
Ana Carolina Perlaky foi vítima de feminicídio aos 17 anos, em uma rua de Porto Alegre. A tragédia em via pública trouxe à tona a condição de órfã e a vida difícil desde a infância. Quem conviveu com Ana, no entanto, recorda também doçura, carinho, sonhos e a busca típica da adolescência pelo próprio lugar no mundo.
Ana Carolina encarou a primeira agrura logo ao nascer, quando, ainda no hospital, foi deixada pela mãe. Na certidão de nascimento, não constava o nome do pai, que ela nunca conheceu. A menina permaneceu até os quatro anos em acolhimento institucional, em um abrigo no bairro Belém Novo, zona sul de Porto Alegre, com visitas esporádicas da genitora.
À época, o Ministério Público defendeu que a criança fosse encaminhada para adoção, mas a Justiça optou por manter os laços familiares. Assim, a menina foi entregue para a mãe.
Foi enquanto vivia no abrigo que Ana conheceu Silvia (nome fictício), que por anos travou uma luta judicial para obter a guarda da criança:
— Conhecemos a Ana com um ano e cinco meses no abrigo. Já éramos um casal que queria adotar um filho e entramos com processo de adoção. Neste período, a Justiça procurou a família biológica e ela foi devolvida à mãe.

Silvia não desistiu de se aproximar. Fez contato com a mãe da menina e pediu pra apadrinhá-la, acompanhar seu crescimento. Ana frequentava a residência do casal, no município de Lajeado, e eles a visitavam em Canoas. Juntos faziam passeios, iam ao shopping e mantinham relação amigável com a família da menina. Naquele período, a mãe de Ana havia conhecido Rudinei Torres, que veio a se tornar "pai afetivo" da criança.
— Depois que nosso filho chegou, tivemos um período de distância física, mas sempre dispostos a ajudar e estar presentes. Acontece que, aos 10 anos da Ana, sua genitora chegou ao nosso local de trabalho repentinamente pedindo que ficássemos com a guarda dela, alegando não ter mais condições de cuidá-la por motivos de saúde — conta Silvia.
No mesmo dia, os até então padrinhos de Ana foram ao fórum, e a guarda temporária foi viabilizada enquanto tramitava o processo de adoção legal, que durou quase cinco anos.
Silvia recorda de tempos felizes enquanto Ana viveu em Lajeado, na transição da infância para adolescência:
— Chegamos a ter a guarda definitiva. Foi uma guria doce, querida, teve um emprego formal como estagiária em uma cooperativa. Nunca reprovou. Tínhamos uma relação familiar tranquila, muito diálogo.
Idas e vindas

Rudinei Torres nunca perdeu o contato com Ana, a quem chama de "filha do coração."
— A mãe dela quis sair de casa. Depois ficou doente, foi embora para Santa Catarina e morreu por lá. Quando eu a conheci, me contou que era natural de São Paulo e tinha uma filha em um abrigo de Porto Alegre. Desde que conheci aquela menininha, ela foi minha filha. Foi e sempre será minha única filha — conta Torres, atualmente com 65 anos.
À época, ele trabalhava como vigilante. Depois, arrumou um emprego como auxiliar de caminhão. Fazia entregas, viajava.
— Tive vontade de pedir a guarda, mas não dava conta, não parava em casa. Tinha receio de que ela fosse parar na rua. E sabia que, com a madrinha e aquela família, estava bem cuidada. Tinham mais condições — recorda o homem.
À época da enchente de 2024, Ana vivia com a família adotiva em Lajeado, no Vale do Taquari, uma das regiões mais afetadas pela tragédia. A água levou embora os documentos dela e dos familiares. Foi um período difícil.
— Sabíamos tudo que viria, das situações em que Ana se sentiu rejeitada e abandonada. Ela ia se adaptando às decisões judiciais, aos diferentes espaços nos quais ia sendo inserida. Não era fácil aceitar tudo que ela não escolheu viver. Um mês antes de completar 16 anos, foi embora da nossa casa, voluntariamente. Eram comportamentos e sentimentos de quem buscava liberdade, de quem buscava se encontrar e pertencer desesperadamente a algo, que como família não conseguíamos compreender — lembra Silvia.
Conforme o Ministério Público, em 2025, Ana passou por uma nova guarda provisória até a Justiça conceder a tutela a uma outra madrinha. Naquele momento, já era conhecida a morte da mãe biológica. Em janeiro deste ano, a tutora informou que não tinha mais condições de exercer a função e pediu exoneração. Procurada por Zero Hora, a mulher não quis se manifestar.
Neste período, em vários momentos o paradeiro de Ana foi desconhecido e uma ocorrência policial de desaparecimento chegou a ser registrada. Em julho de 2026, dias antes de a adolescente ser morta, o Conselho Tutelar informou ao MP que ela estava em Canoas, na companhia do ex-padrasto, Torres. Ele conta que Ana tinha mudado o comportamento, mas nunca se afastado dele. Acolheu a filha, que desabafava e contava sobre seus planos. Contudo, pouco detalhou sobre o novo namorado.
— Sabe como é essa fase, querem festa, arranjam novas companhias. Sempre aconselhei, mas não pensei que ela tivesse relação com alguém, que nem posso chamar de gente, alguém que causou a maior dor que tive. Alguém que tirou minha menina de mim — relata o pai afetivo.
Ana foi sepultada no fim da tarde de 28 de julho, no Cemitério Municipal Santo Antônio, de Canoas. Ela faria 18 anos em 26 de outubro, havia abandonado a escola alguns meses antes da morte, no 3º ano do Ensino Médio. A adolescente sonhava em cursar Direito e, assim que alcançasse a maioridade, queria acrescentar o sobrenome Torres ao novo documento de identidade.
"Ela nunca acreditou que ele fosse capaz de qualquer coisa"
Uma situação recorrente em casos de feminicídio se repetiu com Ana. Nem o registro de um boletim de ocorrência por lesão corporal contra o então companheiro, feito em junho deste ano, foi suficiente para romper o vínculo com o agressor. O caso resultou na concessão de uma Medida Protetiva de Urgência (MPU), que a adolescente chegou a pedir para revogar. O pedido, no entanto, ainda não havia sido analisado pela Justiça, e a medida seguia em vigor.
— Eles estavam separados, mas ela continuava apaixonada. Nunca acreditou que ele fosse capaz de fazer uma coisa dessas — conta a amiga Lorrane Gomes, 20 anos.
Lorrane era uma das duas amigas que acompanhavam Ana na madrugada de terça-feira (28). Tinham combinado de dormir uma na casa da outra, ouvir música e conversar. O trio caminhava pela Rua Mário Sobroza, no bairro Vila Nova, por volta das 2h, quando um único disparo foi efetuado. Assustada, uma das amigas correu. Lorrane se abaixou para tentar se proteger e socorrer Ana.
— Eu sacudia ela e chamava: "Ana, Ana, responde, amiga". Mas ela nunca mais me respondeu — relembra.
O ex-namorado, Halisson Theylor Bumbel Gerônimo, 22 anos, suspeito do crime e preso no mesmo dia, era justamente o assunto da conversa entre as amigas nos instantes que antecederam o assassinato. Naquela noite, Ana falava do ciúme do ex-companheiro e da saudade que ainda sentia dele.
— Ana ia dormir na minha casa aquela noite. Ultimamente ficava um tempo na casa do pai, que era muito atencioso com ela, e um tempo na casa de conhecidos. Era uma guria feliz, tinha o jeito dela meio sem paradeiro, mas totalmente sem maldade — acrescenta Lorrane.
A reportagem de Zero Hora busca contato com a defesa de Gerônimo. O espaço segue aberto para manifestação. Conforme a polícia, ele permaneceu em silêncio no interrogatório.
O Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJ/RS) informa que a adolescente e uma pessoa próxima estavam em processo de acolhimento no Projeto Borboleta, que presta atendimento de apoio e orientação a vítimas de violência doméstica no âmbito dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher de Porto Alegre. O caso também foi oficiado à Promotoria da Infância e da Juventude de Articulação de Proteção do MP. As datas e os detalhes dos atendimentos não foram informados, pois o processo tramita em segredo de Justiça.
— A sensação é de que Ana foi vítima dos constantes abandonos que viveu. Ela sobreviveu, na verdade. Ela procurou afeto em lugares errados, mas nunca por culpa dela. Até encontrou pessoas que tentaram ajudar, mas talvez ela tivesse de ser curada de dentro para fora. Todos falharam, a Justiça falhou. Ainda estamos em choque, não conseguimos acreditar que ela morreu. A dor é muito grande — reflete Silvia.



