
Dalmira Germann e Isail de Aguiar, casal desaparecido em Cachoeirinha desde o final de janeiro, trilharam um caminho de trabalho intenso e cumplicidade durante toda a vida. Eles se conheceram em Três Forquilhas, cidade hoje com cerca de 2,6 mil habitantes, à época distrito de Torres, no Litoral Norte. O encontro não foi por acaso. Eles eram conhecidos, e a convivência se deu desde a infância. Depois de se casarem, mudaram-se para Gravataí, em busca de melhores oportunidades perto da Capital.
Recém-chegado, Isail atuou por cerca de uma década como carpinteiro. Fazia serviço junto a madeireiras da região e ajudava na construção de casas. Os primeiros tempos foram difíceis, financeiramente. Por anos, ele também trabalhou fazendo caixas de verduras e frutas para a Central de Abastecimento do Rio Grande do Sul (Ceasa/RS). Não raro, a família toda fazia uma força-tarefa e passava das 22h montando as caixinhas. O barulho da serra circular era ouvido pela vizinhança. Mal amanhecia e um caminhão recolhia o material confeccionado.
Dalmira complementava a renda com costuras. Entre os trabalhos, fazia sapatinhos para bebês e levava a postos de combustíveis para serem vendidos a viajantes que paravam para abastecer ou fazer refeições.
A única filha do casal, Silvana, nasceu no dia 6 de outubro de 1977, no Hospital Dom João Becker. A menina seria companheira inseparável dos pais. Mesmo de depois de casada, os almoços com todos juntos eram imprescindíveis. No dia a dia, trabalhava junto de Dalmira e Isail no estabelecimento da família, o Minimercado Aguiar.
O empreendimento foi aberto assim que eles se mudaram para Cachoeirinha, quando Silvana ainda era adolescente, no final dos anos 1990. Um terreno comprado na esquina das ruas Barbacena e Viamão passou a ser endereço de trabalho e de residência, já que a casa fica anexa ao minimercado.
Foi neste local que seguiram morando até os desaparecimentos. O casal foi visto pela última vez em 25 de janeiro de 2026, quando saiu para procurar a filha, desaparecida desde o dia anterior.
Família prosperou no bairro Anair

O negócio prosperou, ganhando a confiança e a clientela dos vizinhos. Sem luxos e sempre com muito trabalho, a vida se estruturou por ali. A casa azul — uma escolha pensada para homenagear o Grêmio, time do coração de Isail — foi ampliada, e o carro trocado por um melhor.
Os Aguiar também compraram um sítio em Gravataí e outros imóveis em Cachoeirinha, que seguem alugados até hoje.
Uma das linhas de investigação policial é justamente a de que o crime foi planejado e teve motivação financeira. O principal suspeito é o ex-marido de Silvana, o policial militar Cristiano Domingues Francisco, 39 anos, com quem ela tem um filho, de nove. O homem está preso temporariamente desde 10 de fevereiro. A Justiça analisa um pedido de prisão preventiva contra o investigado.
Na segunda-feira (6), Cristiano foi até a delegacia que apura o caso, mas ficou em silêncio durante depoimento. A defesa do investigado afirma que teve acesso ao inquérito e que prepara seus contrapontos à investigação.
A ida ao sítio nos finais de semana era o principal lazer de Isail e Dalmira. O pai era considerado o cozinheiro da família. O arroz com linguiça, umas das suas especialidades. Discretos, não eram afeitos a grandes junções, mas parentes mais próximos eram convidados para confraternizações em datas especiais.
— Era um cozinheiro de mão cheia. Fazia arroz, batatinha acebolada ou com linguiça, sempre era comida gostosa. Todos os dias no almoço lembramos dele aqui em casa. Cada um tinha sua família, e não dava para conviver tanto. Aí penso: o tempo passa, a gente envelhece para acontecer isso? Ainda não acredito — relata a irmã de Isail, Onilda Aguiar Justin, 61 anos.

A família nunca abria mão de celebrar os aniversários, sobretudo depois de que o neto nasceu. Festinhas e bolos temáticos eram pensados para alegrar a criança.
Dalmira e Isail eram muito respeitados nas redondezas e há relatos de terem ajudado alguns vizinhos, quando esses passaram por situações difíceis. Contudo, não vendiam fiado e eram muito rigorosos com o caixa, com cada centavo no troco. Os Aguiar costumavam receber pagamentos somente em dinheiro, fato que levou a polícia a investigar se tinham cédulas armazenadas em casa. Nenhuma quantia foi encontrada na moradia.
O minimercado funcionava de "segunda a segunda" e se tornou principal ponto de referência, o "mercado quebra-galho" da região. Só fechava aos domingos à tarde e costumava abrir em horários estendidos em datas festivas e feriados.
Isail e Dalmira chegaram a ter telefones celulares, mas após golpes cibernéticos, Silvana os aconselhou a abrir mão dos aparelhos e manter apenas o telefone fixo. Ao longo de quase três décadas, o minimercado foi alvo de alguns assaltos, o que fez com que a segurança fosse reforçada. Os Aguiar instalaram câmeras e colocaram grades no entorno do caixa, como proteção.
Nos últimos anos, a filha praticamente passou a administrar a vida financeira dos pais. Há, inclusive, um contrato de locação dos Aguiar assinado pela própria Silvana. A polícia buscou tabelionatos da região e a quebra de sigilo bancário para obter a informação completa sobre o patrimônio da família.
O casamento de Silvana
Tal qual Isail e Dalmira, Silvana manteve uma vida reservada. Sempre ajudou os pais no que eles fizessem. O primeiro emprego não vinculado à família foi em uma antiga camisaria, em Cachoeirinha. Tempo depois, voltou a ajudar no minimercado. Foi ali, entre os bairros Fátima e Anair, que conheceu Cristiano.
Namoraram por cerca de dois anos, se casaram no civil e optaram por uma pequena comemoração somente com a família e pouquíssimos amigos. Logo após oficializarem o matrimônio, Silvana e Cristiano abriram um armazém na esquina das ruas Guaíba e Amazonas, no bairro Fátima. O local se manteve em funcionamento por cerca de um ano. A primeira casa em que moraram foi no mesmo bairro.
— No começo a relação parecia normal, mas, passados dois ou três anos, ela foi apagando o sorriso, o brilho. Ficou meio descuidada, deixou de ser vaidosa, o que não condizia com a Silvana mais jovem e sempre bem arrumadinha — lembra uma amiga que prefere não ser identificada.
Depois de um tempo, Silvana e Cristiano se mudaram para uma residência na Rua Fidel Zanchetta, no bairro Parque Granja Esperança. O casamento durou oito anos. O filho do casal tinha dois anos de idade quando eles se separaram.
— A Silvana bancava muita coisa. O enxoval do bebê, o chá de fralda, tudo foi ela. Ela preparou uma surpresa para contar da gravidez e acabou adiando porque ele (Cristiano) fazia pouco caso — acrescenta a amiga.

Conforme a polícia, não havia processo judicial ou registro policial de Silvana contra Cristiano. No entanto, duas semanas antes de sumir, em 9 de janeiro, ela compareceu ao Conselho Tutelar para registrar que o ex-marido desrespeitava as restrições alimentares do filho.
Outras amigas e familiares de Silvana lembram que o casal teve atritos ao longo dos anos. Segundo os relatos, Silvana sempre foi muito zelosa com a criação do filho, enquanto Cristiano a culparia pelo afastamento do casal depois do nascimento do bebê, supostamente descredibilizando opiniões e atitudes da mulher.
Foi somente após o divórcio que Silvana passou a ter redes sociais e se dedicar a atividades físicas. Conforme amigas próximas, o pedido de se manter afastada dessas atividades vinha do marido. Já solteira, Silvana focou na alimentação saudável e fazia exercícios físicos diariamente. O rigor era tamanho que ela tinha halteres no ambiente de trabalho e adquiriu aparelhos de ginástica para se exercitar em casa.
— Ela passou a se cuidar e incentivava o filho também. Era muito amorosa, um amor que não dá para explicar. Ela foi mãe um pouco mais velha e quis tanto aquela gravidez — recorda outra amiga de Silvana, Fabiane Cavalheiro, 36.

No mesmo espaço do minimercado, Silvana montou um "cantinho" para vender utensílios como jarras térmicas, aparelhos elétricos, maquiagens e perfumes. Ela era revendedora de duas empresas de cosméticos. Com a rotina totalmente dedicada ao filho, o itinerário casa-trabalho só era quebrado por algumas atividades junto à Paróquia de Fátima.
Antes de desaparecer, Silvana estava feliz, com autoestima e fazendo aulas de pilates. Segundo amigas, ela passou a se politizar e a se interessar por causas coletivas, sobretudo relacionadas a mulheres.



