
Quando decidiu denunciar o ex-companheiro, Luiza Brunet transformou uma experiência pessoal em causa pública. Anos depois, tornou-se uma das vozes mais conhecidas do combate à violência contra a mulher no país, levando para tribunais, universidades e eventos uma discussão que, segundo ela, começa muito antes da agressão física.
Em 2016, Luiza denunciou o ex-companheiro, o empresário Lirio Parisotto, por agressão. Ele acabou condenado no ano seguinte. Em 2020, a condenação foi confirmada pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Ela ainda busca, no entanto, o reconhecimento da união estável.
Na quarta-feira (5), a ativista, modelo e empresária foi uma das palestrantes da Cidade da Advocacia, em Porto Alegre. Em entrevista a Zero Hora, ela revisita sua história, avalia os avanços e obstáculos na luta contra a violência de gênero no Brasil.
Confira a entrevista com Luiza Brunet
Tu já referiste que denunciar a violência que sofreu mudou o rumo da tua vida.
Denunciar não é fácil para nenhuma mulher, mas é preciso. Com esta atitude, você poderá estar mais segura com medidas protetivas. Além de ser libertador poder enfrentar um homem agressor. Quando me refiro à mudança em mim, foi tomar consciência da realidade dos números que mulheres vivenciam. Passei a limpo a minha história e o reconhecimento de várias violências que eu já havia sofrido.
Como foi essa transição?
Fui uma criança testemunha ocular de violência doméstica. Vi minha mãe sofrendo por anos. Ela, por instinto, resolveu sair de casa com seis filhos e retornar para o Rio de Janeiro. Do Mato Grosso do Sul foram dias de ônibus. Chegamos ao Rio apenas com a coragem. Fomos para a casa de um parente. Fui destinada a trabalhar em casa de família. Lá sofri um abuso sexual. Eu tinha 11 anos. Foi difícil lidar com tudo isso. Voltei para casa, parei de estudar e trabalhei em várias casas de família.
Infelizmente fui vítima de abusos constantes. Não tinha como me defender. Logo arrumava outro emprego e tudo se repetia. Casei aos 16 anos, em 1979. Me tornei modelo por acaso.
LUIZA BRUNET
Modelo, ativista e empresária.
Tive uma carreira da qual me orgulho, mas muitas histórias para contar. Uma época em que mulheres eram tratadas como objeto. Me tornei modelo exclusiva da Dijon e, por mais que ninguém tenha sabido, vivi diversos abusos.
O que foi mais difícil neste processo todo?
O mais difícil foi, e está sendo, a demora na definição. Ele (o ex-companheiro) já foi condenado por unanimidade no STF. Falta o processo de reconhecimento de união estável, que está na gaveta há 10 anos. Mas, quando há poder econômico e poder político, é isso.
A violência começa muito antes da agressão física. Ao longo dos anos, mencionastes que a violência psicológica deixou marcas até mais profundas. Por quê?
Toda violência é danosa. Mulheres vivem em cárcere privado físico e mental. Mulheres são agredidas com socos, machadinhas, martelo, foice, atropeladas e arrastadas, esganadas e estupradas. Mas a ponta do iceberg é a violência psicológica. Essa, sim, destrói.
Ela comete danos profundos à saúde mental, como ansiedade, isolamento, depressão e estresse pós-traumático. Ela engloba ameaças, humilhações, isolamento e controle excessivo, entre outras violações. Como podemos viver com tantas humilhações, privações e solidão?
Por que tu achas que tantas mulheres permanecem em relacionamentos violentos e, no teu caso, o que fez a diferença?
Mulheres sem rede de apoio e sem família que as acolha se tornam vítimas fáceis e, muitas vezes, fatais. Há uma falta de divulgação para que as mulheres conheçam seus direitos, e esse reconhecimento é importante. Quando sabem que têm e podem ter acesso aos seus direitos, tudo muda.
Um dos fatores que reduz a mulher é não ter sua autonomia financeira. Isso não isola a mulher de ser agredida, mas ela pode sair do ambiente violento. A outra dependência é a emocional. Ela acredita que o tempo vai fazer o seu companheiro mudar. E isso, de fato, não acontece.
LUIZA BRUNET
Modelo, ativista e empresária.
Ao contrário, o grau de violência só cresce. Volto a citar a importância do apoio da família, dos amigos e da sociedade civil. Não é justo presenciar violações sem se prontificar a chamar a Polícia Militar, no 190, podendo até evitar um feminicídio.
Até a tua denúncia, não eram tantas pessoas com vida púbica reconhecida que falavam sobre o tema. Tu consideras que teu relato encorajou outras mulheres?
Entendo que este é um momento de vulnerabilidade e vergonha para qualquer vítima. Quando mulheres que têm reconhecimento profissional, artístico ou mesmo na magistratura decidem denunciar, há, mesmo que invisível, uma motivação para que todas acreditem que esta é a melhor atitude a ser tomada.
E, de fato, sinto que a pauta da mulher ganhou um espaço valioso perante a sociedade e a Justiça. Ganhamos muito com a Lei Maria da Penha. Mas existem hoje abrigos, coletivos, ONGs, institutos, organizações e empresas que aplicam metodologias de respeito. Existe uma mudança, mesmo que lenta.
Na vida profissional, quanto o teu caso impactou, abriu portas ou enfrentou preconceitos?
Abriu muitas portas. Passei a frequentar muitos congressos nacionais e internacionais. Passei a fazer parte de um grupo seleto. Falei no Senado Federal sobre violência psicológica. Participo de discussões em eventos no STJ (Superior Tribunal de Justiça), Tribunal de Justiça, OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público), OIM (Organização Internacional para as Migrações), sobre tráfico de pessoas e Operação Acolhida.
Mas portas foram fechadas também. E, infelizmente, sei quem as fechou. Mas o importante foi dar voz a quem era silenciada. Hoje me orgulho muito da mulher que me tornei. Não tenho medo de nada e sou capaz de enfrentar qualquer batalha.
Teu caso também ajudou a desconstruir a ideia de que violência doméstica é um problema restrito a determinados grupos sociais. Essa percepção ainda persiste?
A violência contra a mulher é a única democracia que, de fato, funciona. Ela unifica o padrão. Independe de qualquer outra coisa. E isso une as mulheres. E precisamos ter responsabilidade agora nas próximas eleições. Há partidos e candidatos usando a pauta da mulher para alavancar suas campanhas. Prestem bem atenção nas propostas e, principalmente, no histórico dos políticos e das políticas.
Outro ponto é revitimização e os julgamentos após a denúncia. Para ti, o que isso revela sobre a sociedade? Em que ainda é preciso avançar?
A revitimização que eu sofri foi pesada. E foi motivada pelo meu próprio agressor. Ele criou um grupo de mulheres, possivelmente fãs. O nome do grupo era "Liretes". Me atacaram pesadamente e algumas, inclusive, respondem a processos. Hoje a revitimização se tornou crime. E pessoas que promovem esse tipo de procedimento são julgadas e presas, dependendo do desfecho da vítima, que, no caso, poderia chegar ao suicídio.
Além da falta de conhecimento do processo, que normalmente fica em segredo de Justiça. Então, retaliações chegam de diversas partes, que chamamos de "abutres de notícias sem fundamento". Mas a Justiça está aqui para julgar.


