
Uma jovem de 22 anos, mãe de um bebê de um ano e quatro meses, foi sepultada em pleno Dia das Mães deste ano em Porto Alegre. Isabella Borges da Rosa Pacheco foi a vítima de um dos sete feminicídios registrados no Rio Grande do Sul no mês passado. O dado representa alta de 133% em relação ao mesmo período de 2025 e destaca, mais uma vez, o difícil cenário da prevenção deste crime, que resiste à melhora geral em índices de criminalidade no Estado.
Dados divulgados pela Secretaria da Segurança Pública na quinta-feira (11) mostram que, em maio, dois crimes saltaram no Rio Grande do Sul em relação ao ano anterior: o feminicídio, que interrompeu a vida de Isabella, e o latrocínio, que fez vítimas em seis municípios gaúchos (leia mais abaixo).
Diretora da Divisão de Proteção e Atendimento à Mulher, delegada Waleska Alvarenga, chama a atenção para a urgência de um trabalho focado nos homens:
— Eles fazem parte do problema e, portanto, devem fazer parte da solução. Vamos iniciar o nosso grupo reflexivo de gênero, o Despertar.
Prevenção ainda é maior dificuldade
— Nosso principal desafio é alcançar a mulher que não acessou a rede de proteção e que não registrou ocorrência. Estamos cruzando dados com saúde, pois às vezes, ela acessou o posto de saúde várias vezes com suspeita de agressão — acrescenta a delegada Waleska Alvarenga.
Isabella foi assassinada na manhã de 9 de maio. Ela era mãe de um bebê de um ano e quatro meses. O suspeito, companheiro dela e pai da criança, Nicollas Ronald Moraes dos Santos, 23 anos, foi preso no mesmo dia do crime.
O Ministério Público apresentou em 25 de maio denúncia pelo crime de feminicídio qualificado — pelo fato de a vítima ser mãe de uma criança de um ano, pelo descumprimento de medida protetiva de urgência, pelo emprego de arma de fogo de uso restrito e por recurso que dificultou sua defesa. Segundo o órgão, Isabella foi morta com um tiro dentro de casa.
— Mais uma morte de mulher coisificada pela bestialidade de quem um dia lhe jurou amar — avaliou o promotor de Justiça Eugênio Paes Amorim, responsável pela denúncia.
Conforme a Polícia Civil, investigação de casos de violência doméstica têm 100% de resolução, com responsáveis identificados e inquéritos encaminhados. O gargalo, porém, segue sendo a complexidade de combater crimes contra mulheres. Até esta sexta, são 39 feminicídios no ano.
Em entrevista nesta sexta-feira (12), ao programa Atualidade, da Rádio Gaúcha, o Secretário de Segurança Pública, Mario Ikeda, reconheceu o grave cenário. Medidas como a instalação de tornozeleiras eletrônicas aos agressores de mulheres combinada com o aprimoramento desse do fluxo com o Judiciário apontaram para o sucesso de uma política de prevenção aos feminicídios: nenhuma das monitoradas morreu ou voltou a sofrer violência.
— O Estado vem se esforçando bastante para acolher as mulheres. E não só para melhorar a segurança, mas (melhorar) junto com a Secretaria das Mulheres e com todas as estruturas do Estado e de outros municípios — comentou o secretário.
Salto nos latrocínios contrasta com queda na década
Também na comparação com o mesmo período do ano passado, os registros do crime de latrocínio — roubo com morte — dobraram no período, passando de três para seis ocorrências — um aumento de 100%. Os delitos aconteceram nos municípios de Capão da Canoa, Cruz Alta, Charqueadas, Canoas, Porto Alegre e Caxias do Sul.
Na Capital, um homem morreu enquanto trabalhava. O motorista de aplicativo Claudio Alba França, 48 anos, foi encontrado morto no dia 24 de maio, no bairro Belém Velho, na Zona Sul.
O corpo de França estava à beira de uma estrada e tinha perfurações de arma branca. Os pertences, como carteira e celular, foram roubados. O carro da vítima foi levado, mas os criminosos acabaram capotando o veículo. Quatro dias depois, dois suspeitos foram presos. O inquérito foi remetido ao MP no dia 3 de junho.
Questionada sobre a alta dos latrocínios no Estado, a Brigada Militar (BM) avaliou, em nota, que "qualquer inflexão identificada nos indicadores criminais é prontamente analisada, com a adoção de medidas específicas de enfrentamento e combate". A corporação destaca que, apesar da variação em maio, a tendência é de redução para esse tipo de delito.
"No ano de 2016, o Estado contabilizava 174 casos de latrocínio. Esse indicador vem apresentando queda constante ao longo dos anos, tanto que 2025 encerrou com 31 ocorrências, representando uma redução de aproximadamente 82% em comparação com 2016. Em 2026, até o momento, foram registrados 18 casos", diz o comunicado.
Homicídios em queda
Os casos de homicídios dolosos (com intenção) mantiveram em maio a queda que vem sendo observada nos últimos anos. O número de vítimas deste crime no Estado caiu 7% no mês passado — de 88 em maio de 2025 para 82 em maio de 2026.
O governo estadual atribui esta queda a políticas públicas e ações policiais, como:
- Policiamento ostensivo direcionado por dados
- Combate ao tráfico e às organizações criminosas, com prisões e apreensões
- Atuação integrada com outros órgãos de segurança e Justiça
- Foco territorial em regiões com maior incidência de violência
- Operações especiais da BM, PC e outros órgãos
Ações integradas
Também na entrevista ao Atualidade, o secretário Ikeda mencionou o investimento governamental de R$ 3 bilhões destinados ao trabalho da SSP e da Secretaria de Sistema Penal e Socioeducativo (SSPS). A importância dos canais de denúncia e de acesso a informação também foi destacada. Um dos exemplos é a Guria, uma assistente virtual baseada em inteligência artificial (IA) generativa, lançada em 2025 para facilitar o acesso dos cidadãos aos serviços digitais, o que inclui, por exemplo, saber qual a delegacia mais próxima ou para que número ligar em caso de emergência.
Violência contra a mulher
Violência doméstica - como pedir ajuda
Brigada Militar – 190
- Se a violência estiver acontecendo, a vítima ou qualquer outra pessoa deve ligar imediatamente para o 190. O atendimento é 24 horas em todo o Estado.
Polícia Civil
- Se a violência já aconteceu, a vítima deverá ir, preferencialmente à Delegacia da Mulher, onde houver, ou a qualquer Delegacia de Polícia para fazer o boletim de ocorrência e solicitar as medidas protetivas.
- Em Porto Alegre, a Delegacia da Mulher na Rua Professor Freitas e Castro, junto ao Palácio da Polícia, no bairro Azenha. Os telefones são (51) 3288-2173 ou 3288-2327 ou 3288-2172 ou 197 (emergências).
- As ocorrências também podem ser registradas em outras delegacias. Há DPs especializadas no Estado. Confira a lista neste link.
Delegacia Online
- É possível registrar o fato pela Delegacia Online, sem ter que ir até a delegacia, o que também facilita a solicitação de medidas protetivas de urgência.
Central de Atendimento à Mulher 24 Horas – Disque 180
- Recebe denúncias ou relatos de violência contra a mulher, reclamações sobre os serviços de rede, orienta sobre direitos e acerca dos locais onde a vítima pode receber atendimento. A denúncia será investigada e a vítima receberá atendimento necessário, inclusive medidas protetivas, se for o caso. A denúncia pode ser anônima. A Central funciona diariamente, 24 horas, e pode ser acionada de qualquer lugar do Brasil.
Defensoria Pública – Disque 0800-644-5556
- Para orientação quanto aos seus direitos e deveres, a vítima poderá procurar a Defensoria Pública, na sua cidade ou, se for o caso, consultar advogado(a).
Centros de Referência de Atendimento à Mulher
- Espaços de acolhimento/atendimento psicológico e social, orientação e encaminhamento jurídico à mulher em situação de violência.
Ministério Público do Rio Grande do Sul
- O Ministério Público do Rio Grande do Sul atende o cidadão em qualquer uma de suas Promotorias de Justiça pelo Interior, com telefones que podem ser encontrados no site da instituição.
- Neste espaço, é possível acessar o atendimento virtual, fazer denúncias e outros tantos procedimentos de atendimento à vítima. Para mais informações clique neste link
Disque 100 - Direitos Humanos
- Serviço gratuito e confidencial do Governo Federal, disponível 24 horas por dia, para proteção e denúncias de violações de direitos humanos.









