
Em pelo menos três situações após a morte da ex-mulher, o policial militar Cristiano Domingues Francisco, 39 anos, teria utilizado inteligência artificial (IA) para clonar a voz dela, a fim de enganar os ex-sogros. Silvana German Aguiar, 48, Dalmira Germann de Aguiar, 69, e Isail Aguiar, 70, moradores de Cachoeirinha, na região metropolitana de Porto Alegre, estão desaparecidos desde o fim de janeiro. Segundo a polícia, os três foram mortos por Cristiano.
— Cristiano utilizou um software de clonagem. Ele permite que, com uma amostra vocal de uma pessoa, possa fazer a clonagem dessa voz. A partir de textos pré-definidos, podem ser gerados novos diálogos — explicou o delegado Ernesto Prestes, titular da 2ª Delegacia de Polícia (2ª DP) de Cachoeirinha, durante coletiva à imprensa sobre o caso, na sexta-feira (17).
A informação foi verificada durante análise do notebook do suspeito, apreendido pela investigação. A polícia encontrou um arquivo salvo no notebook com o título "megera", termo pejorativo com o qual ele faria referência à Silvana. O material continha frases escritas para serem reproduzidas em áudio pelo software.
Cristiano foi indiciado por duplo homicídio, feminicídio e ocultação de cadáveres. Os corpos de Silvana, Dalmira e Isail ainda não foram localizados. O suspeito está preso desde o dia 10 de fevereiro.
Nas três vezes em que foi intimado para prestar depoimento à polícia, manteve-se em silêncio. Jeverson Barcellos, advogado do PM, informou que ainda não teve acesso à íntegra do inquérito e das medidas cautelares, por isso, vai aguardar para se manifestar.
Outras cinco pessoas também foram indiciadas por delitos como fraude processual e associação criminosa.
Três situações em que Cristiano teria se passado por Silvana
Falso acidente
Às 11h33min do dia 25 de janeiro, uma ligação do celular de Silvana foi feita para o telefone fixo do minimercado dos pais, na Vila Anair, em Cachoeirinha. O relato era de que ela tinha sofrido um acidente — que, segundo a polícia, nunca existiu. Segundo a polícia, Dalmira chegou a comentar com uma vizinha que recebeu a ligação. A mãe reconheceu a voz como sendo da filha. De acordo com a investigação, porém, Silvana já estava morta e quem falava no outro lado da linha era Cristiano. Ela teria sido assassinada entre 21h28min e 23h45min do dia 24 de janeiro.
As frases escritas no software para esta ligação foram:
- "Mãe eu me acidentei no carro de uma amiga"
- "Eu fui dar uma volta com ela e capotou o carro"
- "Estamos no hospital"
Falso problema elétrico
No dia seguinte, para atrair Isail até a casa da filha, Cristiano teria simulado um problema na rede elétrica da residência. Imagens mostram Cristiano e Isail juntos chegando à casa de Silvana. Antes de entrar, verificam a caixa de luz da residência.
Segundo o inquérito policial, Isail foi morto entre 16h28min e 16h48min de 25 de janeiro.
— Foram até a casa de Silvana, entraram, mas seu Isail nunca foi visto saindo — explicou o delegado Prestes.
Veja textos que teriam sido usados para esta ligação:
- "Oi pai"
- "É a Silvana cheguei bem em casa mas deu um probleminha aqui em casa"
- "Um fio de luz entrou em curto aqui na sala de casa e quase pegou fogo"
Falsa busca por ferramentas
Para convencer Dalmira, a alegação foi a necessidade de buscar ferramentas para o conserto do problema da rede elétrica. O objetivo, apontou a polícia, era fazer com que a idosa abrisse a porta, o que acabou acontecendo.
Veja trechos:
- "O mãe, olha só, o pai não conseguiu resolver aqui"
- "Daí o Cristiano vai arrumar, eu liguei pra ele, pois foi ele quem tinha feito essa elétrica"
- "Daí ele vai pegar uns fios de luz que tem sobrando na peça das ferramentas"
- "Pode alcançar pra ele que ele tá ajudando nós"
- "Pode ficar tranquila que ele tá indo aí"
— Ele entra e arrebata Dalmira — relatou o delegado Prestes, também durante a coletiva de sexta-feira.
A polícia não conseguiu estimar o horário da morte de Dalmira nem como o corpo dela foi retirado da residência. Os corpos de Silvana e de Idail teriam saído dentro do Fox vermelho que aparece em imagens de videomonitoramento. Este veículo não foi localizado pela investigação.
Movimentação também em rede social
A investigação também apontou que publicações nas redes sociais de Silvana foram feitas da casa de Cristiano. Seriam três posts no dia 25 de janeiro. Por volta da 7h, por meio georreferenciamento a perícia apontou que o celular dela estava na casa do policial.
O primeiro post informava sobre um acidente na Serra Gaúcha; o segundo dizia que ela estava sem telefone e bem; e o terceiro, já às 15h, agradecia mensagens (veja acima). Segundo a polícia, as publicações foram feitas por Cristiano, do celular da mulher.
GPS
Ligação para comunicação do falso acidente
Às 11h33min do dia 25 de janeiro, quando Dalmira atendeu o telefonema sobre o falso acidente, Cristiano estava em um supermercado, no limite dos municípios de Cachoeirinha e Gravataí. Câmeras mostram ele no local. O sinal de antenas telefônicas indica que os celulares de Cristiano e de Silvana estavam na região do supermercado.
Ligação para o telefone fixo do casal Aguiar
Às 14h30min do dia 25 de janeiro, uma chamada do telefone do Cristiano é feita para o telefone fixo do minimercado. Menos de duas horas depois, Isail chegou com o ex-genro à casa da filha.
Aparelho de desaparecida em Canoas
Nos dias 26 e 27 de janeiro, quando Cristiano trabalhava no patrulhamento em Canoas, sinais de antenas localizaram o aparelho de Silvana em frente à 3ª Companhia do 15º Batalhão da BM.


