Um homem de 47 anos, identificado como Vinicius Roig, foi preso preventivamente nesta quinta-feira (30) por suspeita de estupro. Roig, que é tatuador, corretor de imóveis e músico, foi detido em Balneário Camboriú (SC).
O homem, que é morador de Torres, no litoral gaúcho, é investigado por violência física, psicológica e sexual contra uma ex-companheira. O relato dela em redes sociais, após a separação, repercutiu e incentivou outras mulheres que se relacionaram com ele a revelar supostos abusos.
O Ministério Público do Rio Grande do Sul (MP) afirma que apresentou três denúncias contra o homem por crimes contra uma mesma mulher nos municípios de Torres e Sapucaia do Sul, na Região Metropolitana. As denúncias apontavam os crimes de ameaça, perseguição, violência psicológica e descumprimento de medidas protetivas.
— A repercussão pública ocorreu agora em razão das manifestações e denúncias divulgadas nas redes sociais. Contudo, é importante destacar que o Ministério Público já vinha atuando no caso desde o momento em que tomou conhecimento dos fatos, adotando as medidas cabíveis para a responsabilização do investigado e a proteção da vítima — afirma o promotor de Justiça Márcio Roberto Silva de Carvalho, autor da primeira denúncia, em Torres.
Procurada pela reportagem, a defesa de Roig enviou nota na qual destaca "veemente repúdio a qualquer forma de violência ou agressão contra a mulher" e afirma que "todos os fatos serão devidamente esclarecidos no foro adequado" (leia abaixo).
Relato de vítima
— Fazia sexo para não apanhar.
Essa é a fala de uma mulher que decidiu falar publicamente, nas redes sociais, sobre cerca de um ano de episódios que envolviam violência psicológica, sexual e agressões físicas. O relato da moradora de Torres, no Litoral Norte, Michele Duarte, 48 anos, chegou até Juliana Roig, 50, que se criou no município.
Após uma mensagem de conforto, Michele revelou à Juliana que o homem ao qual ela se referia era o irmão dela, Vinicius Roig. A partir de então, Juliana resolveu reunir depoimentos de dezenas de mulheres e publicar nas redes sociais. A Polícia Civil investiga os casos.
Entre essas mulheres que se relacionaram com Vinicius, está Deise Santos. Em entrevista a Zero Hora, ela diz que acredita ter sido uma das primeiras vítimas do homem, em 1995, há 30 anos, em Novo Hamburgo.
— Eu tinha 14 anos quando começamos a namorar. Ele era encantador, querido, gentil. Era o sonho de toda menina. Aos poucos, ele começou a perguntar se eu estava olhando para alguém, se já tinha gostado de outra pessoa. Para não brigar, eu comecei a não olhar para os outros, eu caminhava olhando para baixo. Eu não podia olhar TV, nem ouvir rádio — narra Deise.
Segundo Deise, o homem gravou uma relação sexual dos dois e ameaçava ela afirmando que mostraria para todos.
— Eu não sei como, mas ele me pediu para fazer um relatório. Eu passava o recreio dentro da sala, fazendo o relatório sobre com quem eu tinha falado. Quando ele não gostava ele apertava minha mão. As agressões começaram com o aperto de mão, até que ele deslocou o meu dedo. Por anos, fiquei com o dedo torto — lamenta.
O relacionamento só acabou após a jovem conseguir pedir ajuda para a mãe. A escalada na violência a partir do controle e do isolamento social até chegar às agressões físicas e sexuais vai ao encontro do relato de Michele, que manteve o relacionamento com o mesmo homem 30 anos depois, entre fevereiro de 2025 e janeiro deste ano.
— Vinte dias depois que começamos a morar juntos, começaram as primeiras agressões de ciúmes. Eu não podia sair sozinha, não podia falar com ninguém. Eu só podia falar com meus pais com o viva-voz na frente dele — conta Michele.
A professora relata que o ciúme escalou para agressões físicas: chutes, mata-leão, estupros.
— Ele mordeu a minha língua até quase arrancar duas vezes, além da questão que era uma obrigatoriedade (transar), porque ele acreditava que a mulher não pode negar o seu homem.
Entre maio e junho, a professora voltou a morar sozinha, mas manteve o relacionamento com o homem. Após as condutas de controle e violência prosseguirem, Michele conta que chegou a pedir medida protetiva, retirar e depois solicitar de novo.
— Eu acreditava que ele não ia mais fazer em mim. Ele jurava de pé junto que nós devíamos ter ter uma vida muito boa e tal. No fim, era só o ciclo: o amor, agressão, o pedido de desculpa e o arrependimento — avalia Michele.
Assim como Deise, 30 anos antes, Michele resolveu encerrar o relacionamento após mais um episódio em fevereiro deste ano. Em março, segundo o relato, ele teria novamente buscado ela pedindo ajuda.
Investigação na Polícia Civil
Neste mês, quando decidiu contar sobre os episódios nas redes sociais, a professora voltou a procurar a Polícia Civil, que abriu um novo inquérito para apurar os crimes.
Conforme o delegado Marcos Veloso, de Torres, o homem já foi indiciado em 11 inquéritos envolvendo registros de três vítimas de violência doméstica no município nos últimos anos. Os episódios do ano passado ainda são investigados.
— A gente tem pouquíssimos inquéritos de violência doméstica em andamento na delegacia, porque temos uma dinâmica de remeter o quanto antes. Então, é importante também que elas compareçam na delegacia e registrem ocorrência contra o indivíduo, para que a gente possa fazer o oitiva delas — explica Veloso.
Em nota, o Tribunal de Justiça informou que "em razão do segredo de justiça que recai sobre os processos, não é possível prestar informações ou divulgar detalhes relacionados ao caso neste momento".
O Ministério Público, por meio da Central de Atendimento às Vítimas de Porto Alegre, já atendeu uma das mulheres para prestar apoio psicológico e orientação jurídicas.
— Já deparei com casos gravíssimos de feminicídio, de agressores extremamente ciumentos, com essa questão da fiscalização, de controlar, de humilhar, mas tantos fatos com tantas vítimas diferentes e em diversas cidades, eu nunca tinha me deparado avalia a promotora de Justiça Carla Frós, coordenadora da Central de Atendimento às Vítimas do MPRS em Porto Alegre.
O órgão segue fazendo uma busca ativa para receber as dezenas de mulheres que enviaram os relatos ao perfil criado no Instagram para divulgar os casos.
O que diz Vinícius Roig
À reportagem de Zero Hora, antes da prisão, Vinicius Roig declarou que buscou contato com a delegacia de Torres de forma voluntária e se colocou à disposição das autoridades.
Procurada pela reportagem, a defesa dele, representada pelo advogado Argeu Debiazi, enviou a seguinte nota:
A defesa de Vinícius Roig reitera seu veemente repúdio a qualquer forma de violência ou agressão contra a mulher, ao tempo em que reafirma sua inabalável confiança nas garantias constitucionais, em especial no princípio da presunção de inocência (Art. 5º, LVII, da Constituição Federal).
Toda e qualquer alegação deve ser rigorosa e imparcialmente apurada pelos órgãos competentes, sob o crivo do devido processo legal. A espetacularização dos fatos nas redes sociais e na imprensa promove julgamentos antecipados e gera danos irreparáveis à honra e à imagem de quem, ao final do processo, pode ter sua inocência cabalmente reconhecida.
A defesa assegura que todos os fatos serão devidamente esclarecidos no foro adequado e reafirma sua inteira confiança na Justiça Brasileira.





