
A Polícia Civil investiga uma servidora pública suspeita de repassar informações sigilosas a Paula Lopes, ex-secretária do Bem-Estar Animal de Canoas presa por estelionato no início dessa semana. A polícia não informou o cargo da servidora, mas a reportagem apurou que se trata de uma policial civil.
Conforme a Polícia Civil, em conversa entre a servidora e Paula Lopes, que é investigada por ordenar mortes em massa por meio de eutanásia de cães e gatos resgatados, Paula havia pedido instrução.
Nas mensagens, a servidora orienta Paula a conseguir laudos veterinários, descrevendo sintomas de falsos maus-tratos, além de exame de sangue "de um bicho que tá mal", para conseguir tirar o animal do então tutor (veja abaixo).
— O laudo ruim, vindo do veterinário, mais o exame laboratorial com o sangue de outro animal, gera um contexto para fazer um registro de maus-tratos. E, a partir daí, tirar a custódia do animal do seu responsável — explica o delegado Cristiano Reschke, diretor da 2ª Delegacia Regional Metropolitana.
A relação entre a servidora e Paula ainda é averiguada. O inquérito deverá ser compartilhado com a Corregedoria-Geral da Polícia Civil para que se apure a responsabilidade interna.
O que mostra a investigação?
Conforme a investigação, depois desta etapa de falsificação dos documentos, a suspeita é de que Paula utilizasse os animais, por exemplo, para pedir recursos nas redes sociais para suposta aquisição de alimentos e de medicamentos, por exemplo. Conforme Reschke, também havia o interesse em animais em situação de abandono ou gravemente machucados por conta do impacto que poderiam gerar.
— Guardadas as proporções, é como se fosse alguém em uma sinaleira, usando uma criança ou alguma situação triste de vida, uma deficiência, para pedir dinheiro. A pessoa se sensibiliza e contribui. Ela (Paula) achou um nicho que sensibiliza milhões de pessoas, se vale de uma ferramenta que lhe dá escalabilidade e alcance de pessoas que estão a milhares de quilômetros daqui, a rede social, e, a partir de narrativas bem construídas, obtém ganhos se aproveitando da empatia, da solidariedade humana e da boa fé — destaca o delegado.
Ele ainda reforça:
— A Secretaria do Bem-Estar Animal não é um local criminoso. Nós trabalhamos há anos com eles e com setores similares em diversos municípios, cada município tem a sua Secretaria do Bem-Estar Animal ou assemelhada. Quando retiramos (um animal do contexto de maus-tratos), sempre solicitamos a presença de um veterinário da prefeitura para atestar a situação. A partir da constatação da precariedade e maus-tratos, a guarda dos animais fica com essa secretaria, para dar o trato, o cuidado e, depois, um destino para um doador voluntário. Isso sempre foi feito. Ela (Paula), quando exerceu a função, distorceu a missão — pontua.
O delegado ressalta que a situação não deve ser generalizada a outras iniciativas de ajuda. Como orientação, indica que doadores peçam prestação de contas, como nota fiscal do produto ou remédio adquirido, para saber o destino da contribuição.
— Não há nada de errado em quem doa, o erro está no espírito de quem recebe, na índole de se distorcer e omitir os verdadeiros ideais.
A Polícia Civil ainda deve analisar os telefones apreendidos para identificar, por exemplo, eventual envolvimento de outras pessoas e o destino do dinheiro.
Prisão ocorreu nesta semana
Paula Lopes foi presa na manhã de segunda-feira (15). Segundo a Polícia Civil, ela praticou os crimes de maus-tratos, estelionato, associação criminosa e quebra de sigilo funcional. Dois veterinários também foram presos na ocasião.
Paula é investigada por ordenar mortes em massa, por meio de eutanásia, de cães e gatos resgatados. Também é suspeita de criar campanhas de arrecadação para auxiliar nos tratamentos, enquanto pedia para veterinários sacrificarem os animais.
Ao chegar à delegacia, na segunda-feira, Paula afirmou que um laudo do Instituto-Geral de Perícias (IGP) comprovou que "as eutanásias não foram feitas desnecessariamente". Ela se referia à primeira fase da Operação Carrasco, realizada em setembro de 2025.
Porém, conforme a investigação, Paula tinha uma rede de contatos com clínicas veterinárias, levava os cães e gatos para esses locais e pedia para que os veterinários praticassem eutanásia, muitas vezes sem comprovar o diagnóstico da doença.
Conforme a delegada Luciane Bertoletti, titular da 3ª Delegacia de Polícia de Canoas e responsável pela investigação, muitos animais tinham "doenças tratáveis", mas foram eutanasiados "para que não houvesse um gasto com esses tratamentos".
A novidade em relação à primeira fase da operação é que agora foram identificados indícios de estelionato.
