
Uma aposentada gaúcha foi uma das vítimas do chamado pig butchering, ou o golpe do abate de porcos. Nesta quinta-feira (13), o Departamento Estadual de Repressão aos Crimes Cibernéticos do Rio Grande do Sul realiza a Operação Criptoabate contra suspeitos de envolvimento nessa fraude. A ofensiva ocorre no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e em São Paulo.
Segundo o advogado da vítima, Bernardo Campos, o golpe foi aplicado de forma a fazer a aposentada confiar nos criminosos. No início, a cliente chegou a fazer investimentos no mercado tradicional, seguindo as orientações recebidas no grupo e teve lucro.
— Ela teve um ganho ali e não foi tão pequeno — relata.
Segundo o advogado, a dinâmica fez com que a vítima começasse com um valor menor, observasse o saldo crescer na plataforma e, depois de realizar um pequeno saque, passasse a confiar cada vez mais no sistema. Os integrantes do grupo passaram a estimular a migração para uma suposta corretora, onde os rendimentos seriam maiores.
Aos poucos, a idosa passou a aumentar os valores investidos. Os aportes começaram na casa dos R$ 100 mil e depois chegaram a R$ 400 mil e R$ 500 mil. Na etapa seguinte, houve transferências superiores a R$ 2 milhões, incluindo pelo menos duas operações de R$ 3 milhões realizadas no mesmo dia, segundo o advogado.
Entre agosto de 2024 e janeiro de 2025, ela transferiu cerca de R$ 37 milhões para contas e plataformas indicadas pelos criminosos. O que parecia ser uma oportunidade de investimento era, na realidade, parte de um esquema criminoso internacional no qual a vítima é convencida gradualmente a confiar na plataforma e a aumentar os aportes antes de ter o acesso ao dinheiro bloqueado.
Criptomoedas
Os valores eram transferidos em reais, convertidos em criptomoedas dentro do sistema e, a partir dali, a cliente recebia novas orientações sobre onde investir. O esquema era sustentado por uma intensa comunicação no WhatsApp.
Além do grupo principal, havia canais destinados a diferentes funções, como financeiro e comercial. A vítima era constantemente bombardeada por mensagens, notícias, supostos comprovantes e relatos de outros investidores que diziam ter obtido lucro.
Neste grupo de WhatsApp com centenas de participantes, um suposto professor — que se identificava como Miguel —, apresentado como especialista no mercado financeiro e com formação em Harvard, dava sugestões de aplicações. Parte da estratégia consistia em criar a sensação de que a vítima estava inserida em uma comunidade de investidores.
— Tem muita inteligência artificial por trás disso para conseguir fazer com que tenha centenas de pessoas no grupo, que são pessoas falsas, não são centenas de criminosos, é o robô que fica trabalhando. A narrativa era boa, eles eram convincentes, mas, infelizmente, não passava de uma fantasia — diz Campos.
Quando a vítima tentava retirar quantias maiores, surgiam justificativas para explicar porque o dinheiro não poderia ser sacado. Em vez de perceber imediatamente que havia sido enganada, a própria vítima passou a acreditar que havia escolhido um investimento ruim.
— Quando pede para sacar, geralmente vem acompanhado ali de alguma aplicação que de repente desvalorizou. E a pessoa acaba se sentindo culpada: "Foi uma aplicação que eu escolhi que desvalorizou, por isso que não tem mais dinheiro para sacar lá", e não que a plataforma é fraudulenta — afirma o advogado.
As operações começaram a perder valor de forma inexplicável. Quando tentou retirar quantias maiores e não conseguiu, a vítima procurou o gerente do banco e, posteriormente, o escritório do advogado.
Olha o golpe
Tentativa de recuperar valores
O caso começou a ser investigado pela Polícia Civil em janeiro de 2025. Para o advogado, o rastreamento do dinheiro é um dos principais desafios. Segundo ele, estruturas criminosas desse tipo podem ser divididas em diferentes grupos: alguns responsáveis por desenvolver os sistemas usados nas fraudes, outros pela abordagem das vítimas e outros pela movimentação dos recursos.
— Exige um trabalho hercúleo e muito intenso por trás para mapear tudo — diz Campos, ao destacar a investigação conduzida pelos policiais responsáveis pelo caso.
Além de tentar recuperar os valores eventualmente localizados e bloqueados pela investigação, o advogado afirma que pretende discutir a responsabilidade das instituições financeiras que participaram das operações. No entendimento do advogado, houve movimentações incompatíveis com o histórico da cliente e transferências para contas recém-criadas que passaram a movimentar valores milionários em pouco tempo. Para o advogado, os bancos deveriam ter identificado as transações como atípicas e acionado mecanismos de prevenção a fraudes.
Para Campos, o principal alerta é desconfiar de oportunidades que prometem retornos elevados e buscar informações independentes antes de transferir dinheiro, especialmente quando a orientação vem exclusivamente de grupos de mensagens ou de pessoas cuja identidade e credenciais não podem ser verificadas.
— Algumas histórias às vezes são muito bem contadas, num local certo, na hora certa, e a pessoa acaba fazendo um investimento de uma vida — pontua.





















