
Um fenômeno social que não pode ser enfrentado somente na área policial, mas sim como um problema de saúde pública que exige o envolvimento de toda a sociedade. Foi com essa referência que o feminicídio, contextualizado pela secretária adjunta de Segurança Pública do Rio Grande do Sul, Adriana Regina da Costa, ocupou o debate central no segundo dia de programação da Brain Week (a “Semana do Cérebro”).
No Teatro do Sesi (Fiergs), a plateia — predominantemente feminina — acompanhou análises e pôde participar com perguntas acerca do crime que mata quatro mulheres por dia no país. De janeiro a maio deste ano, o RS registrou 36 crimes desse tipo, um acréscimo de 20% no comparativo com o mesmo período do ano passado.
— O feminicídio não é um crime de impulso. É uma violência em escalada. Não existe um único diagnóstico — afirmou a psiquiatra forense Lisieux Elaine De Borba Telles, palestrante do evento.
A atividade teve a participação de psiquiatras e da Secretaria de Segurança Pública (SSP) do Rio Grande do Sul.
Violência contra a mulher
Estatísticas do RS (Dados de 2025)
Perfil das vítimas
- Média de idade: 37 anos
- Mães: 71%
- Tinham Medida Protetiva de Urgência (MPU): 7%
- Mortas pelo companheiro/ex: 58%
Perfil dos agressores
- Média de idade: 38 anos
- Uso de álcool/drogas: 33%
- Com antecedentes policiais: 67%
- Com problemas mentais diagnosticados: 8%
Cultura e fatores de risco
A apresentação teve perspectiva multidisciplinar, integrando neurobiologia, psicopatologia e fatores sociais contemporâneos.
Um dos pontos altos foi a discussão sobre fatores de risco e como se estabelece a escalada da violência. Formas de prevenção e acesso aos serviços também foram compartilhados.
– As raízes são da antiguidade. O mito do patriarcado persiste e acontece cada vez mais levando mulheres a sofrer violências – contextualiza Carmita Abdo, do Conselho Acadêmico do Brain Congress.
Os painelistas elucidaram, ainda, que dinâmicas afetivas, sexualidade e padrões de comportamento podem evoluir para o crime, além de explorar os aspectos mentais, comportamentais e o potencial de letalidade.
Escalada da violência
A violência costuma seguir um processo progressivo:
- Agressões verbais
- Violência física/sexual
- Ameaças
- Homicídio ou suicídio
Principais fatores de risco para o feminicídio:
- Não-casada (juridicamente)
- Imigrante
- Minoria étnica
- Decisão de ruptura da relação Diferença de idade
- Ciúmes
- Presença de violência conjugal prévia
- Presença de violência durante a gestação
- Abuso de álcool/drogas pelo parceiro e ou vítima
- Ameaças, perseguição (stalking*)
- Acesso a armas
*Stalking é um fator crítico
(76% das vítimas sofreram perseguição antes do crime)
O perfil de quem mata
Na maioria dos casos, não se trata de atos impulsivos isolados de pessoas pacíficas e quase nunca são produzidos por homens qualificados como doentes mentais. Não existe um perfil único. O grupo heterogêneo pode incluir perfis:
- Sem transtorno mental
- Antissociais
- Borderline
- Narcisistas
- Psicóticos
Características frequentes
- Controle, domínio, ciúme
- Baixa empatia
- Raiva e impulsividade
- Uso da violência como forma de poder
Mudança cultural
O enfrentamento do crime passa pela estruturação de uma rede de proteção integrada e por uma mudança cultural profunda. Especialistas reiteraram a necessidade de combater o machismo estrutural, a naturalização histórica das agressões e a invisibilidade de violências psicológicas e patrimoniais.
— Pude trabalhar na polícia antes e após a implementação da lei. Muitas vezes, ouvia no plantão: 'Delegada, vou ter que esperar morrer para que ele seja preso?'. Infelizmente, o cenário era esse. Hoje, a Lei Maria da Penha vigora forte e traz garantias e direitos fundamentais à mulher — pontuou a secretária adjunta Adriana Regina da Costa.
Painelistas e temas debatidos
- Coordenação: Fernando Lejderman, presidente da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul.
- A dura realidade: o feminicídio no mundo real – Com Adriana Regina da Costa (SSP-RS).
- Relações afetivas, sexualidade e violência: onde começa o risco – Com Carmita Abdo (Brain Congress).
- A mente do agressor: psicopatologia, impulsividade e risco de letalidade – Com Lisieux Elaine De Borba Telles (Psiquiatra Forense).
A Brain Week
A Semana do Cérebro integra o Brain Congress, promovido pelo CCM Group, consolidado como o maior evento de neurociências da América Latina. Em sua 22ª edição, a expectativa é reunir mais de 7 mil profissionais de diferentes países.
O evento ocorre de segunda (1º) a domingo (7), ocupando múltiplos espaços na Capital, como o Instituto Caldeira, Teatro do Sesi (Fiergs), Auditório Araújo Vianna, Instituto Ling e Hospital Moinhos de Vento.
A programação completa pode ser conferida na página do evento.
Como pedir ajuda em caso de violência contra mulher
Brigada Militar – 190
- Se a violência estiver acontecendo, a vítima ou qualquer outra pessoa deve ligar imediatamente para o 190. O atendimento é 24 horas em todo o Estado.
Polícia Civil
- Se a violência já aconteceu, a vítima deverá ir, preferencialmente, à Delegacia da Mulher, onde houver, ou a qualquer Delegacia de Polícia para fazer o boletim de ocorrência e solicitar as medidas protetivas.
- Em Porto Alegre, há duas Delegacias da Mulher. Uma fica na Rua Professor Freitas e Castro, junto ao Palácio da Polícia, no bairro Azenha. Os telefones são (51) 3288-2173 ou 3288-2327 ou 3288-2172 ou 197 (emergências).
- A outra fica entre as zonas Leste e Norte, na Rua Tenente Ary Tarrago, 685, no Morro Santana. A repartição conta com uma equipe de sete policiais e funciona de segunda a sexta, das 8h30min ao meio-dia e das 13h30min às 18h.
- As ocorrências também podem ser registradas em outras delegacias. Há DPs especializadas no Estado. Confira a lista neste link.
Delegacia Online
- É possível registrar o fato pela Delegacia Online, sem ter que ir até a delegacia, o que também facilita a solicitação de medidas protetivas de urgência.
Central de Atendimento à Mulher 24 Horas – Disque 180
- Recebe denúncias ou relatos de violência contra a mulher, reclamações sobre os serviços de rede, orienta sobre direitos e acerca dos locais onde a vítima pode receber atendimento. A denúncia será investigada e a vítima receberá atendimento necessário, inclusive medidas protetivas, se for o caso. A denúncia pode ser anônima. A Central funciona diariamente, 24 horas, e pode ser acionada de qualquer lugar do Brasil.
Ministério Público
- O Ministério Público do Rio Grande do Sul atende em qualquer uma de suas Promotorias de Justiça pelo Interior, com telefones que podem ser encontrados no site da instituição.
- Neste espaço é possível acessar o atendimento virtual, fazer denúncias e outros tantos procedimentos de atendimento à vítima. Acesse o site.
Defensoria Pública - Disque 0800-644-5556
- A vítima pode procurar a Defensoria Pública, na sua cidade ou, se for o caso, consultar advogado(a).
Disque 100 - Direitos Humanos
- Serviço gratuito e confidencial do Governo Federal, disponível 24 horas por dia, para proteção e denúncias de violações de direitos humanos









