
Era de pobreza a vida do missionário estadunidense Dandre Jermaine Grayson, 33 anos, em Águas Claras, distrito de Viamão, na Região Metropolitana. Ele dependia de programas sociais e doações para ter alimento e mobiliar a moradia, tinha o hábito de se exercitar com corridas e chamou a atenção na comunidade pelo fervor religioso, de matriz evangélica, chegando ao ponto de fazer pregações dentro de empresas.
Dandre estava em Águas Claras há menos de um ano, vivendo com a esposa, Mayanna Angelina Rodgers, e cinco filhos menores de idade. Ele foi preso no domingo (5), após levar o filho de três anos para atendimento hospitalar com sinais de espancamento. Dandre confessou ter agredido severamente o menino por não ter recebido um “bom dia”. Oliver Golden Grayson faleceu na quinta-feira (9), mesmo dia em que a mãe, Mayanna, também foi presa por suspeita de omissão na violência contra a criança.
No cotidiano, Dandre era visto pelas ruas de Águas Claras, muitas delas de chão batido, em região de sítios e chácaras, em atividade de corrida. De porte atlético, costumava fazer percursos com fones de ouvido, do estilo headphone, cantarolando louvores. Nas andanças pela região, ele era visto sozinho. Não transitava com as crianças ou a esposa.
As apurações da Polícia Civil indicam que a família estava há pouco tempo, questão de semanas, na atual moradia em Águas Claras. Eles já haviam passado por outros lugares de Viamão. A casa era simples, tinha cortinas no lugar das portas que separam os cômodos. As crianças não tinham camas. Dormiam em colchões no chão.
Dandre circulou pelo comércio local afirmando ser missionário e pedindo doações para a casa, onde não havia mobília. Em março, o missionário abordou um pequeno empresário de Águas Claras. Depois, em mensagem por aplicativo de telefone, enviou o seguinte texto: “Amigo, hoje conseguimos uma geladeira e fogão para nossa casa. Graças ao bom Deus. Algumas pessoas acabaram de doar, mas a cozinha não tem pia, nem torneira, nem suporte para a pia. Se o senhor souber de alguém (que possa doar), pois a casa só tem uma parede na cozinha e mais nada”.
Na mensagem seguinte, Dandre enviou ao interlocutor dois modelos de pias pesquisados na internet, em busca de auxílio para equipar a residência.
O missionário estadunidense e a família estavam morando de favor nessa casa, em Águas Claras. Uma igreja, cuja identificação é desconhecida publicamente, emprestou o imóvel para evitar que os Grayson ficassem ao relento. A Polícia Civil apurou que tratava-se de um empréstimo, mas a ideia era que Dandre começasse a pagar aluguel em algum momento.
Os indicativos colhidos até agora, tanto pela investigação policial quanto nos relatos da comunidade, são de que Dandre não tinha vínculo formal com nenhuma igreja no Brasil. Ele visitava alguns templos de denominação evangélica, mas apenas como convidado ou fiel.
Em um vídeo publicado no dia 13 de junho em sua conta no Instagram, ele está no púlpito de uma igreja, que aparenta ser humilde, embora as imagens não mostrem nenhuma identificação. Dandre, cantor gospel, solta um vozeirão para interpretar um louvor, combinando a apresentação com gestos performáticos. Bem vestido, trajava sapato, calça preta com cinto e camisa verde. Na legenda da postagem, ele escreveu: “Em fervente oração”.
A delegada Luana Medeiros, responsável pelo inquérito, apurou que o missionário teria relação com uma igreja fundada pelo pai da esposa, sediada nos Estados Unidos. No Brasil, ele atuaria como representante solo de uma denominação sem sede física. E frequentava outras igrejas como convidado ou fiel, além de ter recebido auxílios humanitários de pastores.
Dandre era visto bem vestido nas suas corridas e caminhadas por Águas Claras, trajando materiais esportivos. Mas, quando adentrava comércios, pedia doações, dizia ser missionário e viver situação de pobreza — o que foi confirmado pela investigação.
As visitas, contudo, não se limitavam às súplicas por ajuda. Há relatos de que Dandre se estendia por horas dentro de empresas, dando início a pregações e tentativas de conversão em meio a clientes. Em um ardor religioso descrito como fora dos padrões, se atravessava em conversas de terceiros. Em uma delas, teria afirmado que ele próprio tinha feito os cinco partos dos filhos. Nada de levar a mulher ao hospital. Também teria narrado que deixou de se comunicar com a mãe, que segue nos Estados Unidos, por motivações de cunho religioso. Na casa em que a família vivia, a Polícia Civil encontrou pedaços de papel com escritos à caneta afixados nas paredes: frases de cunho conservador e de submissão da mulher.
Um pequeno empresário, após ter recebido inesperada visita de Dandre por três vezes na mesma semana no seu estabelecimento, notou desconforto de clientes e pediu que o missionário fosse embora e não retornasse mais. O homem acatou o pedido. Nos dias posteriores, quando passava em frente ao local, transitava pelo outro lado da rua.
Nessas andanças por comércios, o missionário recebeu ofertas de emprego, mas não aceitou, conforme relatos. Entendia que sua missão de vida era ser missionário, pessoa cujo propósito é proclamar o evangelho. A delegada Luana relatou que o homem se considerava um enviado de Deus e agredia os filhos como forma de disciplina, conforme sua doutrina.
Moradores de Águas Claras dizem que, até o estouro do caso policial, desconheciam o nome do estadunidense que se comunicava em português fluente. Ele se apresentava apenas como missionário, mas nunca falava qual era sua denominação. Para alguns, dizia no máximo ser de “uma comunidade de São Paulo”, mas sem citar nomes.
Dos cinco filhos de Dandre e Mayanna, três estavam em idade escolar. Eles frequentaram duas escolas municipais em Viamão. Reforçando a situação de pobreza, a prefeitura confirmou que pelo menos um deles foi ao colégio com pouca roupa em dias de intenso frio. Em ocasiões pontuais, as crianças relataram fome.
Dandre e a família eram atendidos pelo Programa Alimenta Viamão (PAV), iniciativa da prefeitura que compra frutas, verduras, legumes, pães e mel de pequenos produtores rurais e os doa a famílias em situação de vulnerabilidade social inscritas no CadÚnico.
No Portal da Transparência da Controladoria-Geral da União, o estadunidense aparece como beneficiário do Gás do Povo, do Bolsa Família e do Novo Bolsa Família. Em maio de 2026, para uma família com sete pessoas, sendo cinco crianças entre um e nove anos, recebeu auxílio de R$ 1,5 mil.
Origem
Dandre é dos Estados Unidos e sua esposa, Mayanna, é natural do Japão. Apesar de oriental, ela viveu anos no país da América do Norte, onde seu pai teria fundado uma igreja. O casal está no Brasil há cerca de nove anos. Todos os filhos são brasileiros de nascimento. Não há outros familiares de Dandre e Mayanna no país, indica a investigação da Polícia Civil. As apurações apontam que Dandre veio visitar uma vez o Brasil e gostou a ponto de se mudar com a esposa.
Segundo a polícia, a rotina de agressão aos filhos ocorria há cerca de oito anos, desde o início da vida do primogênito. A família tem histórico de andanças pelo Brasil. Antes de chegar ao Rio Grande do Sul, viveram em Palmitos, em Santa Catarina, e em cidades paulistas. O Portal Transparência revela que o cadastro de Dandre no Bolsa Família já esteve vinculado aos municípios de Mogi Mirim, Itapira e Águas de Lindóia, todas em São Paulo.
O primeiro recebimento pelo programa social em Viamão ocorreu em outubro de 2025, o que indica o provável período de chegada dos Grayson ao Rio Grande do Sul.
Em Águas de Lindóia, Dandre e Mayanna responderam processo por agressões contra o filho mais velho, à época com sete anos. O menino chegou a ser retirado do convívio familiar, mas foi devolvido tempos depois e o processo, arquivado. Também houve registros de violência doméstica em Santa Catarina. A Polícia Civil não localizou, até o momento, outros tipos de crime na ficha de Dandre. Com a prisão dos pais, os quatro filhos foram encaminhados para um abrigo público.
Contrapontos
O que diz a defesa de Dandre Jermaine Grayson
A Defensoria Pública atuou na audiência de custódia de Grayson, realizada no domingo (6). O órgão informou que, caso ele não tenha advogado particular, continuará responsável por sua defesa no processo, em cumprimento ao dever constitucional de prestar assistência jurídica.
O que diz a defesa de Mayanna Angelina Rodgers
Os advogados de defesa de Mayanna Angelina Rodgers alegam que ela também seria vítima de Dandre.
— O relato é muito significativo de uma mulher que vive um ciclo de violência doméstica. A defesa está convicta nisso e vai trabalhar para elucidar os fatos nesse sentido — declara a advogada Isabel Cochlaf.
O advogado André von Berg descreve Mayanna como “uma mulher absolutamente dominada” que “não tinha nenhum poder sobre a vida dela”. Segundo os advogados, ela não teria acesso a dinheiro, telefone celular, televisão ou rádio. Também seria proibida de contatar a própria família, que é religiosa e vive nos Estados Unidos.
Mayanna deve passar por audiência de custódia ainda nesta sexta-feira, e os advogados dizem que trabalham em um pedido de liberdade.




