
Um dos trabalhos da investigação da Polícia Civil sobre a morte de Oliver Golden Grayson, de três anos, em Viamão, envolve também desvendar o histórico de violências sofridas pelos irmãos dele. Em entrevista ao Gaúcha Atualidade, nesta sexta-feira (10), a delegada Luana Tamiozzo Medeiros detalhou o que foi apurado até o momento pela investigação.
Os pais do menino, o norte-americano Dandre Jermaine Grayson, 33 anos, e a mãe Mayanna Angelina Rodgers, 29, estão presos de forma preventiva. Dandre confessou ter espancado o filho por ele não ter lhe dado "bom dia" naquela manhã. Já Mayanna nega ter presenciado as agressões e afirma que o marido era violento. No entanto, a polícia entendeu que ela não teria como não ouvir os pedidos de socorro do filho. Da mesma forma, a polícia acredita neste momento que a mãe tenha sido omissa em relação às violências sofridas pelos demais filhos. As crianças têm um, cinco, sete e nove anos de idade.
— Por mais que ela vivesse em violência doméstica, e realmente, de fato, me parece uma violência doméstica bem intensa, no âmbito psicológico, físico, porém, essas agressões, nós temos conhecimento de que elas acontecem há pelo menos oito anos. As crianças viam as agressões do pai, tentavam ajudar, choravam, e, por isso, apanhavam também. Eram agredidas e a mãe encaminhava essas crianças ao hospital, mas fazia com que as crianças mentissem o motivo das agressões — disse a delegada.
Os relatos colhidos até o momento pela polícia apontam que as crianças usavam roupas de mangas longas. A delegada acredita que isso era uma forma de esconder as lesões. A polícia apura o histórico de atendimentos hospitalares dos filhos. Há uma informação sendo verificada de que Oliver teria quebrado o braço em janeiro, mas que a família teria alegado que ele havia caído brincando com os irmãos. A suspeita é de que ele possa ter sido agredido.
— Eles diziam para as crianças que não eram pra elas mostrarem o corpo para ninguém, nem para o médico. Inclusive, nós tivemos uma dificuldade na perícia clínica porque as crianças não queriam mostrar o corpo — detalhou.
Os quatro irmãos foram encaminhados para abrigamento, após as agressões contra Oliver.
— Elas estão sendo acolhidas, estão recebendo todo o atendimento possível do Conselho Tutelar. A gente tem trocado informações para saber como elas estão, mas uma das crianças chegou a ver o fato. A criança mais velha chegou a ver o irmão sendo espancado e morrendo — disse.
"Religiosidade muito intensa"
Dandre se apresentava como missionário evangélico. Segundo a delegada, pelo que foi apurado até o momento, ele pregava numa igreja própria, que teria sido criada pelo pai de Mayanna. Em Viamão, a família viveu em diferentes endereços. A família não teria dinheiro para custear os aluguéis e acabava sendo acolhida.
Na casa onde a família vivia, a polícia encontrou diversos documentos que teriam sido escritos pelo pai. Neles, havia menções sobre a religiosidade que ele pregava.
— A gente viu que essa religiosidade dele é muito intensa. Pela casa tinham dizeres de que a mulher tem que ser submissa e outras coisas bem conservadoras. Então, ele se entendia, pelo que a gente percebeu, como um enviado de Deus. E ele fazia essas atrocidades com as crianças, no sentido de, segundo ele, educá-las, de discipliná-las nessa religião dele — afirmou a delegada.
Ainda conforme a delegada, Oliver sofreu lesões gravíssimas, com fraturas, e que se investiga a possibilidade de que tenha sido usado algum tipo de objeto no espancamento. A informação inicial, segundo o relato do próprio pai, era de que ele havia espancado o menino com socos.
— A médica que fez o primeiro atendimento no hospital nos informou que as agressões não são compatíveis com apenas, digamos assim, três socos e com essa batida na cabeça — explicou.
Investigação
Segundo a delegada, a investigação passa neste momento para uma segunda etapa, que tem como objetivo entender esse histórico de violências e se alguém mais pode ser responsabilizado. Nesta fase, serão ouvidos vizinhos, equipes médicas e conselheiros tutelares.
A polícia também está oficiando instituições de Santa Catarina e do Paraná, para buscar mais informações sobre o histórico da família. Dandre, Mayanna e os filhos residiram em municípios como Palmitos, em Santa Catarina, e em Mogi Mirim e Águas de Lindoia, em São Paulo.
Em São Paulo, chegou a ser aberto um processo por maus-tratos, que posteriormente foi arquivado. Em Santa Catarina, também houve o abrigamento das crianças, mas elas retornaram ao convívio dos pais.
Contrapontos
O que diz a defesa de Dandre Jermaine Grayson
A Defensoria Pública atuou na audiência de custódia de Grayson, realizada no domingo (6). O órgão informou que, caso ele não tenha advogado particular, continuará responsável por sua defesa no processo, em cumprimento ao dever constitucional de prestar assistência jurídica.
O que diz a defesa de Mayanna Angelina Rodgers
A advogada Isabel Cochlar, responsável pela defesa de Mayanna, informou que a mulher passará por audiência de custódia na manhã desta sexta-feira. Sobre o caso, a advogada afirmou que ainda está se inteirando sobre os fatos e que, após isso, estará a disposição para prestar esclarecimentos.
— É um caso extremamente complexo, de uma mulher mantida por nove anos, sob o jugo de um homem que se fazia passar por missionário e que agia com extrema violência contra a vida dela. Precisamos levar isso em consideração antes de fazer qualquer julgamento da posição dela, que também é uma vítima — disse.




