
O Ministério Público do Rio Grande do Sul (MP-RS) denunciou Paula Lopes, ex-secretária de Bem-Estar Animal de Canoas, e outras oito pessoas por envolvimento em um esquema que aplicava eutanásia ilegal em cães e gatos. De acordo com a acusação, os fatos ocorreram ao longo de 2025.
Agora, caberá à Justiça analisar a denúncia apresentada pelo Ministério Público. Caso ela for aceita, os denunciados passarão à condição de réus e responderão ao processo criminal.
Paula Lopes está presa preventivamente desde 15 de junho. Em nota, a defesa afirma que "confia nas instituições e no Poder Judiciário" e que "não comentará, neste momento, fatos, provas ou peças cobertas pelo sigilo judicial" (leia a nota na íntegra abaixo).
Denúncia inclui maus-tratos e falsificação de documentos
Paula Lopes e outros sete denunciados são acusados de participação nas eutanásias ilegais e por crimes relacionados a maus-tratos contra animais. A nona denunciada é a policial civil Mari da Cunha Menezes, por quebra de sigilo funcional, falsificação de documentos e outros crimes relacionados ao favorecimento do esquema.
De acordo com a denúncia, Paula Lopes utilizava o cargo de secretária para determinar a eutanásia de cães e gatos sem exames laboratoriais ou laudos que comprovassem doenças ou outras condições que justificassem o procedimento. A Promotoria sustenta que ela exercia poder de comando sobre os demais envolvidos, embora não tivesse formação em Medicina Veterinária.
Além das pessoas físicas, o Ministério Público também denunciou o Instituto Paula Lopes, associação fundada e mantida pela ex-secretária. Conforme a investigação, a entidade foi utilizada em três episódios de maus-tratos e para arrecadar recursos destinados, supostamente, ao tratamento de animais. Segundo a Promotoria, os valores acabavam revertidos em benefício da ex-secretária e do marido.
"Conduta é desprezível", diz promotor
Na denúncia, o Ministério Público pede ainda a aplicação de medidas como a proibição de manter a guarda de animais, a perda de bens relacionados aos crimes e a perda de cargos e funções públicas dos denunciados, em caso de eventual condenação.
Responsável pelo caso, o promotor de Justiça Leonardo Giardin de Souza afirma que não foi possível oferecer acordo para evitar o processo criminal já que os delitos envolvem violência.
— A conduta é desprezível e de intensa crueldade, seja pela perspectiva da proteção do meio ambiente e das vidas dos animais, seja por considerar a dor causada nos tutores. Isso não se limita aos moradores de Canoas, mas reforça o sofrimento que eles viveram desde a enchente de maio de 2024. As eutanásias ilegais foram feitas em massa e com objetivos fraudulentos — afirmou.
Policial é acusada de favorecer o esquema
Mari da Cunha Menezes foi afastada das funções na última segunda-feira (29). Ela atuava no Cartório dos Animais da 15ª Delegacia de Polícia de Porto Alegre.
Segundo as investigações, a policial teria acessado e repassado informações restritas para Paula Lopes, além de falsificar documentos para favorecer a atuação do grupo. A Polícia Civil aponta que ela auxiliava a ex-secretária a manter a posse de animais doentes, utilizados em campanhas de arrecadação promovidas pelo Instituto Paula Lopes.
A reportagem não localizou a defesa de Mari da Cunha Menezes. O espaço permanece aberto para manifestação.
O que diz a defesa de Paula Lopes
"Em razão da repercussão pública alcançada pelo caso envolvendo Paula Lopes Corrêa, e diante de manifestações veiculadas na imprensa e nas redes sociais que antecipam juízos de valor incompatíveis com o estágio processual em curso, a defesa técnica vem a público esclarecer o que segue:
A Sra. Paula Lopes está ciente do oferecimento da denúncia. Importante salientar que, de agora em diante, a ação penal tramitará perante a Vara Regional do Meio Ambiente de Porto Alegre. Caberá à magistrada decidir sobre o recebimento da denúncia nos termos ofertados pelo Ministério Público, bem como sobre o restabelecimento da liberdade de Paula.
O processo e as investigações ainda permanecem sob segredo de justiça. Essa condição não é um detalhe formal: existe para preservar a regularidade da instrução, resguardar os direitos de todas as partes envolvidas e impedir que o caso seja julgado fora dos autos. Todavia, os acessos parciais fornecidos momentaneamente à defesa técnica revelam que a Promotoria divergiu, em diversos pontos, das conclusões apuradas pela Polícia Civil.
Como os autos ainda permanecem em sigilo, a defesa manifestar-se-á detalhadamente sobre a opinião da Promotoria assim que for liberado o acesso integral. Por esta razão, a defesa não comentará, neste momento, fatos, provas ou peças cobertas pelo sigilo judicial.
Registra-se, com a firmeza que o momento exige, que Paula Lopes é, neste estágio, acusada, e não condenada.
A presunção de inocência não é mera retórica de defesa, mas uma garantia constitucional que vincula a todos. A defesa reafirma que atuará com todo o rigor técnico necessário para demonstrar os elementos que contextualizam a conduta de Paula e sua trajetória em mais de 20 anos como protetora.
Por fim, reitera que confia nas instituições e no Poder Judiciário"

