
Sem corpos para sepultar e sem as pessoas localizadas, familiares dos Aguiar, em Cachoeirinha, vivem uma espera indeterminada, na qual elaborar o luto se torna mais complexo. Silvana Germann de Aguiar, 48 anos, não foi mais vista desde 24 de janeiro. No outro dia, os pais dela, Isail Vieira de Aguiar, 69, e Dalmira Germann de Aguiar, 70, também sumiram.
Dos seis indiciados pela Polícia Civil por envolvimento no caso, três pessoas foram denunciadas e se tornaram rés por, entre outros crimes, ocultação de cadáver. A pena para esse crime pode variar de um a três anos de prisão e multa.
— A esperança de localizar os corpos passa por entender a participação dos outros três indiciados e na importância da confissão e possível revelação do local onde foram deixados — diz o advogado que representa a família Aguiar, Gilmar Souza Vargas.
Ainda no fim de fevereiro, a polícia buscava a elucidação do caso e a responsabilização pelos crimes ao ampliar frentes de trabalho e passar a fazer buscas em áreas de mata e rios da Região Metropolitana. O trabalho contou com o Corpo de Bombeiros e com cães farejadores.
Porém, uma combinação de fatores dificultou tanto o rastreamento dos deslocamentos do suspeito quanto a localização dos corpos (entenda abaixo).
Ao longo da investigação, diversas diligências foram realizadas. A falta de sinais contínuos de celular, imagens conclusivas que indicassem onde exatamente procurar, somados à complexidade do território dos municípios de Cachoeirinha e Gravataí e à estratégia adotada pelo principal suspeito, Cristiano o Domingues Francisco, foram empecilhos para a apuração, segundo a Polícia Civil. Policial militar, o réu tem 16 anos de experiência na área da segurança pública.
— Estamos diante de alguém que conhece o trabalho policial e fez tudo pensando em dificultar a investigação, esconder provas — falou o delegado Anderson Spier, durante as investigações, em fevereiro.
Cristiano permaneceu em silêncio nas três vezes em que foi intimado a depor. Depoimentos imprecisos ou contraditórios dos demais indiciados, bem como a simulação de fatos e destruição de provas, também interferiram na investigação.
— Os familiares dos desaparecidos entendem que nunca haverá uma justiça plena e satisfatória nem punição capaz de reparar o sofrimento pelas perdas irreparáveis, mas entendem que todos os seis indiciados deveriam responder na ação penal na medida da participação de cada um — completa o advogado Gilmar Souza Vargas.
O tempo atua contra a investigação
A polícia refuta que o registro tardio da ocorrência e a abertura do inquérito apenas no dia 29 de janeiro tenham comprometido a apuração. Contudo, a literatura policial indica que, quanto mais cedo a investigação começa e quanto mais cruzados são os dados (tecnológicos, humanos e periciais), maiores as chances de sucesso. Isail chegou a ir à delegacia no dia 25 de janeiro para reportar o sumiço da filha, mas o local estava fechado. No dia 27, o próprio Cristiano fez o boletim de ocorrência pelo desaparecimento de Silvana. Dia 28, parentes registram o desaparecimento de Dalmira e Isail.
Outro ponto mencionado é a interferência de condições ambientais adversas. Chuvas intensas podem arrastar corpos ou alterar o solo. Vegetação densa ou áreas de difícil acesso podem apagar vestígios ou tornar buscas técnicas inviáveis.
Nenhuma hipótese é descartada: enterro clandestino (valas, áreas rurais, matas, terrenos baldios), descarte em rios, queima, esquartejamento, corpos carbonizados, enterrados com produtos químicos ou até mudança do local dos corpos. Há mais de 100 dias dos desaparecimentos, a ação de animais, insetos e microrganismos e a decomposição acelerada dos cadáveres também podem eliminar sinais visuais.
Quando a Polícia Civil apresentou à imprensa o indiciamento de seis investigados, no dia 17 de abril, o delegado Ernesto Prestes, da 2ª Delegacia de Polícia de Cachoeirinha, informou que, diante de qualquer denúncia ou novo indício, novas buscas seriam empenhadas para localização dos corpos.
Na segunda-feira (4), promotores do Ministério Público também afirmaram situação semelhante ao detalharem a denúncia.
— Precisamos desse desfecho para esses familiares elaborarem esse luto — declarou a subprocuradora-geral para assuntos institucionais, Alessandra Bastian da Cunha.
No entanto, não foram divulgadas informações de novas operações de busca até então.
Veja o que tem dificultado a localização dos corpos:
Uso limitado de geolocalização
A polícia trabalha com a hipótese de que o suspeito teria deixado o celular em casa em momentos-chave, justamente quando teria feito o transporte e a ocultação dos corpos. Com isso, não há registro contínuo de deslocamento nesses períodos, o que inviabiliza reconstruir alguns trajetos com base em sinal de telefone.
Veículo sem rastreio eficaz
O uso de um Fox vermelho, que entrou e saiu da casa de Silvana na noite em que ela desapareceu, foi um ponto central na investigação. O carro estava com placas adulteradas e nunca mais foi localizado. Isso impede:
- Identificação precisa do percurso feito
- Cruzamento confiável com sistemas de cercamento eletrônico
- Vínculo direto com entradas ou saídas de áreas específicas
Limitações das câmeras
Embora haja câmeras na Região Metropolitana, elas não foram suficientes para indicar o destino final do veículo. O trajeto não pôde ser fechado com precisão, especialmente em áreas periféricas ou rurais.
Área extensa de mata
As buscas realizadas com apoio do Corpo de Bombeiros focaram nos pontos onde a geolocalização foi possível, principalmente em áreas de mata entre Cachoeirinha e Gravataí. A própria investigação ressalta que se trata de uma região muito ampla, o que reduz um indicativo mais objetivo.
Questões ambientais
- Chuvas intensas
- Vegetação densa
- Rios extensos e profundos
- Ação de animais, insetos e microrganismos
Os três réus do caso da família Aguiar

Cristiano Domingues Francisco, 39 anos, policial militar
Ex-marido de Silvana, responderá por oito crimes (duplo feminicídio, homicídio qualificado, ocultação de cadáver, falsidade ideológica, fraude processual, furto, associação criminosa e abandono de incapaz).
Jeverson Barcellos, advogado do PM, informou que aguarda a ação penal e, neste momento, não vai se manifestar.
Milena Tainá Ruppenthal Domingues, 28 anos, técnica em informática
Atual esposa de Cristiano, é apontada por participação nos dois feminicídios e no homicídio qualificado, além de ocultação de cadáver, fraude processual, associação criminosa, furto e falso testemunho, em razão do planejamento dos crimes, da criação de álibis e da manipulação de provas.
A reportagem de Zero Hora busca contato com a advogada Suelen Lautenschleger, que responde pela defesa de Milena. Não houve retorno. O espaço está aberto para manifestação.
Wagner Domingues Francisco, 31 anos, comerciante
Irmão de Cristiano, é réu por ocultação de cadáver, fraude processual e associação criminosa, por auxiliar na ocultação dos corpos e dificultar o esclarecimento dos fatos.
O advogado Ricardo Breier, que faz defesa de Wagner Domingues Francisco, irmão de Cristiano, informou que não teve acesso ao processo e à denúncia na íntegra. A defesa ainda diz que o inquérito e a denúncia "consistem em versões unilaterais, não submetidas ao contraditório e à ampla defesa".


