
Pouco mais de um ano antes de ser espancado pelo pai dentro de casa em Águas Claras, na área rural de Viamão, o menino Oliver Golden Grayson, de três anos, foi abrigado junto dos irmãos, no período em que vivia no Estado de Santa Catarina. As crianças, no entanto, retornaram ao convívio dos pais, após decisão judicial. As informações foram divulgadas pelo Ministério Público de Palmitos (SC), nesta sexta-feira (10).
Os pais do menino, o norte-americano Dandre Jermaine Grayson, 33 anos, e Mayanna Angelina Rodgers, 29, estão presos de forma preventiva pela morte da criança, que chegou a ficar hospitalizada, mas não resistiu. Dandre confessou ter espancado o filho por ele não ter lhe dado "bom dia". Já Mayanna nega ter presenciado as agressões e afirma que o marido era violento, e que ela sofria violência doméstica.
A promotoria informou que, em março do ano passado, após informações anônimas de vizinhos relatando agressões físicas contra as crianças, o Conselho Tutelar, acompanhado da Polícia Militar e do Promotor de Justiça de Palmitos, foi até a residência da família para verificar a situação.
Durante a visita, segundo o Ministério Público, o Conselho Tutelar "examinou minuciosamente o corpo da criança". No entanto, conforme a promotoria, não foram encontrados hematomas, lesões ou qualquer outro sinal que indicasse agressão física. "Também foi constatado que todas as crianças estavam bem-vestidas, em bom estado de saúde, e que a residência apresentava condições adequadas de higiene, organização e salubridade."
Em razão dos relatos das possíveis agressões e da existência de registros anteriores da família em outro Estado, houve decisão pelo abrigamento das crianças. A família havia residido em São Paulo, nos municípios de Mogi Mirim e Águas de Lindoia. Neste último, chegou a ser aberto processo por um caso de maus-tratos, mas o procedimento foi arquivado. O acolhimento das crianças em Santa Catarina, conforme o MP, estendeu-se por cerca de três meses.
A nota informa ainda que nesse período a família foi acompanhada pelos órgãos da rede de proteção e passou por avaliações psicológicas e sociais. As perícias psicológicas concluíram que o pai e a mãe possuíam plenas condições psíquicas para exercer a guarda dos filhos. Ainda conforme o MP, o estudo social, no mesmo sentido, elaborado por duas assistentes sociais forenses, concluiu que "não foram encontrados elementos suficientes para confirmar a ocorrência de violência doméstica ou maus-tratos contra as crianças".
O mesmo estudo apontou, de acordo com a promotoria, que a permanência no acolhimento "estava causando prejuízos emocionais às crianças" e que isso foi um dos pontos considerados para que houvesse decisão por devolver as crianças aos pais.
Ainda segundo o MP, um relatório elaborado pelo Serviço de Proteção Social Especial de Alta Complexidade de Palmitos registrou que, durante as visitas assistidas, as crianças "demonstravam forte vínculo afetivo com os pais, procurando abraçá-los, conversar e brincar com eles, além de manifestarem o desejo de retornar ao convívio familiar". O documento concluiu que, naquele momento, não havia indícios de maus-tratos nem de que as crianças estivessem em risco.
Em junho do ano passado, por ordem da Justiça, as crianças retornaram ao convívio da família. O MP afirma que depois disso, a família permaneceu sendo acompanhada, por meio de um Plano de Acompanhamento Familiar elaborado pelo Centro de Referência Especializado em Assistência Social, e que após esse período não foram registradas novas ocorrências relacionadas a maus-tratos.
Em agosto de 2025, a família se mudou para o Rio Grande do Sul. O Ministério Público de Santa Catarina afirma que pediu o envio do procedimento de proteção à Vara da Infância e da Juventude de Viamão, município onde a família passou a residir, para que fosse possível dar continuidade ao acompanhamento da família e à fiscalização das medidas protetivas.
O pedido foi concedido pelo Poder Judiciário de Santa Catarina em setembro de 2025, quando, segundo o MP, o caso foi encaminhado ao Poder Judiciário gaúcho.
Procurado, o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul informou, em nota, que não tinha conhecimento dos fatos, "eis que a Distribuição do Foro de Viamão não recebeu comunicado de envio pela Comarca de Palmitos. Diante das notícias de que a competência havia sido declinada (enviada) ao RS, o Foro de Viamão contatou o cartório do Foro de Palmitos, na tarde de hoje".
Contrapontos
O que diz a defesa de Dandre Jermaine Grayson
A Defensoria Pública atuou na audiência de custódia de Grayson, realizada no domingo (6). O órgão informou que, caso ele não tenha advogado particular, continuará responsável por sua defesa no processo, em cumprimento ao dever constitucional de prestar assistência jurídica.
O que diz a defesa de Mayanna Angelina Rodgers
A defesa alega que mãe de menino morto pelo pai em Viamão também era vítima e foi impedida de pedir socorro.
— O relato é muito significativo de uma mulher que vive um ciclo de violência doméstica. A defesa está convicta nisso e vai trabalhar para elucidar os fatos nesse sentido — declara a advogada Isabel Cochlaf.
Os três advogados que atuam na defesa a pedido de uma ONG relatam um suposto caso de privação de liberdade. Eles contam que Mayanna casou com Dandre aos 19 anos e, em seguida, o casal viajou dos Estados Unidos para o Brasil, onde moraram em outros dois Estados antes de chegar ao Rio Grande do Sul.




