
A família de Herick Cristian da Silva Vargas, 29 anos, aguarda por uma nova decisão do Ministério Público sobre a morte dele. Há nove meses, em 15 de setembro de 2025, ele foi morto a tiros, durante uma ação da Brigada Militar, na casa dele, no bairro Santa Fé. Os policiais militares foram acionados pelos familiares porque o homem estava em surto e sob efeito de entorpecentes.
Após o jovem não atender as ordens dos agentes, eles utilizaram uma arma de choque, que não surtiu efeito. Depois disso, um dos policiais chegou a cair na sacada e, na sequência, disparou contra Herick, que foi atingido e morreu no local. O entendimento da Polícia Civil e da Corregedoria-Geral da Brigada Militar na fase de investigação, ainda no ano passado, foi de que os PMs agiram em legítima defesa.
Essa conclusão vinha sendo contestada pelos familiares, que defendem que Herick poderia ter sido contido sem os disparos. O Ministério Público (MP) chegou a pedir o arquivamento do caso, alegando legítima defesa dos policiais. Mas o caso retornou ao MP, em janeiro deste ano, após o Judiciário determinar o encaminhamento do inquérito ao Procurador-Geral de Justiça.
Em 15 de janeiro, o MP recebeu os familiares de Herick para comunicar a decisão de remeter o caso a outro promotor, para nova avalição do caso. Depois disso, segundo o próprio Judiciário, o Ministério Público remeteu à Polícia Civil para retomada do inquérito e a realização de diligências.
Perícias complementares
A defesa de um dos policiais solicitou perícias complementares. Um dos pedidos foi para que o Instituto-Geral de Perícias retornasse à casa da família de Herick para novas análises. No entendimento da defesa, era preciso avaliar o espaço físico, como a sacada e possíveis obstáculos no piso e no entorno. O intuito da defesa é mostrar se o policial tinha possibilidade de fuga ou recuo, ou se estava encurralado junto ao parapeito de vidro e em risco.
A Polícia Civil e o IGP realizaram novas medições no local, segundo a própria família de Herick.
— Recentemente foram realizadas essas perícias complementares aqui na minha casa. Um momento muito doloroso, mas necessário. Acreditamos que a tecnologia e a perícia técnica são nossos maiores aliados para que a verdade prevaleça e que os fatos sejam esclarecidos — diz a mãe de Herick, Evolmara Vargas.
Perícias em câmeras
Além disso, o IGP realizou uma nova análise nas imagens captadas nas câmeras corporais dos dois policiais. Zero Hora teve acesso a esse laudo, onde os peritos examinam as imagens captadas. Em 6 de abril, os peritos receberam as imagens das câmeras, enviadas pelo Departamento de Homicídios da Polícia Civil.
Entre os pedidos, estava verificar se eventual queda do local poderia representar risco de morte ao policial, identificar se havia obstáculos que poderiam confirmar que o PM tropeçou nesses objetos na sacada, e se havia espaço físico para que ele se esquivasse de Herick.
Os peritos analisaram as câmeras dos dois PMs envolvidos no atendimento da ocorrência. Na sequência de imagens, é possível ver que Herick inicialmente está no quarto, onde o policial usa a arma de choque, às 14h51min52seg. Logo depois, Herick segue pelo corredor, e o policial anda de costas, até a sacada da sala.

Cerca de 10 segundos depois, o ângulo da câmera muda, indicando que o policial caiu no chão, com a arma de choque na mão. Às 14h52min03seg é possível ver o rosto de Herick sobre o PM. A análise das imagens confirma que o policial caiu no piso da sacada. Os peritos indicam que há um tapete e uma cadeira na sala, na região onde o policial se deslocou. A perícia concluiu que esses objetos podem ter contribuído para a queda.
Às 14h52min13seg um novo frame registra Herick cruzando a sacada, em direção ao policial, que já está com a arma na mão. Três segundos depois, um último frame de Herick ainda em pé, de frente para a arma do policial. No frame seguinte, ele já está caído. Pela câmera da outra policial, é possível ver às 14h52min18seg o jovem caído no chão, já baleado, sendo acudido pela família, e o PM que atirou ao lado da sacada de vidro.

O questionamento da defesa sobre a possibilidade ou não de o policial se esquivar na sacada não teve uma resposta conclusiva nessa perícia. O entendimento dos peritos é de que essa análise depende de outros fatores, como condição de equilíbrio, posicionamento e tempo de reação.
A questão acerca do risco de morte do policial, caso caísse da sacada, também não foi respondida. Os peritos esclareceram que isso foge do escopo das perícias em imagens. Essa análise foi concluída em 29 de maio e remetida à Polícia Civil.
O Ministério Público informou nesta segunda-feira (15) que recebeu as diligências solicitadas, mas analisa o caso, ainda sem prazo para tomar uma decisão.
"Paralisou nossas vidas"

A mãe de Herick diz que a família segue na expectativa de que o MP tenha um novo entendimento sobre o caso e que decida por denunciar os policiais para que o processo siga. O MP pode, por exemplo, manter o entendimento inicial de legítima de defesa e solicitar o arquivamento.
— Para nós, a família, tudo o que aconteceu paralisou nossas vidas, nos deixou desolados. Temos muita saudade e o que nos mantém de pé é a busca incessante pela verdade.
Recentemente, Evolmara participou de um encontro no Paraná para mães que perderam os filhos em episódios de violência policial.
— Aguardamos com expectativas firmes por justiça e que a memória do Herick seja honrada. E pela transparência que o caso exige, para que nenhuma outra mãe sofra assim como eu, que sofro diariamente saudade do meu filho. Que nenhuma outra mãe precise contar os meses da ausência — diz a mãe.
Protocolo de atendimento
Após o caso de Herick e outros casos registrados no RS, um protocolo para atendimento de pessoas em surto foi lançado pelo governo do Estado em março deste ano.
O protocolo prevê, por exemplo, uma série de perguntas para classificar o risco da situação, a qualificação para as equipes e orientação para as famílias. Quem buscar por atendimento pelos canais 190, 192 ou 193 terá de responder perguntas obrigatórias. As respostas irão determinar se a ocorrência é de alto ou baixo risco. A classificação será realizada por quem atender a ocorrência, comunicando os outros órgãos.
Ainda em março, a BM deu início ao Curso de Atendimento de Ocorrências de Emergência em Saúde Mental, voltado à qualificação do efetivo para atuação em situações de crise psiquiátrica, com foco em abordagens mais técnicas, seguras e humanizadas.
Nesta primeira etapa, a capacitação ocorre na modalidade de Ensino a Distância (EAD), abrangendo todo o efetivo da Instituição.
O que diz a defesa
O advogado Eduardo Bastilho, responsável pela defesa do brigadiano que efetuou os disparos, enviou nota sobre o caso, na qual afirma que os policiais desde o primeiro momento compreenderam a gravidade da situação e que uma ocorrência pode ter um resultado doloroso, sem que, necessariamente, tenha existido uma atuação criminosa por parte dos envolvidos.
Confira na íntegra:
"A Defesa registra seu mais profundo pesar pela morte de Herick Cristian da Silva Vargas e manifesta sua solidariedade aos familiares, que enfrentam uma dor que nenhuma palavra ou manifestação jurídica é capaz de diminuir.
Desde o primeiro momento, os policiais compreenderam a gravidade e a dimensão humana do ocorrido. O desfecho daquela ocorrência foi trágico para todos os envolvidos e em nenhum momento foi tratado com desconsideração ou ausência de sensibilidade.
Os policiais colaboraram integralmente com todas as etapas da apuração, prestaram os esclarecimentos necessários e permaneceram à disposição das autoridades para que os fatos fossem analisados de maneira técnica, transparente e responsável.
Após a análise das imagens das câmeras corporais, dos depoimentos e dos laudos periciais, o Inquérito Policial Militar foi concluído, reconhecendo-se a legítima defesa na atuação policial. A Polícia Civil, igualmente, chegou à conclusão de que a atuação ocorreu diante de uma situação concreta e iminente de risco.
A Defesa confia nas conclusões alcançadas pelas instituições responsáveis pela investigação e entende que o conjunto das provas demonstra que os policiais atuaram para preservar suas próprias vidas, em circunstâncias extremas, nas quais as decisões precisaram ser tomadas em poucos segundos.
Isso não mitiga a dor pela perda de uma vida, tampouco desconsidera o sofrimento da família. Significa apenas reconhecer que uma ocorrência pode ter um resultado profundamente doloroso sem que, necessariamente, tenha existido uma atuação criminosa por parte dos agentes envolvidos.
A Defesa seguirá acompanhando o caso com serenidade, respeito e confiança na análise imparcial e justa do Ministério Público, permanecendo à disposição para todos os esclarecimentos necessários.
Porto Alegre, 15 de junho de 2026.
EDUARDO BASTILHO, OAB/RS 127.008
JOÃO MOTTA, OAB/RS 120.816"





