
O relato de uma das primeiras vítimas a denunciar o cardiologista Daniel Pereira Kollet, 55 anos, é de choque e pânico diante das condutas de cunho sexual. O médico foi preso na segunda-feira (30), em Taquara, no Vale do Paranhana. São investigados os possíveis crimes de importunação sexual, violação sexual mediante fraude, estupro e estupro de vulnerável.
O total de denúncias contra Kollet chega a 32, conforme o delegado Valeriano Garcia Neto. Além disso, mais de 20 mulheres também procuraram a polícia e foram ouvidas, mas preferiram não representar contra o cardiologista neste momento. Portanto, mais de 50 possíveis vítimas foram identificadas, e o número ainda deve aumentar, segundo a Polícia Civil.
Kollet é médico há cerca de 30 anos e atua no município de Taquara há pelo menos 25 anos. Ele segue preso preventivamente.
Conforme os relatos das vítimas, o médico abraçava, acariciava e beijava as pacientes enquanto estavam com o peito despido durante exames, e posteriormente pedia sigilo. À polícia, ele alegou que fazia tais gestos para demonstração de carinho e orientação espiritual. Ele se disse médium no momento da prisão. A vítima ouvida por Zero Hora, na condição de anonimato, descreve situação semelhante.
— Saí de lá aterrorizada, em pânico, chorando — conta.
A vítima foi ao consultório do cardiologista para realizar um exame em março. Ela conta que, ao fim do procedimento, o médico se posicionou entre a maca e a poltrona onde estavam suas roupas, impedindo o acesso, e a abraçou quando tentou passar, sob a justificativa de que ela tinha uma "energia muito boa" e era uma pessoa “muito sensitiva”.
— Ele estava com o rosto grudado no meu pescoço e passando a mão nas minhas costas. E aí, na hora, eu parei e não tive reação. Fiquei em choque e não reagi. E aí, aos poucos, enquanto ele me abraçava e falava aquilo para mim, eu fiquei pensando, “meu Deus, eu estou sem roupa, e ele está me abraçando”. E aí eu comecei a ficar nervosa — relata.
Logo após soltá-la, a vítima cobriu os seios com as mãos e tentou pegar as roupas, mas o médico a abraçou novamente. No consultório, após o exame, profundamente abalada, ansiosa e questionando sua consciência, o profissional a abraçou uma terceira vez, indagando se ela sentiria falta do seu abraço até uma nova consulta e afirmando que o episódio deveria ser um "segredinho".
— Quando ele disse que ia ser o nosso segredinho, aí eu tive certeza de que era um assédio, de que ele tinha abusado, porque se não fosse, não ia pedir segredo. Eu me questionei várias vezes se isso realmente tinha acontecido. Quando ele disse que ia ser um segredo, eu pensei: isso realmente aconteceu — complementa.
A mulher foi incentivada por pessoas de seu convívio a denunciar o caso à polícia.
— Eu percebi, depois de toda a repercussão de ele ser preso, uma sensação de alívio, mas, ao mesmo tempo, eu tive uma sensação de medo. De será que todo mundo vai denunciar? Será que eu passei por tudo isso (exposição) em vão? Aí hoje eu vejo que não, não foi em vão, porque ele está preso, a justiça vai ser feita. Então, quem puder denunciar, denuncie — conta.
A Polícia Civil também incentiva outras vítimas a denunciarem.
— Que deem esse passo de coragem e procurem a Polícia Civil para fazer o seu relato, aquelas que ainda não fizeram, porque o silêncio da vítima só beneficia o agressor. Estamos prontos para recebê-las com uma equipe especializada, qualificada, que vai prestar um atendimento humanizado e respeitoso — afirma o delegado Valeriano Garcia Neto.
Contraponto
O que diz a defesa do médico
"Nosso escritório ainda não teve acesso ao inquérito que originou a prisão, contando, até o momento, apenas com informações preliminares. Em conversa com nosso cliente, este negou integralmente todas as acusações que lhe foram imputadas.
Trata-se de médico há quase 30 anos, com conduta ilibada, cuja atuação profissional sempre foi pautada pela ética, responsabilidade e compromisso com a saúde de seus pacientes.
Tão logo tenhamos acesso integral aos autos, nosso escritório emitirá nota oficial, que permitirá o completo esclarecimento dos fatos."
O que diz o Cremers
O Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul (Cremers) divulgou nota:
"O Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul (Cremers) tomou conhecimento dos fatos, e medidas administrativas já foram tomadas para investigação do caso. A situação é grave e deve ser apurada com rigor. Se comprovada a denúncia, todas as ações necessárias serão tomadas para punir os responsáveis."


