Quando começou a se relacionar com Vinicius Roig, em 2012, a psicóloga Kelly Soares não imaginava que, em poucos meses, iria a uma Delegacia da Mulher registrar um boletim de ocorrência. Em janeiro de 2013, ela sofreu agressões dentro de casa, no bairro Sarandi, zona norte de Porto Alegre.
O processo demorou cerca de quatro anos para ter um desfecho. Em 2017, Vinicius foi condenado a sete meses e 10 dias de detenção, em regime aberto, pelos crimes de lesão corporal no contexto de violência doméstica e ameaça.
Na quinta-feira (30), Roig foi preso preventivamente em Santa Catarina durante investigação de estupro registrado em Torres, no litoral gaúcho, no ano passado. O caso ganhou repercussão nas redes sociais nas últimas semanas.
Procurada pela reportagem, a defesa de Roig que atua na investigação atual enviou nota na qual destaca "veemente repúdio a qualquer forma de violência ou agressão contra a mulher" e afirma que "todos os fatos serão devidamente esclarecidos no foro adequado" (leia abaixo).
"Já podia ter sido parado"
Em entrevista a Zero Hora, Kelly relatou o que aconteceu na noite de janeiro de 2013. O condomínio onde ela morava havia adotado um novo protocolo que determinava que todos os visitantes fossem anunciados aos moradores. Os porteiros não avisaram quando Vinicius subiu, e Kelly resolveu ligar para pedir que o protocolo fosse seguido.
— Quando eu desliguei, ele me olhou e falou: “Tá achando que eu sou marginal?”. Depois disso, ele pegou o lado esquerdo da minha têmpora, pegou um tufinho de cabelo meu e me arrastou até o meu quarto. Lá, eu apanhei por quase uma hora. A sola do sapato dele ficou marcada na minha coxa por 60 dias.
Conforme o relato de Kelly, Vinicius quebrou o celular da mulher na cabeça dela e ainda fez ameaças:
— Eu gritava e ele batia na minha boca dizendo “cala a boca, porque daqui não vai adiantar tu gritar, tu só vai sair no porta-malas do meu carro”. Em algum momento, ele parou, saiu de cima de mim e sentou na beira da cama, bem calmo. Parou, me olhou e disse: “Olha o que eu fiz contigo, eu preciso te levar pro hospital”.
Nesse momento, Kelly tentou acalmar Vinicius, pedindo que ele fosse embora e garantindo que ela ficaria bem. Assim que ele saiu, mesmo ferida, Kelly dirigiu até a casa da mãe, em Cachoeirinha, para pedir ajuda. As duas foram até a Delegacia da Mulher, de onde Kelly foi encaminhada para atendimento no Hospital de Pronto Socorro. Ela pediu medida protetiva e resolveu processar Vinicius.
Violência contra a mulher
A primeira audiência do caso ocorreu em 2016, quando Kelly já estava grávida de outro relacionamento. A sentença veio em 2017: sete meses e 10 dias em regime aberto e cumprimento de serviços sociais.
— Eu achei um absurdo quando eu li aquilo, mas já estava num outro momento de vida, meu filho tinha nascido, e eu decidi não recorrer.
A revolta é ele já poderia ter sido parado há 13 anos ou há 10 anos que seja, quando eu denunciei e ele recebeu essa sentença rídicula.
KELLY SOARES
Psicóloga e ex-namorada de Vinicius Roig
Procurado sobre o caso da condenação de 2017, o Tribunal de Justiça afirmou, em nota, que "trata-se de um processo antigo, que ainda não tramita no sistema Eproc, era do antigo sistema Themis, e envolve matéria que, em regra, tramita sob segredo de Justiça. Essas circunstâncias dificultam a localização e o acesso aos autos".
Conforme a Polícia Civil, Vinicius Roig segue preso preventivamente pela suspeita de estupro em Torres.
O que diz Vinícius Roig
A defesa atual de Roig afirmou que não vai se manifestar sobre casos anteriores e que o homem permanece em Santa Catarina, onde foi detido pela suspeita de estupro.
Antes da prisão, Vinicius Roig declarou a Zero Hora que havia buscado contato com a delegacia de Torres de forma voluntária e se colocado à disposição das autoridades.
Após a detenção preventiva, a defesa dele, representada pelo advogado Argeu Debiazi, enviou a seguinte nota:
A defesa de Vinícius Roig reitera seu veemente repúdio a qualquer forma de violência ou agressão contra a mulher, ao tempo em que reafirma sua inabalável confiança nas garantias constitucionais, em especial no princípio da presunção de inocência (Art. 5º, LVII, da Constituição Federal).
Toda e qualquer alegação deve ser rigorosa e imparcialmente apurada pelos órgãos competentes, sob o crivo do devido processo legal. A espetacularização dos fatos nas redes sociais e na imprensa promove julgamentos antecipados e gera danos irreparáveis à honra e à imagem de quem, ao final do processo, pode ter sua inocência cabalmente reconhecida.
A defesa assegura que todos os fatos serão devidamente esclarecidos no foro adequado e reafirma sua inteira confiança na Justiça Brasileira.








