
A Polícia Civil concluiu a investigação sobre a morte de Oliver Grayson, de três anos, e as agressões sofridas por seus quatro irmãos ao longo dos últimos nove anos. O pai, o missionário norte-americano Dandre Grayson, e a mãe, Mayanna Rodgers foram indiciados pelos crimes de homicídio duplamente qualificado e tortura majorada em cinco vezes. Dandre também deve responder por injúria, violência psicológica, vias de fato e estupro contra a própria esposa, em um segundo inquérito que investigou violência doméstica. O casal permanece preso preventivamente.
O inquérito teve início em 5 de julho, quando o pai foi preso em flagrante após espancar o menino porque a criança não lhe deu "bom dia". Na ocasião, o garoto sofreu lesões corporais graves e traumatismo cranioencefálico, vindo a falecer no dia 9 de julho.
A perícia necroscópica confirmou que a causa da morte foi traumatismo cranioencefálico grave com hemorragia subdural. O laudo também apontou a existência de múltiplas cicatrizes antigas, indicando histórico de violência.
Rotina de violência e silêncio
Com o desdobramento das apurações, a polícia identificou que as crianças — com idades entre um e nove anos — eram submetidas a torturas físicas e psicológicas sistemáticas durante os nove anos em que a família viveu em diferentes cidades do Brasil.
Exames físicos revelaram que todas as crianças, exceto a mais nova, de um ano, apresentavam diversas marcas, cicatrizes e mordidas de diferentes épocas e causadas por variados instrumentos. Depoimentos e diligências apontaram que a mãe não apenas agredia os filhos, sob a justificativa de que a violência integrava a educação e a disciplina, como também os orientava a esconder o corpo e a não relatar as agressões a terceiros.
Conforme a investigação, devido ao forte controle psicológico exercido pelos pais, as crianças recusaram-se a conversar com a perita psiquiátrica, com exceção de uma delas, que relatou poucos detalhes.
Omissão da mãe e dinâmica do crime
Para a delegada Luana Medeiros, responsável pelo caso, a mãe também aplicava tortura, ao orientar os filhos a não mostrarem o corpo para não aparecer as marcas de agressão realizadas por ela e pelo pai. O casal acreditava na agressão como instrumento de educação e disciplina.
Durante o homicídio, a investigação apontou que a mãe permaneceu no quarto ao lado enquanto a criança era espancada. A polícia descartou a hipótese de que ela não tenha ouvido as agressões, destacando que a residência era de madeira, de pequeno porte, sem portas (substituídas por lençóis) e que o nível de violência e os gritos da vítima eram intensos. A defesa de Mayanna alega que ela não ouviu as agressões pois estava no quarto ouvindo música.
O inquérito apontou ainda que, embora o pai também tenha sido indiciado por violência doméstica contra a companheira — incluindo injúria, vias de fato, violência psicológica e estupro, em inquérito desmembrado —, a mãe teve diversas oportunidades ao longo dos anos para buscar ajuda, inclusive durante visitas de agentes municipais à residência, mas optou por se manter inerte.
Medidas protetoras e rede de atendimento
Os demais filhos do casal foram retirados do convívio familiar e encaminhados para abrigos protegidos. Em relação à atuação dos agentes da rede de proteção do município de Viamão, a polícia concluiu que não foram identificados elementos de dolo que configurassem crime na conduta dos servidores. O caso segue agora sob análise do poder Judiciário e do Ministério Público. A prefeitura de Viamão também investiga o caso.
Contraponto
O que diz a defesa de Dandre Grayson
A defesa informa que, na noite de ontem, foram encerradas as investigações e a autoridade policial concluiu pelo indiciamento do Sr. D’Andre Grayson.
O acervo probatório acostado pela autoridade policial — até ontem em sigilo para a defesa — é extenso e carece de análise técnica e pormenorizada por seus defensores.
Diante disso, por ora, ante o recente acesso, a defesa manifesta discordância da capitulação utilizada pela autoridade policial e espera que o Ministério Público realize a análise técnica necessária na formação da opinio delicti
Ademais, durante a instrução criminal, sob o crivo do contraditório e da ampla defesa, serão apresentados ao juízo competente fatos e argumentos defensivos capazes de garantir um julgamento justo ao indiciado.
Ismael Schmitt / Jader Santos — Defensores Constituídos
O que diz a defesa de Mayanna Rodgers
A reportagem busca contato com a defesa da mãe de Oliver. O espaço segue aberto para manifestação.
Relembre o caso
No dia 5 de julho, Oliver deu entrada no Hospital de Pronto Socorro (HPS) após ter sido espancado pelo pai, Dandre Grayson.
O homem confessou ter agredido o filho por ele não ter dado "bom dia". Dandre, que se diz missionário e prega para igrejas evangélicas, foi preso preventivamente.
A criança ficou internada três dias, e teve a morte confirmada na noite do dia 9. No dia seguinte, a mãe, Mayanna Rodgers, também foi presa de forma preventiva. Segundo a Polícia Civil, ela é suspeita de omissão e tortura.
A família já era acompanhada há oito meses pelo Conselho Tutelar e pela prefeitura de Viamão. Uma enfermeira acionou a rede de proteção após verificar machucados nos corpos das crianças. No entanto, relatório não apontou vestígios de violência. Havia histórico de violência ou de acompanhamento do poder público em ao menos três cidades: Águas de Lindoia e Mogi Mirim, em São Paulo, e Palmitos, no Estado de Santa Catarina.
O Tribunal de Justiça, Ministério Público e Polícia Civil afirmam que não receberam nenhuma informação sobre a família.




