Há seis meses, um morador de Porto Alegre viu suas preocupações se multiplicarem após perder cerca de R$ 160 mil em golpe de falsos investimentos. Noites mal dormidas, ansiedade constante e inquietação passaram a fazer parte da sua rotina.
A vítima de 50 anos, que teve a identidade preservada pela reportagem, via na promessa de rendimentos acima dos praticados pelo mercado uma oportunidade para quitar uma dívida.
Em março do ano passado, ele foi apresentado, por uma pessoa próxima, ao homem apontado pela Polícia Civil como o líder de um esquema de fraude financeira que desviou mais de R$ 1,1 milhão.
Em novembro, o morador da Capital entendeu que havia caído em um golpe porque não recebeu mais nenhum tipo de explicação ou respostas do suspeito acerca do montante.
— É a rentabilidade de 50 anos. Era o dinheiro da minha vida toda de trabalho. É o valor de um apartamento e estava guardadinho. Meu objetivo era quitar uma dívida. Agora, plantamos a esperança (na polícia) para ver se volta alguma coisa — afirmou a vítima.
Além do prejuízo financeiro, ele relata sofrer com ansiedade, desconfiança e frustração.
— A gente se sente um idiota, não dorme direito. Eu acordo de noite pensando o que eu vou fazer para pagar as contas. Eu preciso (desse dinheiro) e não tenho de onde tirar. É diariamente esse pensamento, uma tortura — relatou a vítima.
Ele é apenas uma das mais de 20 pessoas que, segundo a Polícia Civil, foram lesadas no golpe. Ao lado de outras vítimas, ele procurou as autoridades em maio e registrou um boletim de ocorrência.

Como funcionava o esquema
Na semana passada, um homem de 31 anos foi preso por suspeita de liderar essa fraude — o nome dele não foi divulgado. Ele foi localizado em uma cobertura no bairro Auxiliadora, em Porto Alegre. Com o investigado, foram encontrados e apreendidos um veículo, armas, munições, moeda estrangeira e um telefone.
- Segundo a Polícia Civil, o suspeito utilizava participações em podcasts sobre finanças e publicações nas redes sociais para construir uma imagem de credibilidade e autoridade no assunto
- Segundo as vítimas, ele se aproximava de pessoas consideradas respeitadas ou influentes para passar credibilidade
- A partir disso, muitas pessoas acabavam indicando seus serviços de investimentos a familiares, amigos e conhecidos, sem saber que estavam ajudando a disseminar um golpe
- Para algumas vítimas, ele afirmava que realizaria operações de trade, investiria na bolsa americana ou em títulos públicos
- A apuração policial indica também que os valores aportados pelas pessoas eram direcionados a contas de empresas vinculadas ao investigado, assim como à sua conta bancária pessoal
- Quando questionado sobre os investimentos realizados, ele por vezes apresentava comportamento agressivo e explosivo, apontam os relatos

"Desculpas completamente descabíveis", conta vítima
Outra vítima do esquema salienta que só caiu no golpe porque o suspeito usava a credibilidade de outras pessoas.
— Para nós, no princípio, era um mero desconhecido, mas através de uma pessoa que eu confiava muito, eu acabei ouvindo a conversa dele e acabamos entrando nesse mar de pessoas enganadas — afirma a vítima, que preferiu não se identificar.
Poucos meses depois de investir, relata que percebeu que havia caído em um golpe, porque não recebia informações concretas sobre o dinheiro.
— Em pouquíssimo tempo, depois de fazer o investimento, ele começou a usar desculpas completamente descabíveis para o não retorno — conta.
Em alguns casos, o suspeito justificava o não retorno dos valores às vítimas por problemas bancários ou a necessidade de prorrogar prazos. Em meio às cobranças, ele chegou a afirmar que deixaria o país para se engajar no conflito entre Ucrânia e Rússia.
— Se era um dinheiro que tu tinha, que era teu, que tu tinha guardado, trabalhado, suado, um pilantra como esse não podia sumir com ele. É muito difícil, é muito revoltante — concluiu a vítima.

A investigação
As investigações tiveram início a partir de boletins de ocorrência registrados em fevereiro deste ano. Depois, a apuração ganhou novos elementos com mais relatos de vítimas.
Até o momento, a apuração já ouviu vítimas e testemunhas. Também analisou contratos e comprovantes de transferências bancárias, assim como dados telemáticos que permitiram identificar a estrutura utilizada para a captação e o escoamento dos valores.
Agora, a polícia tenta recuperar os valores desviados e responsabilizar eventuais outros suspeitos.
O suspeito
O homem suspeito de liderar esse esquema é registrado como Caçador, Atirador e Colecionador (CAC), categoria que lhe permite a posse de armas de fogo. Nos canais digitais, ele também costumava ostentar imagens de armas.
Na semana passada, uma das armas registradas no nome dele foi apreendida pela Brigada Militar em Alvorada, na Região Metropolitana. Uma dupla de criminosos teria sido flagrada na posse do equipamento.
— A recente apreensão de uma das armas de fogo do investigado em poder de uma dupla de criminosos em Alvorada reforça a preocupação da Polícia Civil quanto ao risco representado pela circulação do seu acervo de armamento. Por isso, as demais armas registradas em seu nome também são objeto de busca na presente operação — afirmou o delegado Gabriel Lourenço, titular da 4ª Delegacia de Polícia de Porto Alegre, durante a prisão do suspeito.

