Às 9h29min de 21 de maio de 2026, o apenado Willian Ramos Silveira, 29 anos, deixou a Penitenciária Modulada de Charqueadas pelo pórtico principal. Uma investigação da Polícia Civil e da Corregedoria-Geral da Polícia Penal aponta que ele carregava um alvará de soltura falsificado para deixar a prisão.
Na terça-feira (30), foi preso Rudcrei da Costa Machado, servidor de carreira da Polícia Penal, por suspeita de ter facilitado a fuga do preso. Nesta quarta-feira (1º), em coletiva à imprensa, a polícia informou que o documento usado por Silveira para deixar a cadeia foi forjado pelo agente preso.
— O servidor atuou mais ou menos em três etapas. A primeira delas foi de criar uma aparência de legalidade para essa fuga. Ele é um servidor que exercia uma função dentro do Infopen, da Penitenciária Modulada Estadual de Charqueadas, que é o setor responsável por receber os alvarás de soltura do DCL, que é o Departamento de Comunicação Legal da Polícia Penal, que, por sua vez, recebe esses mandados do Poder Judiciário — explicou o delegado Cassiano Cabral, do Departamento Estadual de Repressão aos Crimes Contra a Administração Pública (Dercap) da Polícia Civil.
Segundo a polícia, era o servidor quem recebia os mandados, comunicava às galerias para que o preso fosse retirado da cela e levado ao seu setor. Ali, deveria ser feita a etapa de verificação biométrica. A investigação indica que somente o servidor do Infopen poderia burlar esta etapa.
— Ele mesmo falsificou o alvará de soltura, deu duas vias para esse preso para que ele apresentasse uma dessas vias no pórtico de saída e a outra ficasse consigo para sair. Então, ele foi responsável por toda essa simulação de legalidade da fuga do preso numa primeira etapa — disse o delegado.
Imagens de câmeras analisadas pela investigação mostram toda a movimentação do preso. Às 9h08min, Silveira é retirado da cela por outro policial penal, sob instrução de Rudcrei, segundo a polícia. Às 9h15min, o policial penal deixa Silveira e outro preso na sala com Rudcrei.
Às 9h28min, um policial penal conduz os dois presos em direção à saída, ambos com os documentos de soltura. A polícia localizou este outro preso, que havia saído de forma legal. Ele confirmou que foi até a sala do servidor investigado.
Às 9h29min, Silveira apresenta o alvará falso junto ao pórtico principal e deixa a unidade. A fuga aconteceu durante um período de troca de visitas. Segundo a apuração, o dia e horário foi escolhido justamente pela maior circulação de pessoas.
Eliminação de vestígios
Na segunda etapa, conforme a investigação, o servidor passou a eliminar todos os vestígios e rastros deixados dessa saída. Segundo a polícia, ele suprimiu documentos como a segunda via do alvará, que havia sido deixada no pórtico. No livro de registro, onde foi informada a saída do preso, folhas foram arrancadas.
As planilhas internas também teriam sido adulteradas, com uso de senhas de colegas, sem que eles soubessem. Conforme a polícia, o livro de passagem do plantão, com a conferência total de presos, também foi alterado.
— Nessa segunda etapa, ele eliminou qualquer vestígio possível ali e, muitas vezes se utilizando, todas as vezes se utilizando da confiança dos seus colegas, utilizando os seus logins. E numa terceira etapa, após a fuga do preso, no período em que ele ficou fora do presídio, em que não foi percebida a a sua saída, ele ficou fazendo movimentações no sistema Infopen para que não fosse percebida essa saída — afirmou Cabral.
Entre as movimentações que foram incluídas falsamente no sistema está uma saída para atendimento hospitalar, que nunca aconteceu. Segundo a polícia, o servidor tentou evitar que os demais percebessem a fuga do preso. O desaparecimento do apenado só foi constatado em 1º de junho, quando o caso passou a ser investigado.
Conforme a delegada Suelen Breda, desde que o desaparecimento do preso foi percebido, havia a suspeita de que alguém pudesse ter facilitado a fuga.
— Havia indícios de que alguém da PMEC ou de fora, enfim, algum servidor público e até mesmo alguém da facção criminosa, que é algo que ainda estamos investigando no momento, estivesse envolvido nessa fuga. Descobrimos que ele simulou que o preso foi para um hospital, mas para o preso sair para um hospital tem que ter um documento, tem que ter uma justificativa, tem que ter a escolta, tem que ter toda a movimentação do próprio sistema penal. E, nesse caso, o policial penal Rudcrei se utilizou de credenciais de logins de colegas para fazer essas movimentações — disse a delegada.
Silveira segue foragido e a polícia tenta recapturar o apenado, com histórico de envolvimento em homicídios e tráfico de drogas. A polícia ainda apura o que motivou o servidor a auxiliar na fuga. Uma das hipóteses é de que ele tenha recebido valores para fraudar a saída. No entanto, isso ainda está em apuração.
— É um fato preocupante, que liga um sinal de alerta para que a gente mantenha sempre as nossas estruturas de correção atentas a esse tipo de conduta por parte dos servidores. É importante registrar que essa é uma situação excepcional e de forma alguma reflete a seriedade e o trabalho dos nossos mais de 7 mil policiais que atuam nas unidades prisionais. Mas, uma vez que tenha acontecido uma situação lamentável como essa, é importante que a gente tenha a devida apuração e a devida responsabilização daqueles que faltaram com seus deveres funcionais — afirmou o secretário de Sistemas Penal e Socioeducativo, César Rossato.
Em depoimento à Polícia Civil, o servidor negou que tenha sido o responsável pela falsificação, que resultou na fuga do preso.
O que diz a defesa de Rudcrei da Costa Machado
A defensora de Rudcrei no processo administrativo disciplinar que pode resultar na expulsão dele da Polícia Penal, Paula Adriana Moreira Louzada, deve assumir o caso criminal e comentou a prisão do servidor.
"Em primeiro lugar, não há qualquer prova nos autos da participação do Rudicrei na fuga do apenado Willian. O que se tem são suposições de sua participação no fato. Ele é um servidor com vasta experiência no sistema e já teve vários cargos de chefia, sempre contando com a confiança dos seus superiores. Agindo sempre com lisura em suas funções. Não se justifica a prisão antecipada e sem qualquer fundamento legal e jurídico. Sempre esteve à disposição das autoridades para esclarecimento dos fatos. Nos causa estranheza a prisão cautelar, pois já se encontrava afastado das suas funções", afirmou Paula.



