Em 11 de junho, Elton Garske Vieira Alves, 46 anos, recebeu um telefonema do irmão mais novo, Elvis, 42, desesperado, dizendo que a mãe deles, Jane Garske Vieira Alves, 68, não despertava. A idosa morreu em casa, e a família suspeita que a morte tenha relação com a ingestão de um medicamento de uso controlado. Segundo os filhos, o remédio teria sido vendido sem receita por uma farmácia em Guaíba, na Região Metropolitana. O caso é apurado pela Polícia Civil.
O estabelecimento investigado é a Agafarma Santa Rita, localizada na Avenida Lupicínio Rodrigues, no bairro Cohab Santa Rita. Zero Hora buscou contato com a farmácia e a rede Agafarma para posicionamento sobre o caso. A loja não deu retorno até esta publicação, enquanto a rede destacou, em nota, que suas unidades têm gestão independente (confira a manifestação abaixo). A polícia esteve na farmácia, quando os responsáveis relataram que a idosa adquiria os medicamentos com receitas e que as cópias das comprovações seriam entregues.
O medicamento comprado é o Dimorf 30 miligramas, um analgésico opioide à base de morfina, indicado para o alívio de dores intensas agudas ou crônicas. Esse tipo de remédio só pode ser comercializado com retenção da receita, assinada por um médico.
— Se eu soubesse que ela estava tomando um medicamento controlado, de alto risco, sem receita, jamais teria deixado. Todos os dias olho o telefone esperando uma mensagem da minha mãe. É um vazio enorme, uma sensação de impotência — lamenta Elton.

Elton relata que Jane teria sido orientada na farmácia a tomar o medicamento de seis em seis horas — ela já fazia uso de outro medicamento controlado para a dor para o qual tinha receita. Segundo Elvis, que estava com a mãe no momento da ingestão, a aposentada tomou um comprimido e mais tarde outro. Após o segundo, não despertou mais.
O atestado de óbito de Jane indica “morte de causa desconhecida sem sinais de violência”. A idosa sofria com dores, especialmente por uma doença degenerativa da coluna e por conta de uma prótese no joelho.
— Ela tinha dores crônicas, mas esperávamos que ela ainda fosse viver pelo menos uns 20 anos. Minha mãe era a base da nossa família. Cuidou do meu pai até ele falecer. Cuidava de nós — diz Elton.
Filho relata ter comprado o mesmo remédio sem receita

Após a morte da mãe e o relato de Elvis de que Jane havia comprado o medicamento sem receita, Elton diz que decidiu verificar se a farmácia realmente fazia a venda dessa forma. Ele relata ter adquirido em 19 de junho uma nova caixa do remédio sem receita, usando o telefone da mãe. O filho descreve ter pago R$ 215 pelo medicamento, recebido por meio de telentrega.
— Combinei a entrega no centro de Guaíba, ali no terminal hidroviário da Catamarã. O motoboy me entregou a mesma medicação que venderam para a minha mãe: o Dimorf de 30 miligramas. Não me pediu receita, não me pediu nada. Foi entregue no dia e na hora combinada. Fácil assim — diz Elton, que registrou em vídeo o momento em que o remédio é recebido.
O medicamento adquirido pelo filho foi entregue à Polícia Civil no mesmo dia em que foi registrada ocorrência pela família. O advogado criminalista Maurício Machado, que acompanha o caso em nome dos filhos, solicitou à polícia que seja realizada a exumação do corpo da idosa, para verificar a causa da morte.
A polícia explica que a necessidade de exumação, realizada pelo Instituto-Geral de Perícias (IGP), ainda será analisada. A investigação quer avaliar se, após o tempo transcorrido, a perícia seria capaz de detectar a causa da morte e se ainda haveria resquícios do medicamento no corpo da idosa.
Farmácia ainda não entregou receitas

A delegada Karoline Calegari, responsável pela Delegacia de Polícia de Guaíba, deu início à investigação neste mês, após os filhos procurarem a polícia, relatando o caso.
— Estivemos na farmácia, requisitando todas as compras da vítima e a apresentação de todas as receitas — explicou em 17 de julho.
Até o momento, a farmácia não entregou as receitas à Polícia Civil, segundo o delegado Vladimir Urach, que responde temporariamente pela delegacia de Guaíba, durante as férias da titular.
— Nós estamos investigando duas situações. A primeira seria a venda de medicamento sem a receita devida. Segundo o que foi relatado por um dos filhos da senhora que faleceu, ela teria comprado naquela farmácia medicação controlada sem a devida receita e, depois da ingestão desse medicamento, ela acabou falecendo. Também estamos apurando as causas, se a medicação eventualmente comprada na farmácia causou a morte dessa senhora — afirma o delegado.
De acordo com Urach, o medicamento não poderia ter sido vendido sem receita em hipótese alguma:
— Vamos ouvir os médicos que atendiam a vítima, para saber qual tipo de doença ela tinha e por que ingeria medicamentos de uso controlado, para qual fim. E, depois, ouvir as pessoas que teriam atendido essa senhora e vendido o medicamento sem receita.
Ainda conforme o delegado, se for constatada a comercialização do remédio dessa forma, a pessoa que fez a venda pode responder por tráfico de drogas.
O que diz a empresa
Zero Hora fez diversas tentativas de contato com a farmácia investigada, por telefone e WhatsApp. Em uma das chamadas, a ligação foi atendida e um funcionário afirmou que levaria a demanda ao proprietário, mas não houve posicionamento até esta publicação.
Sobre o caso, a Rede Agafarma informou que as farmácias associadas são independentes, que tomou conhecimento dos fatos e que colabora com as autoridades na investigação, aguardando a conclusão das apurações. Confira a nota completa:
A Rede Agafarma é uma cooperativa que reúne farmácias associadas independentes, sendo cada unidade uma empresa própria, com gestão e responsabilidade individual sobre suas operações.
Em relação ao caso envolvendo a farmácia Agafarma Santa Rita, em Guaíba, a Rede Agafarma informa que tomou conhecimento dos fatos narrados na mídia e lamenta profundamente o ocorrido, prestando solidariedade à família envolvida.
A Rede está colaborando integralmente com as autoridades responsáveis pela investigação e aguarda a conclusão das apurações conduzidas pela Polícia Civil para ter acesso completo aos fatos.
Por se tratar de um processo em andamento, não temos condições de fornecer detalhes adicionais sobre o caso neste momento, inclusive de forma a não interferir no trabalho das autoridades competentes.
A Rede Agafarma reforça seu compromisso com o cumprimento rigoroso da legislação sanitária vigente, incluindo as normas de dispensação de medicamentos controlados, e permanece à disposição das autoridades para os esclarecimentos necessários.


