
Réu pela morte e desaparecimento de três pessoas da família Aguiar, no final de janeiro, o policial militar Cristiano Domingues Francisco, 39 anos, permaneceu com as chaves do minimercado e das casas das vítimas após o crime. Menos de dois dias depois do sumiço, ele foi visto entrando e saindo do estabelecimento, que fica na esquina das ruas Barbacena e Viamão, na Vila Anair, em Cachoeirinha.
O policial chegava no próprio carro, estacionava e permanecia por algum tempo no local, mantido a portas fechadas. Depois, saía tranquilamente. Mais do que isso, foi ele mesmo que registrou a ocorrência do desaparecimento da ex-mulher, Silvana Germann de Aguiar, 48 anos, e convenceu uma prima dela a fazer o boletim policial acerca do sumiço de Dalmira Germann de Aguair, 70, e Isail Vieira de Aguair, 69 (veja cronologia abaixo).
Quando os parentes procuravam pelos desaparecidos, o policial os levou até o estabelecimento da família. Quem relata a postura de Cristiano após o crime é a prima de Silvana e sobrinha do casal Aguair. Desde o desaparecimento dos parentes, é a primeira vez que a jovem, de 25 anos, vem a público.
— No primeiro momento, a gente acreditou. Ele contou que deixaram as chaves com ele para cuidar tudo e que os tios tinham saído para procurar a Silvana na casa de parentes. Só que a casa de parentes era nossa. Aí, ele fez questão de nos levar ao minimercado e dizia a todo momento que eles iam voltar — conta a mulher, que prefere não ser identificada.
A jovem lembra que, momentos antes, foi até o minimercado por conta do desaparecimento de Silvana. Ao chegar, encontrou o local fechado, o que era incomum para uma segunda-feira. Ela percebeu, então, que os tios também não tinham mais sido vistos.
Vizinhos informaram sobre a constante presença de Cristiano no local e indicaram onde a mãe dele morava, a poucas quadras dali, no bairro Fátima. Foi assim que a familiar das vítimas encontrou a mãe do policial. Ela, então, ligou para o filho, que apareceu cerca de 40 minutos depois.
— Ele já chegou com a ocorrência (do desaparecimento de Silvana). A gente desconfia que, quando a mãe dele ligou, ele foi fazer o boletim. Como ele é policial, uma pessoa a quem se tem respeito e que entende dessas coisas, perguntei se não tínhamos que fazer um BO do desaparecimento do tio e da tia. Ele disse que esse era o próximo passo — lembra a familiar.
A sobrinha de Isail e Dalmira tentou fazer o registro em Cachoeirinha por volta das 19h, mas a delegacia já estava fechada. Ela também tentou em outra delegacia, em Gravataí, mas foi orientada a formalizar a ocorrência na cidade do fato. No dia seguinte, 27 de janeiro, ela voltou a Cachoeirinha e registrou o desaparecimento dos tios.
Fio de cabelo e clonagem de voz
Além de Cristiano, também viraram réus a esposa do policial, a técnica em informática Milena Tainá Ruppenthal Domingues, 28 anos, e o irmão dele, o comerciante Wagner Domingues Francisco, 31.
Wagner foi denunciado por ocultação de cadáver, fraude processual e associação criminosa. Na fase do inquérito policial, outro fato pesou contra ele: a presença de um fio de cabelo encontrado no pano no qual o celular de Silvana estava envolto, em cima de uma pedra, dias depois do desaparecimento. Conforme a polícia, uma denúncia anônima apontou o endereço onde o aparelho foi deixado no dia 7 de fevereiro, sem impressões digitais e com uma fita adesiva na câmera.
Conforme o inquérito, com base em um laudo pericial do Instituto-Geral de Perícias (IGP) anexado ao relatório final do caso, "o material genético identificado no aparelho celular é atribuível a Wagner Domingues Francisco". A análise partiu de uma comparação entre o DNA encontrado no celular e amostras biológicas na escova de dentes e no aparelho de barbear apreendidos na residência de Wagner.
De acordo com a denúncia do MP, "no curso das investigações, o denunciado suprimiu registros de vídeos de interesse das apurações ao retirar o disco rígido do aparelho de gravação por imagens da residência de sua mãe (e mãe do denunciado Cristiano), posteriormente substituindo e formatando referido objeto. Ademais, manuseou o aparelho celular da vítima, o qual foi cuidadosamente escondido em local público e encontrado após notícia anônima".
Conforme o advogado Ricardo Breier, responsável pela defesa de Wagner, "a perícia não é conclusiva. Não se pode dar crédito à versão policial e do MP".
Já a esposa do policial, segundo entendimento do MP, passou a figurar como participante do homicídio (de Isail) e duplo feminicídio (Silvana e Dalmira). Ela ainda responde por três crimes de ocultação de cadáver, fraude processual, associação criminosa, furto e falso testemunho.
Segundo a denúncia, Milena "concorreu para o crime mediante apoio moral e material, na medida em que ajustou e planejou com Cristiano o crime e construiu os álibis, permitindo com que Cristiano ficasse liberado para desaparecer com o corpo".
Em outro trecho da denúncia, o MP afirma que ela "inovou artificiosamente o estado de coisas, com o fim de induzir em erro o juiz". Segundo a acusação, "por meio de acesso virtual, revogou autorização de acesso da conta de Cristiano ao aplicativo de clonagem de voz".
Em pelo menos três situações após a morte da ex-mulher, o policial militar teria utilizado inteligência artificial (IA) para clonar a voz dela, a fim de enganar os ex-sogros.
Quando da denúncia do MP, o advogado de Cristiano, Jeverson Barcellos, informou que não iria se manifestar no momento.
A reportagem de Zero Hora busca contato com a advogada Suelen Lautenschleger, que responde pela defesa de Milena, mas não obteve retorno. O espaço está aberto para manifestação.
O advogado Ricardo Breier, que faz defesa de Wagner, informou que não teve acesso ao processo e à denúncia na íntegra. A defesa ainda diz que o inquérito e a denúncia "consistem em versões unilaterais, não submetidas ao contraditório e à ampla defesa".


