Era noite quando o homem com quem Elis* (nome fictício) foi casada por 38 anos cambaleou embriagado até o galpão da propriedade, alcançou um facão e retornou, riscando a terra no chão e vociferando que “picaria” um dos cinco filhos, que visitava o casal em Cerro Grande, município de 2,3 mil habitantes, no interior gaúcho, a 393 quilômetros de Porto Alegre.
Calada na área em frente à moradia, a mulher, que aprendeu a chorar em silêncio, armou-se com um banco e avançou na direção do marido. Atingiu-o nas costas e nos ombros, até desarmá-lo. Ergueu o banco mais uma vez e foi contida pelo filho, que implorou para que ela parasse:
— Mãe, não mate, que a senhora vai para a cadeia, e não quero ver a mãe na cadeia.
— Posso perder tudo que tiver, mas a minha vida e a dos meus filhos eu não vou perder. Hoje encerrou — foram as últimas palavras que a aposentada disse ao marido, antes de deixá-lo.
Devota, jurou a Deus nunca mais pisar naquela casa, e cumpriu a promessa. Elis saiu dali apenas com a roupa do corpo, procurou a Brigada Militar, e seguiu até a delegacia mais próxima, em Jaboticaba, município vizinho a Cerro Grande. Percorreu outros 20 quilômetros para chegar ao Fórum de Rodeio Bonito, onde detalhou ao juiz o que havia passado, e fez um único apelo ao magistrado:
— Não quero que ele vá para a cadeia, não quero nada daquela casa. Só quero minha vida de volta.
O juiz determinou que o agressor não se aproximasse mais dela e nem tentasse fazer qualquer contato. Até o momento, as medidas protetivas têm sido cumpridas.

O rompante de fúria de Elis aconteceu após três décadas de violências. Ao longo desse período, dedicou-se ao trabalho na roça e nas casas dos outros, como doméstica, e à criação dos filhos. Dentro de casa, ouvia quieta as humilhações, apanhava, e recolhia os cacos dos pratos e copos arrancados da mesa num golpe pelo marido, que “virava bicho” quando bebia:
— Não existe coisa mais triste. Tu chegar cansada, fazer a comida, o homem não almoçar e virar fora. Tu fazer tudo de novo para não ver os filhos com fome. E aguentar, ali, sozinha. Quieta.
Na manhã seguinte, ele jurava nada ter feito, e à noite a cena se repetia. As violências não eram somente físicas. Elis era proibida de pintar os cabelos, fazer as unhas, escolher as próprias roupas e até mesmo de chorar na frente das crianças.
— Tinha que chorar em silêncio. Ia chorar dentro do quarto, no banheiro quando tomava banho. Minha vida era isso. Esses 30 anos foi isso — descreve.
Elis temia que o marido cumprisse a promessa de lhe matar dormindo, e, por isso, virava noites em claro. No outro dia, trabalhava exausta. Escondia, por vergonha e medo, das amigas e das irmãs o terror que vivia em casa. Tinha receio de escapar e não conseguir alimentar os cinco filhos. Por vezes, compadecia-se, e ponderava que ele só era ruim quando bebia. E, assim, foi aguentando.
— Meu sofrimento, era só eu e Deus — diz.
Distância e risco

Uma das localidades onde Elis viveu nesse período foi Linha Schmitt, no meio rural de Cerro Grande. Ali, na noite de 15 de junho de 2025, Adriana Pereira Wagner, 27 anos, foi morta a tiros dentro de casa. O ex-companheiro dela, Adenilson Brizolla de Souza, 26, invadiu a moradia armado com uma espingarda. A vítima tinha rompido o relacionamento. Não havia ocorrência registrada contra o ex.
Violência contra a mulher
O silêncio entre as vítimas de violência doméstica é uma realidade ainda mais recorrente no meio rural, por fatores como isolamento, temor e vergonha. A maior presença de armas de fogo, muitas vezes usadas para proteger as propriedades de crimes como abigeatos ou assaltos, também é um fator que pesa nessa conta.
— Isso também leva a mulher a ficar mais receosa de procurar ajuda. Quando a mulher chega na delegacia, ela já rompe várias barreiras, e a mulher que mora no meio rural tem muito mais dificuldade. Essa mulher muitas vezes não dirige, e as localidades são isoladas. Geralmente, vive apenas com o agressor e os filhos. Então são vários fatores, inclusive, culturais — analisa a delegada da Polícia Civil, Aline Dequi Palma.

À frente da Delegacia Regional de Palmeira das Missões, Aline é responsável por 29 municípios, entre eles, Cerro Grande. Nessas cidades, há 18 delegacias. Em muitos casos, a unidade de Palmeira das Missões se torna referência para as mulheres de outras cidades quando decidem registrar uma ocorrência. A Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam) mais próxima, no entanto, fica ainda mais longe, em Cruz Alta, a 96 quilômetros de Palmeira.
— Temos incentivado elas a usarem a Delegacia Online, e buscado fazer palestras em escolas, chegar nessas comunidades. Mas ainda precisamos nos unir mais em rede para alcançar essas mulheres. Fazer um trabalho junto das agentes de saúde e da Emater. A Emater está no interior, com as extensionistas, que conversam mais com essas mulheres. É uma forma de apoio, de levar a informação e de trazer os anseios dessas vítimas, os relatos, para que a gente possa, enfim, chegar até lá — pondera a delegada.
Na região de Palmeira das Missões, existem seis Salas das Margaridas, que são espaços especializados para acolhimento das vítimas. Elas estão localizadas em Palmeira, Panambi, Erval Seco, Frederico Westphalen, Seberi e Planalto.
A maior parte das vítimas que procura a Polícia Civil na região, nesse contexto de violência doméstica, relata casos de ameaça, lesão corporal, violência psicológica e injúria, entre outros crimes.
Segundo o Censo de 2010, o último a ter este dado, o Rio Grande do Sul tinha cerca de 750 mil mulheres vivendo em zonas rurais.
Sobrecarga de trabalho e desvalorização

Na nova sede da Emater-RS, na área central de Cerro Grande, a extensionista social Josiane Cortese Manfio, 47 anos, a Ane, fixou num mural rosa um mapa do município e das comunidades rurais. Cerca de 66% da população vive nessas áreas, a maior parte em pequenas propriedades, onde cultivam milho, soja, produzem leite e, muitas vezes, quase todos os alimentos que consomem. Boa parte deste trabalho é realizado pelas mulheres.
Apesar de estar há apenas cinco meses na Emater, Ane possui vínculo longo com as mulheres rurais. Atuou como professora por 18 anos, atendendo famílias dessas localidades, e outros cinco numa cooperativa.
— A vida da mulher não é fácil, mas da mulher rural é muito mais difícil. A mulher, em geral, tem uma sobrecarga, mas o trabalho da mulher rural é muito pesado. Tem todo um trabalho braçal desenvolvido na propriedade. E esse trabalho muitas vezes não é valorizado. Ela sofre violência psicológica, financeira. Ela produz muito, trabalha muito, mas o dinheiro em muitos casos fica na mão do marido. Ainda existe muita violência velada — avalia.
Em Cerro Grande, Ane percorre as propriedades e se aproxima das mulheres, convidando para participar de atividades fora dali. Nos grupos formados nas comunidades, elas se reúnem para atividades, como artesanato, palestras, cursos e momentos de lazer. Não é incomum que as mulheres rejeitem os convites, ou condicionem a participação à anuência dos maridos. Ane escuta e insiste, chega a oferecer transporte.
— Tem mulheres isoladas, que ficam um mês na propriedade, e não vão na cidade, mesmo que fique a quatro ou cinco quilômetros. Muitas vezes não têm nem com quem conversar, desabafar — relata.
Grupos de mulheres
Durante a maior parte da vida, Lenir Floripa da Silva, 49 anos, foi agricultora e trabalhou na roça. Após um assalto à propriedade, migrou para a cidade, onde atualmente vende bolos caseiros e se prepara para investir numa loja voltada especialmente às mulheres. Lenir ainda lidera o grupo feminino da Esquina Raimundi, e faz parte da feira rural, formada em sua maioria por agricultoras.
— A gente se conversa muito entre nós mulheres. Falta mais atenção para as mulheres da lavoura. As mulheres trabalham muito. É marido, é filho, é tirar leite, lidar com porco, e, muitas vezes, as mulheres têm vontade de sair, ir fazer umas comprinhas, um batom que seja, mas não têm condições, porque não tem um centavo no bolso porque os maridos não dão. Por mais que ela trabalhe — relata.
— Essa mulher tem que ter a própria renda. Tem que ser valorizada. Você tem que buscar fazer com que essa mulher se olhe, se priorize e volte a gostar de si mesma. Essas mulheres têm que ter alguém que diga "eu te vejo, eu te enxergo, você está aqui, você é importante" — complementa Ane.
Em Linha Schmitt, mesma localidade onde aconteceu o feminicídio de Adriana, a produtora rural Eliane Terezinha Valcarengui, 52 anos, é uma das mulheres que integram um dos grupos. Na sua propriedade, é ela quem comanda boa parte das atividades:
— Eu tenho a minha lida, faço pilates, quando preciso ir para cidade eu vou. Eu que lido com as coisas do banco. A vida me ensinou a ser assim. Eu casei muito nova, com 17 anos. Nasci e cresci na roça. Tenho muito orgulho da minha profissão.
Ela e o marido, Wilmar Valcarengui, são pais de três filhos, Patrícia, Gabriele e Carlos Eduardo.
— A minha mais velha tocou 10 anos a suinocultura na propriedade, a do meio é enfermeira. O mais novo está com 18 anos, está fazendo faculdade. Eu tento explicar pelo menos para o meu guri, que não seja um machista. A gente fica triste em saber que ainda existe esse machismo de matar as mulheres — diz Eliane.
Perda da autoestima
No pátio do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) de Cerro Grande há dois bancos vermelhos e placas alertando para a importância de denunciar a violência doméstica. Isso, muitas vezes, no entanto, leva anos para acontecer. E, quando a vítima está no meio rural, esse tempo costuma ser ainda mais longo.
Em muitos casos, além de trabalharem na propriedade, as mulheres vivem com a família do marido, sem um círculo próximo de familiares seus ou de amizades, o que torna o rompimento mais complexo.
— A mulher rural divide a renda com o marido e, se ela for sair de casa, vai ficar sem essa renda. E isso pesa muito quando a mulher tem filhos, e muitas vezes faz ela permanecer naquela situação de violência. A gente busca sempre realizar cursos, porque a nossa intenção de cursos não é para elas aprenderem, é para tirar ela daquele ambiente que ela vive o dia a dia. Então, ali ela conversa com outras mulheres — explica a assistente social e coordenadora do Cras de Cerro Grande, Lisiele Moi Sartori, 38 anos.
— Elas vêm com a autoestima muito baixa. A desvalorização é muito grande. A autoestima vai ficando tão baixa que ela deixa de fazer cuidados básicos de si mesma. E essas coisas que são bem sutis, muitas vezes a gente percebe e acende um alerta para a gente. Não é um momento fácil para a mulher identificar que ela está naquele ciclo de violência. Geralmente o pedido de socorro vem quando há agressão física. Mas isso pode levar muitos anos — complementa a psicóloga Tarciane Cenci, 42 anos, que atua há mais de 20 anos com as mulheres vítimas de violência doméstica em Cerro Grande.
Elis, citada no começo da reportagem, é uma das vítimas que recebe suporte no Cras do município. Foi por meio do auxílio da assistência social e da própria comunidade que ela conseguiu recomeçar a vida. Inicialmente, morou na casa de um dos filhos, mas, atualmente, vive com a filha caçula numa moradia alugada, na área central do município. Aposentada, aos 60 anos, segue trabalhando como doméstica. Desde que se libertou da violência, há quase cinco anos, viu a vida mudar:
— Eu renovei acho que uns 20 anos. Trabalho, me divirto, vou para a terceira idade. Chega fim de semana eu me arrumo, faço unha, faço cabelo. Coisa que eu nunca podia fazer. Compro roupa bonita. Sou a mulher mais feliz do mundo agora.
* O nome usado na reportagem é fictício para preservar a vítima.
Contrapontos
O que diz a defesa de Adenilson Brizolla de Souza
Adenilson Brizolla de Souza, 26 anos, está preso de forma preventiva desde 23 de junho de 2025 pelo feminicídio de Adriana Wagner. Sobre o caso, a Defensoria Pública do Estado informou que "por seu dever constitucional, está atuando na defesa do acusado e irá se manifestar somente nos autos do processo".
O que diz a Polícia Civil
Questionada sobre a distância entre alguns municípios da Região Noroeste e uma delegacia especializada no atendimento à mulher, ou mesmo qualquer delegacia, a Polícia Civil do RS respondeu por meio de nota:
A Polícia Civil reafirma seu compromisso no combate à violência doméstica no Rio Grande do Sul. Dessa forma, a PCRS segue consolidando o projeto de humanização do acolhimento às mulheres em situação de vulnerabilidade no contexto de violência doméstica.
Com o intuito de reprimir e coibir os crimes de feminicídio e qualquer outra forma de violência contra a mulher, a Polícia Civil do RS segue aperfeiçoando e qualificando o atendimento policial especializado nessa temática. Atualmente, a instituição dispõe de 103 Salas das Margaridas e 24 Delegacias Especializadas no Atendimento à Mulher.
Nesse sentido, a Sala das Margaridas tem o objetivo de aprimorar o acolhimento das vítimas em uma estrutura especializada, com ambiente propício a reduzir o sofrimento das mulheres. Para tanto, os policiais civis recebem treinamentos específicos para o atendimento de vítimas de violência doméstica.
Vale ressaltar que, nos municípios onde não há delegacias especializadas, o atendimento às mulheres vítimas de violência pode ser feito em qualquer delegacia. Além disso, é possível acessar, em tempo integral, a delegacia on-line da mulher, meio digital com todos os recursos de uma delegacia especializada, inclusive para a solicitação de medidas protetivas e outros instrumentos de proteção às mulheres.
Novas Instalações:
Com o objetivo de ampliar ainda mais a eficiência no atendimento, a Polícia Civil inaugurará mais uma Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento da Divisão de Proteção e Atendimento à Mulher (Dipam/DPGV). O local será o prédio da antiga Junta Militar de Porto Alegre.
O espaço tem aproximadamente 285 m² e possui um espaço kids, voltado ao acolhimento de crianças, tornando o ambiente mais humanizado e adequado para famílias em situação de atendimento. O projeto ainda prevê amplas áreas de circulação, garantindo a fluidez entre os setores e separação adequada entre as mulheres vítimas, as equipes, custodiados e o público em geral.
Assim, o projeto representa um avanço concreto no enfrentamento à violência contra a mulher no Rio Grande do Sul. Em um contexto social que exige respostas cada vez mais firmes e sensíveis, a nova estrutura foi pensada para acolher com dignidade, garantir privacidade e qualificar o atendimento às vítimas. Trata-se de um espaço que materializa um compromisso institucional com a proteção, o respeito e a justiça, contribuindo para fortalecer a rede de apoio e ampliar a efetividade das ações de combate a esse tipo de crime no estado.








