
Uma operação da Polícia Civil gaúcha tem como alvo suspeitos de integrarem um esquema que envolvia uma série de golpes com anúncios falsos na internet. A investigação é do Departamento Estadual de Repressão aos Crimes Cibernéticos. Nesta terça-feira (14), dois mandados de prisão preventiva e 13 de busca e apreensão são cumpridos nos Estados de São Paulo, Santa Catarina, Paraná e Rio de Janeiro.
Segundo o delegado João Vitor Herédia, que coordena a Operação Spectrum Pag, vítimas inicialmente procuraram a polícia para registrar casos de anúncios falsos envolvendo alistamento militar emergencial e inscrição para concurso público do INSS. Esses anúncios foram feitos por meio de redes sociais. As vítimas acreditavam que estavam acessando páginas legítimas e faziam pagamentos via Pix para supostas taxas de inscrição, exames ou liberação de documentos.
Segundo a polícia, a partir das investigações, foi possível localizar elementos que indicam a existência de uma estrutura voltada à prática reiterada de fraudes eletrônicas.
— Tivemos esses primeiros registros aqui no Rio Grande do Sul, mas, durante a investigação, a gente percebeu que tinham diversos outros tipos de golpes ali, de outros vários sites. Com certeza, existem várias outras vítimas não só no Rio Grande do Sul, mas no país inteiro — explica o delegado.
Conforme os policiais, os golpistas cobravam valores entre R$ 50 e R$ 200, com foco em ter um alto número de vítimas. Os dois alvos, com mandados de prisão preventiva, segundo a investigação, são sócios de uma plataforma de pagamentos, que operavam diretamente os golpes.
— Eram responsáveis pelos sites falsos, por operacionalizar tudo isso, e acabavam distribuindo os lucros desses golpes, com aparência de legalidade, por serem sócios da empresa que intermediava os pagamentos — diz Herédia.
Além das prisões, a operação tem como intuito recolher dispositivos eletrônicos, documentos, mídias e demais elementos de prova para aprofundar a apuração, esclarecer a extensão dos fatos e individualizar com maior precisão a conduta de cada investigado.
"Não dá nada", diz golpista
Durante a investigação, a polícia obteve áudios de mensagens trocadas entre os investigados, que demonstram que os golpistas agiam de forma reiterada e que não acreditavam que pudessem ser responsabilizados. Num deles, o estelionatário tenta tranquilizar o comparsa:
— Eu já recebi processo, já recebi notificação judicial. BO (boletim da ocorrência) na polícia é o que mais fazem aqui. Todo dia tem um falando que está na polícia já. Os caras nem levam isso para a frente. Governo, Estado, polícia, ninguém dá moral para quem cai em golpe. Se caiu num golpe, é trouxa, mano, é bobo. Como é que acreditou nisso? Não dá nada, não, relaxa — diz o golpista.
— No Rio Grande do Sul, a gente tem um departamento especializado na investigação da prática de estelionatos virtuais, principalmente casos de alta lesividade, alta complexidade, com multiplicidade de vítimas, onde há indícios de atuação de associações e organizações criminosas, então aqui essa lógica deles não se aplica — afirma o delegado.
Em outra conversa interceptada, o estelionatário relata que não se sente culpado.
— Eu não sinto remorso nenhum. Eu não sinto nada, pra mim, é de boa —afirma.
— Isso escancara uma realidade que a gente observa nos estelionatários, que são pessoas completamente sem escrúpulos, que só visam o prejuízo alheio em benefício próprio. Não estão nem aí se as vítimas são idosas, se passam necessidade, se tira uma parte do dinheiro ali que a pessoa usaria para fazer uma compra para casa, para comprar um remédio, não estão nem aí, só querem ostentar nas redes sociais, tirar foto com um carro de luxo — ressalta o delegado Heredia.
A estrutura do golpe
- Captação das vítimas: anúncios patrocinados em redes sociais direcionavam os usuários a páginas falsas que simulavam oportunidades reais, como alistamento militar emergencial ou inscrições em concurso público
- Simulação de legitimidade: os sites reproduziam linguagem visual e identidade gráfica compatíveis com páginas oficiais ou aparentemente confiáveis
- Cobrança de valores: após o preenchimento de dados, era gerado um QR Code ou chave PIX para pagamento de supostas taxas administrativas, exames ou emissão de certificado
- Recebimento dos valores: os pagamentos eram direcionados a pessoas jurídicas utilizadas como receptoras dos valores, o que permitiu a conexão entre diferentes fatos com o mesmo padrão de execução


