
William Ramos Silveira, o Will, 29 anos, escapou da Penitenciária Modulada de Charqueadas, na Região Carbonífera, sem pular muro, romper uma grade ou precisar se esconder. O faccionado saiu pela porta da frente, às 9h29min de 21 de maio de 2026, com alvará de soltura em mãos.
O documento, segundo a Polícia Civil e a Corregedoria-Geral da Polícia Penal, teria sido falsificado por um agente. A investigação aponta que o criminoso foi colocado em liberdade por meio da simulação de uma soltura regular.
A apuração do Departamento Estadual de Repressão aos Crimes Contra a Administração Pública (Dercap) da Polícia Civil indiciou o policial penal Rudcrei da Costa Machado pelos seguintes crimes:
- promover a fuga de pessoa presa
- inserir dados falsos em sistema de administração pública
- falsificação de documento público
- falsidade ideológica.
O agente, que segue preso desde o fim de junho, nega ter sido o responsável pela fuga, e alega ter acontecido uma falha geral dos outros setores.
Além dele, outros dois servidores, que não tiveram os nomes divulgados, foram indiciados pelo crime de prevaricação — quando funcionário público retarda ou omite algo para satisfazer interesse ou sentimento pessoal. Neste caso, a conclusão da Polícia Civil é de que eles perceberam inconsistências nos registros relacionados a Will, mas não comunicaram aos superiores.
Uma das indiciadas é uma policial penal que manteve relacionamento amoroso com Rudcrei. O outro é apontado como supervisor do módulo no qual o preso estava.
“A omissão mostra-se compatível com o propósito de evitar que fosse prontamente descoberta grave irregularidade ocorrida durante o plantão sob sua supervisão”, consta na investigação.
No caso desses dois policiais penais não houve pedido de prisão — o supervisor segue atuando no sistema e mulher está em licença-saúde.
— Eles não foram indiciados por terem participado da soltura de William. O que a investigação demonstrou é que ambos tiveram acesso a informações que evidenciavam uma inconsistência grave: William aparecia como solto nas planilhas de controle, mas permanecia registrado como preso no sistema. Mesmo diante desse cenário, não adotaram qualquer providência. As provas de acesso aos sistemas e as contradições encontradas nos depoimentos foram determinantes para a conclusão da investigação — afirma o delegado Augusto Zenon.
A investigação não conseguiu até o momento identificar o que teria motivado o servidor a colaborar com a fuga. Na última quinta-feira (30), a polícia apreendeu uma Rampage Laramie, que teria sido comprada por Rudcrei em fevereiro deste ano, no valor de R$ 235,8 mil. Segundo a investigação, durante a aquisição, R$ 119,4 mil foram pagos via Pix e boleto. Para a polícia, o valor é incompatível com os ganhos do servidor.
Um inquérito, em separado, seguirá investigando se há outros envolvidos na fuga e a motivação.
Falsa soltura
No fim de maio, chegou até a Polícia Civil informação da Brigada Militar de que Will teria retornado à Vila da Paz, em Cachoeirinha. O relato gerou estranheza, já que o faccionado constava como preso em Charqueadas. No sistema, constava que ele estava hospitalizado, mas não havia indicação de local. Foi a partir daí que as polícias Civil e Penal descobriram que o apenado havia desaparecido.
Embora no sistema constasse que ele havia saído da prisão para ser internado num hospital, a análise das câmeras de segurança levou à descoberta de que ele tinha saído pela porta da frente, junto de outro preso. A partir deste ponto, a investigação passou a tentar compreender como o apenado havia deixado a cadeia, sem mandado de soltura remetido pela Justiça. Desde o início, havia a suspeita de que alguém havia colaborado para a saída.
Ao longo da investigação, os policiais chegaram ao nome de Rudcrei, um servidor que exercia função dentro do Infopen, que é o setor responsável por receber os alvarás de soltura do Departamento de Comunicação Legal da Polícia Penal, que, por sua vez, recebe esses mandados do Poder Judiciário.
Segundo a polícia, era o servidor quem recebia os mandados, comunicava às galerias para que o preso fosse retirado da cela e levado ao seu setor. Ali, deveria ser feita a etapa de verificação biométrica. A investigação indica que somente o servidor do Infopen poderia burlar esta etapa.
A polícia concluiu que ele mesmo falsificou o alvará de soltura, entregando duas vias ao preso, para que ele apresentasse uma delas no pórtico de saída. Para a investigação, ele foi responsável por toda essa simulação de legalidade da fuga do preso.
Imagens de câmeras
Os registros câmeras analisados pela investigação mostram toda a movimentação do preso em 21 de maio:
- Às 9h08min, Will é retirado da cela por outro policial penal, sob instrução de Rudcrei, segundo a polícia.
- Às 9h15min, o policial penal deixa Will e outro preso na sala com Rudcrei.
- Às 9h28min, um policial penal conduz os dois presos em direção à saída, ambos com os documentos de soltura. A polícia localizou este outro preso, que havia saído de forma legal. Ele confirmou que foi até a sala do servidor investigado.
- Às 9h29min, Will apresenta o alvará falso junto ao pórtico principal e deixa a unidade.
A fuga aconteceu durante período de troca de visitas. Segundo a apuração, o dia e horário foi escolhido justamente pela maior circulação de pessoas.
Eliminação de vestígios
Na segunda etapa, conforme a investigação, o servidor passou a eliminar todos os vestígios deixados. Segundo a polícia, ele suprimiu documentos como a segunda via do alvará, que havia sido deixada no pórtico. No livro de registro, onde foi informada a saída do preso, folhas foram arrancadas.
As planilhas internas também teriam sido adulteradas, com uso de senhas de colegas, sem que eles soubessem. Conforme a polícia, o livro de passagem do plantão, com a conferência total de presos, também foi alterado. Movimentações foram incluídas falsamente no sistema, entre elas uma saída para atendimento hospitalar, que nunca aconteceu.
Segundo a polícia, o servidor tentou evitar que os demais percebessem a fuga do preso. O desaparecimento do apenado só foi constatado em 1º de junho, quando o caso passou a ser investigado.
Até esta segunda-feira, Will permanece foragido.
Mortes em Cachoeirinha
Will é um preso conhecido dos policiais, com 34 anos de condenação e antecedentes por homicídio, tráfico de drogas, organização criminosa, entre outros. O inquérito, remetido ao Judiciário pela Polícia Civil, aponta que após a soltura dele aconteceram homicídios em Cachoeirinha, um deles um dia após a soltura do faccionado, e outros dois em 1º de junho.
A polícia suspeita que os crimes estejam vinculados ao grupo que ele integra. Will é apontado como um dos principais executores de um dos braços da maior facção de Porto Alegre. Conforme a polícia, ele chegou a gerenciar o tráfico e ser responsável pelos armamentos, especialmente na Vila da Paz.
O que diz a defesa de Rudcrei da Costa Machado
Em depoimento, Rudcrei da Costa Machado negou ter sido o responsável pela soltura de William. Ele alegou que a fuga aconteceu por falhas de outros setores.
O advogado Jefferson Billo, um dos responsáveis pela defesa do policial penal, encaminhou nota, onde afirma não ter tido acesso à conclusão da investigação, mas reitera a inocência do cliente.
Confira a nota na íntegra:
"A defesa de Rudicrei informa que, até o presente momento, não teve acesso aos autos do inquérito policial, nem ao relatório final que fundamentou o seu indiciamento. Ainda assim, reafirma a absoluta convicção na inocência de seu cliente, a qual será devidamente demonstrada no curso da instrução processual, em observância ao devido processo legal, ao contraditório e à ampla defesa. A defesa ressalta, desde já, que há informações divulgadas que não correspondem aos fatos e que serão oportunamente esclarecidas nos autos, motivo pelo qual confia que a verdade será devidamente apurada no decorrer do processo."



