
A Brigada Militar passou a adotar neste ano um protocolo para o atendimento de ocorrências envolvendo pessoas em crise de saúde mental. A principal mudança é a atuação integrada com o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). As duas equipes recebem as mesmas informações ainda durante o acionamento e são orientadas a se encontrar antes de chegar juntas ao local da ocorrência.
Esse modelo foi criado após casos envolvendo atendimentos desse tipo, que tiveram como desfecho a morte da vítima. Um deles aconteceu em setembro do ano passado, na zona norte de Porto Alegre. Herick Cristian da Silva Vargas, 29 anos, morreu após ser baleado durante o atendimento realizado pela Brigada Militar. Ele estava em surto e sob efeito de entorpecentes.
Em entrevista ao Gaúcha Atualidade, da Rádio Gaúcha, na manhã desta quinta-feira (13), o subcomandante-geral da Brigada Militar, coronel Jorge Dirceu Abreu Silva Filho, disse que o protocolo marca uma mudança na forma como os policiais militares encaram esse tipo de atendimento. Situações que envolvem pessoas em surto, em crise ou com comportamento suicida eram muitas vezes tratadas pelos policiais como ocorrências criminais.
— Nós tínhamos uma visão que mudou. Essas ocorrências eram vistas como criminais. Mas hoje temos esse entendimento de que não é um indivíduo criminoso, é um indivíduo que estava ali no momento de crise, precisando de ajuda — afirmou.
Após a morte de Herick, o governo do Estado reuniu as secretarias da Segurança Pública e da Saúde para avaliar os procedimentos adotados e buscar alternativas para reduzir riscos. Durante a análise, segundo o subcomandante, a Brigada e a área da Saúde identificaram que havia protocolos distintos, que não conversavam entre si.
Mesmo protocolo para BM e Samu
Pelas novas regras, a partir do momento em que uma ocorrência é comunicada, os atendentes do 190 e do Samu fazem perguntas estruturadas para obter informações sobre a situação. Entre os dados levantados estão se a pessoa fez uso de drogas, se está armada e se está sozinha. As informações são repassadas às equipes que serão deslocadas. A partir daí, é definido um ponto de encontro para que a guarnição da Brigada Militar e a equipe do Samu cheguem juntas ao local.
— Hoje esse protocolo é o mesmo. Quando as guarnições, tanto da Brigada quanto da Samu, vão para essa ocorrência, eles vão com as mesmas informações e eles se encontram para poder chegar junto — explicou Silva Filho.
A lógica, segundo o coronel, é evitar que a Brigada Militar seja acionada apenas quando a situação já chegou em um nível elevado de tensão. Antes do protocolo, era comum que equipes do Samu chegassem primeiro e solicitassem apoio policial diante de uma pessoa agressiva ou que oferecesse risco. Com a nova metodologia, a equipe de segurança e os profissionais de saúde passam a atuar de maneira coordenada desde o início.
Abordagem deixa de ser centrada no caráter criminal
A alteração também alcançou o treinamento dos policiais. Conforme o subcomandante, os PMs passaram a ser preparados para identificar se a pessoa está sob efeito de drogas ou álcool, se deixou de tomar medicamentos ou se apresenta algum tipo de alteração relacionada à saúde mental. A orientação é fazer uma abordagem humanizada, levando em consideração o estado psíquico da pessoa.
— Ela não é tratada como um criminoso, como um indivíduo que está ameaçando as pessoas por simplesmente ele estar cometendo uma infração penal, mas sim a gente entende aquele estado psíquico dele— afirmou o coronel.
O treinamento foi elaborado com participação de profissionais da saúde, bombeiros militares e policiais. Equipes do Hospital São Pedro, referência no atendimento de pacientes com transtornos mentais, participaram da preparação dos agentes e das orientações sobre abordagem e técnicas de contenção.
Os policiais também passaram a ser submetidos a simulações de diferentes situações. Os exercícios incluem desde pessoas em crise suicida ou em estado de alucinação até casos em que o paciente está armado com objetos ou ameaça outras pessoas. A capacitação considera ainda diferentes faixas etárias e situações específicas, como pessoas com transtorno do espectro autista e pessoas surdas.
Orientação começa no telefone
Outra mudança está no papel do atendente que recebe a ligação. Enquanto a viatura é deslocada, o operador do 190 busca manter o contato com quem pediu ajuda e orienta os familiares. A recomendação é que, se a pessoa em crise estiver sozinha, familiares não entrem no ambiente para tentar contê-la, evitando que também sejam feridos. O atendente pode orientar quem está no local a se proteger e permanecer em um ambiente seguro até a chegada das equipes.
Segundo Silva Filho, a Brigada registrou redução de incidentes envolvendo pacientes em crise, policiais e profissionais de saúde após a implementação da metodologia. O coronel disse ainda que o Rio Grande do Sul é, atualmente, o único no Brasil com um protocolo desse tipo e que policiais de outras unidades estão vindo ao Estado para conhecer a metodologia e replicá-la.
Além do conteúdo disponibilizado remotamente para o efetivo, a Brigada está formando policiais multiplicadores, responsáveis por levar os treinamentos práticos às diferentes regiões do Estado. Para o subcomandante, a intenção é fazer com que a mudança de abordagem alcance também os municípios do Interior, onde a disponibilidade de efetivo pode ser menor.



