
Planilhas com etapas de obras que nunca foram executadas, assinaturas falsificadas em laudos de medição, fotos de imóveis de terceiros usadas para liberar parcelas de financiamento e até o envolvimento de um funcionário da Caixa Econômica Federal. Reportagem produzida pela RBS TV e exibida no Fantástico deste domingo (17) revela um esquema que deixou famílias gaúchas endividadas, com obras abandonadas e o sonho da casa própria transformado em prejuízo.
A reportagem acompanhou o momento em que, pela primeira vez em dois anos, a empresária Marcela Bohnenberger Telles voltou à obra que deveria ser a casa da família, em Gravataí. O imóvel está abandonado, tomado por mato e infiltrações.
— Aqui era para ser o quarto da nossa filha. E olha só o estado. Já tem até grama no chão, até limo no chão. O lugar que a gente escolheu pra ela dormir, pra ela se desenvolver, pra ela crescer — disse.
A obra começou em 2021. A filha do casal nasceu um ano depois e hoje, aos quatro anos, nunca morou na casa.
— A minha filha está fazendo quatro anos e era pra ela ter aprendido a caminhar aqui. E ela tem quatro anos e a gente mora de aluguel. Sendo que a gente tem isso aqui, que por direito deveria ser nosso — lamentou.
Para construir a casa, Marcela e o marido, Izael Mendes, contrataram financiamento da Caixa Econômica Federal. Pagaram parcelas durante dois anos, mas a obra está parada há três. Segundo o casal, foram pagos entre R$ 400 mil e R$ 500 mil.
— Em torno de R$ 500 mil. De R$ 400 mil a R$ 500 mil, mais ou menos — afirmou Izael.
Nesse modelo de financiamento, a Caixa libera parcelas conforme o avanço da obra, mediante laudos apresentados pelas construtoras. No caso de Marcela e Izael, os documentos eram enviados pela construtora Âmbar-Prumo, contratada pelo casal.
Os laudos apontavam que mais de 84% da casa estava concluída. Mas a realidade encontrada no terreno era outra.
— Eu tenho um documento aqui que diz que 84,39% da minha casa tá pronta. Não tem cabimento. Isso aqui não pode ser 85% de uma casa construída — declarou Marcela.

A advogada da família, Michele Pinheiro, afirma que um laudo técnico independente encontrou diferenças expressivas entre o que aparecia nos documentos apresentados à Caixa e o andamento real da obra.
— Há discrepâncias gritantes. A obra aparentemente estava como 80% concluída, mas o laudo do engenheiro apontava que não havia sido concluída nem ao menos 40% — declarou.
As assinaturas nos laudos também eram falsas. A pedido da reportagem, o perito em Grafoscopia e Documentoscopia João Henrique Seibel Rodriguez analisou os documentos e identificou indícios claros de fraude.
— Esse tipo de fraude acontece diariamente em todo o Brasil. Um técnico ou agente bancário acostumado a verificar assinaturas deveria ter percebido — explicou.
Depois de descobrir o golpe, o casal interrompeu o pagamento das parcelas. Mesmo assim, a Caixa anunciou que pretende leiloar o terreno e a obra para quitar a dívida.
— Eu passei dois anos sem chegar perto aqui, que eu desmaiava — relatou Marcella.
O caso não foi isolado. Outras famílias gaúchas também relatam prejuízos semelhantes envolvendo a mesma construtora. Em Canoas, Renata Gossling Fontes e Michel Lunkes Cezar financiaram mais de R$ 500 mil para construir a casa da família. Eles afirmam que foram atraídos pela promessa de facilidade na aprovação do crédito.
— Essa construtora tinha o pacote completo e dentro da própria construtora já tinha o parceiro Caixa. Então facilitava os trâmites que a gente não entendia na época — contou Renata.
Segundo ela, um representante da empresa chegou a afirmar que os clientes estavam "em ótimas mãos".
— A pessoa que nos recebeu disse: essa construtora é do meu filho, meu filho é um dos sócios — relembrou.
Para liberar parcelas do financiamento sem executar etapas da obra, o dono da Âmbar-Prumo, Bruno Barbosa da Silva, anexou em planilhas fotos de outra residência em construção. O material foi enviado à Caixa como se fosse da obra do casal.
— Se a gente fosse botar para liquidar hoje, daria em torno de R$ 386 mil — afirmou Michel.
Sem conseguir concluir a construção, o casal recorreu a empréstimos e ajuda de familiares.
— A gente tem três empréstimos em outro banco. Mas é a casa dos sonhos, a gente não quis desistir — disse Renata.
A reportagem também encontrou denúncias semelhantes envolvendo outra empresa, a construtora Vitruviana. O comerciante Guilherme Junior Martins Both afirma que contratou financiamento de R$ 290 mil para construir uma casa em Porto Alegre. Segundo ele, Pedro André Marchese Sessegolo se apresentava ao mesmo tempo como dono da construtora e funcionário da Caixa em Alvorada, agência onde o contrato foi assinado.
— Ele se identificou como trabalhando na Caixa. Dizia que conseguia ajustar para que nós tivéssemos um caminho mais fácil — relatou Guilherme.
Segundo o comerciante, Pedro direcionava os clientes para a própria agência onde trabalhava.
— A gente não entendia nada de financiamento. E ele dizia: "eu consigo ajeitar para vocês" — afirmou.
Após desconfiar da falta de avanço da obra, Guilherme teve acesso às planilhas enviadas à Caixa. Nos documentos, a construtora apontava etapas praticamente concluídas, apesar de a obra ainda estar no início.
— Paredes e painéis, 100%. Não estão. Esquadrias, 25%. Não tem nenhuma. Instalações elétricas, 75%. Não tem nada — detalhou.
Guilherme e a mulher afirmam que a construção foi abandonada sete meses depois do início.
— Foi um pesadelo. Eu me trato até hoje com terapia para poder tocar a vida — lamentou Bruna da Rosa Aguirres Both.
Clientes da Vitruviana denunciaram Pedro Marchese à ouvidoria da Caixa. O banco abriu processo administrativo e demitiu o funcionário por justa causa no ano passado. Documentos obtidos pela reportagem mostram trocas de e-mails em que ele pedia a colegas da agência a liberação de parcelas destinadas à construtora da qual era sócio.
Contrapontos
A defesa de Bruno Barbosa da Silva, dono da Âmbar-Prumo, afirmou que "todas as obras executadas pela Âmbar Prumo Engenharia foram conduzidas em estrita observância às normas e procedimentos estabelecidos pela Caixa Econômica Federal, instituição financeira responsável pelo financiamento dos empreendimentos". Também ressaltou que "a liberação dos recursos financeiros referentes às obras ocorria diretamente nas contas bancárias dos clientes, sem a intervenção de terceiros, conforme determinação da própria Caixa Econômica Federal, cabendo à instituição financeira a fiscalização e a aprovação das medições para o repasse dos valores".
Já o ex-funcionário da Caixa e que respondia pela construtora Vitruviana, Pedro André Marchesi Cecegolo, recorre na Justiça do Trabalho contra a demissão e nega ter causado qualquer prejuízo financeiro à Caixa.
"O que se verifica é uma tentativa coordenada de clientes inadimplentes de transformar uma disputa comercial legítima em um escândalo administrativo", diz trecho da nota enviada pela defesa.
Procurada, a Caixa, por meio do superintendente nacional de Habitação, Raul Gomes, afirmou que a responsabilidade pela obra é do cliente. "Não tem nenhum tipo de controle, fiscalização. Nessa modalidade específica, é o cliente quem administra financeiramente a sua obra. Se a construtora que ele contratou (...) aplicou uma fraude a ele, é uma questão entre cliente e construtora", declarou.
Sobre o envolvimento de funcionários, o banco disse que apura rigorosamente qualquer desvio de conduta.


