo a pessoas de outras cidades. A entrada desses agiotas na região pode provocar disputas e cobranças violentas.
Segundo Casanova, os juros chegam a cerca de 50% do valor emprestado. Em alguns casos, os devedores conseguem pagar apenas os juros, enquanto a dívida e a violência empregada nas cobranças aumentam. A polícia percebe maior recorrência de ocorrências desse tipo, mas ainda não dispõe de dados estatísticos consolidados.
Ameaças de morte e transferências bancárias
O colombiano foi levado pelos criminosos e permaneceu sob o controle do grupo até a noite do mesmo dia. Durante o sequestro, ele foi agredido, embora não tenha sofrido lesões consideradas graves.
Os sequestradores também gravaram vídeos das agressões e enviaram as imagens a amigos da vítima. Nas mensagens, ameaçavam matar o colombiano caso os valores exigidos não fossem pagos.
Amigos da vítima fizeram pagamentos para que ele fosse libertado. Os criminosos também teriam usado o celular do colombiano para transferir valores da conta bancária dele para terceiros. Ao todo, cerca de R$ 10 mil teriam sido obtidos pelo grupo.
Investigação tenta avançar na hierarquia do grupo
A primeira fase da Operação Medellín foi realizada em julho, com o cumprimento de mandados em Sapiranga e Novo Hamburgo. Na ocasião, foram presos investigados que teriam ajudado a atrair a vítima até o local onde ocorreu o sequestro.
Na quarta-feira, além das duas prisões preventivas, foram cumpridos três mandados de busca em Estância Velha, Novo Hamburgo e Sapiranga. Munições de uso restrito foram apreendidas, e os dois homens também foram presos em flagrante.
A nova etapa procura esclarecer se os suspeitos agiram por conta própria ou receberam uma ordem dentro da organização criminosa.
— O próximo passo é tentar identificar se há mandante, se há alguém de cima que determinou que fosse feito isso — afirma Casanova.
A eventual prática de agiotagem pelo colombiano ainda poderá ser apurada em outra frente. Conforme Casanova, esse tipo de investigação normalmente é encaminhado a uma delegacia distrital, enquanto o Deic concentra o trabalho na extorsão mediante sequestro. A unidade poderá investigar também a atuação da vítima caso surjam indícios de crimes mais graves, como cobranças violentas, extorsão ou ligação com uma organização criminosa.


