O policial militar Cristiano Domingues Francisco, 39 anos, foi indiciado pela Polícia Civil nesta sexta-feira (17) por feminicídio, duplo homicídio e ocultação de cadáver, no caso envolvendo a família Aguiar. Ele responde pelas mortes da ex-mulher, Silvana Aguiar, 48, e dos ex-sogros, Dalmira German Aguiar, 70, e Isail Aguiar, 69.
– Ele matou o casal para encobrir os rastros do crime da Silvana – afirma o delegado Anderson Spier, diretor da 1ª Delegacia de Polícia Regional Metropolitana (1ª DPRM).
As informações foram divulgadas pela Polícia Civil na tarde desta sexta-feira (17), durante coletiva de imprensa. Os investigadores mostraram a cronologia dos fatos, fotos e vídeos, além de provas periciais que subsidiam o indiciamento do policial. O caso será remetido ao Ministério Público do Rio Grande do Sul (MP/RS) que pode aceitar ou não a denúncia.
Junto do delegado Anderson Spier, estavam o delegado titular da 2° Delegacia de Polícia (2ªDP) de Cachoeirinha, Ernesto Prestes, o delegado Diego Traesel, diretor Dipac-DPM e o delegado Cristiano Fiolic Alvarez, diretor Polícia Metropolitana.
Suposta asfixia e casa de Silvana usada para duas mortes
A investigação apontou que pai e filha foram mortos na mesma residência: a casa de Silvana. O Fox vermelho, que nunca foi encontrado foi usado para transportar e tirá-los da cena do crime. Silvana foi morta entre 21h28min e 21h45min do dia 24. Isail, assassinado na mesma casa, entre as 16h28min e 16h48min do dia 25.
Já Dalmira, a mãe, foi morta no imóvel anexo ao minimercado. A polícia não conseguiu precisar como Cristiano a retirou do local do crime. Ele tinha as chaves do imóvel.
Os corpos das vítimas ainda não foram localizados. Por isso, a polícia não consegue afirmar exatamente como eles foram mortos.
A principal suspeita é de que tenha sido por asfixia por esganadura. Pelo apontamento da perícia na casa de Silvana, ficou comprovado que não houve luta corporal. As amostras de sangue encontradas no imóvel da desaparecida foram em pequena quantidade. Com o uso de luminol, foram encontradas apenas gotículas.
Uso de sistema para imitar a voz da vítima
Cristiano fez uso de um software, que imitou a voz de Silvana para comunicar aos pais dela sobre o acidente que nunca existiu.
Já para atrair Adail até a casa da filha, o ex-genro simulou um possível problema na rede elétrica da casa. Imagens mostram que, às 16h28 do dia 25 de janeiro, Cristiano e Isail chegam e vão até caixa de luz da residência.
— Foram até a casa de Silvana, entraram, mas seu Isail nunca mais foi visto saindo — explica o delegado Ernesto Prestes, titular da 2ª Delegacia de Polícia (2ª DP) de Cachoeirinha, que investigou o caso.
Para convencer Dalmira, ele também usou o pretexto da falta de luz, alegando que precisava de ferramentas e para que a idosa abrisse a porta.
– Ele entra e arrebata Dalmira – acrescenta delegado Prestes.
Amigo e familiares coniventes e indiciados
Outras cinco pessoas também responderão criminalmente: um amigo, a esposa, a mãe e a sogra de Cristiano. Conforme a polícia, todos trocaram mensagem e sabiam do crime desde o começo das investigações. Já Cristiano premeditou as mortes.
– Existem evidências periciais de que ele começou a elucubrar a prática do crime 30 dias antes – detalha o delegado Anderson Spier.
- Milena Ruppenthal Domingues, mulher de Cristiano: fraude processual, furto (teria levado TVs da casa de Silvana), ocultação de cadáver e organização criminosa
- Wagner Domingues Francisco, irmão de Cristiano: fraude processual e ocultação de cadáver
- Paulo da Silva, amigo: fraude processual e associação criminosa
- Maria Rosane Domingues Francisco, Mãe de Cristiano: fraude processual e associação criminosa
- Ivone Fantini Ruppenthal, Sogra de Cristiano: fraude processual e associação criminosa
Em nota, a defesa de Wagner Domingues Francisco, irmão de Cristiano, afirmou que o indiciamento está baseado em "meras hipóteses investigativas, ainda não submetidas ao contraditório" e que o cliente "sempre esteve, e assim permanecerá, à inteira disposição das autoridades" (Leia a nota completa).
A reportagem tenta contraponto com a advogada Suelen Lautenschleger, que responde pela defesa dos outros indiciados. Até o momento, não houve retorno. O espaço está aberto para manifestação.

Cristiano está preso desde 10 de fevereiro. Nas três vezes que foi intimado para prestar depoimento à polícia, manteve-se em silêncio.
Rastros que comprovam autoria dos crimes
Laudos periciais e checagens com antenas de telefonia e georreferenciamento provaram que Cristiano esteve com o celular da ex-companheira depois de 24 de janeiro, quando ela foi vista pela última vez.
Ficou comprovado para a polícia que o telefone dela estava com o policial nos dias 26 e 27 de janeiro, inclusive enquanto ele estava de serviço. O sinal do aparelho marcou a localização em frente a 3ª Companhia do 15° Batalhão da BM, em Canoas. A polícia também confirmou que o falso post em uma rede social de Silvana, onde ela relatava ter sofrido um acidente, foi feito pelo próprio suspeito.
Os outros indiciados
- A atual esposa de Cristiano Domingues, Milena Ruppenthal Domingues, também está indiciada por fraude processual, furto, ocultação de cadáver e falso testemunho. O irmão dele, Wagner Domingues Francisco, foi indiciado por fraude e ocultação dos cadáveres. A mãe do suspeito, Maria Rosane Domingues Francisco, foi indiciada por manipulação dos dados, fraude processual e associação criminosa. A sogra responde por fraude processual e associação criminosa. E um amigo próximo de Cristiano e Milena, Paulo da Silva, também foi indiciado por falso testemunho, por mentir em depoimento para dar falsos álibis, fraude processual e associação criminosa.
Milena é formada em Gestão da Tecnologia de Informação (TI) e casada com Cristiano desde 2022. Ela teria apagado dados em dispositivos eletrônicos e na nuvem (espaço de armazenamento online).
Wagner é empresário. Ele teria deletado imagens de câmeras das casas onde moram Cristiano e a mãe dele.
Sangue encontrado na casa
As amostras de sangue encontradas na casa de Silvana eram dela e do pai. O material genético foi coletado na residência durante a investigação.
No dia 20 de fevereiro, a polícia divulgou que o sangue encontrado na pia do banheiro pertencia a uma pessoa do sexo feminino, enquanto o material localizado na área de serviço pertencia a uma pessoa do sexo masculino. A reportagem de Zero Hora apurou que testes relacionaram as amostras a Silvana e Isail, respectivamente.
CONTRAPONTO
Nota da Defesa de Wagner Domingues Francisco:
A Defesa técnica de WAGNER DOMINGUES FRANCISCO, com o senso de responsabilidade que o momento exige, vem a público manifestar-se acerca do Inquérito Policial que apura as circunstâncias envolvendo o desaparecimento da família Aguiar, no município de Cachoeirinha/RS.
A Defesa tomou conhecimento, exclusivamente por intermédio da mídia e de coletiva de imprensa, da existência de 37 medidas cautelares, além de buscas, apreensões e indiciamentos, sem que lhe tenha sido assegurado, até o presente momento, acesso aos respectivos expedientes, circunstância que impede o pleno conhecimento das teses investigativas.
Importa destacar que as imputações até então divulgadas consistem, neste estágio, em meras hipóteses investigativas, ainda não submetidas ao contraditório, sendo o inquérito policial, por sua natureza, procedimento de caráter unilateral.
Reitera-se, por fim, que WAGNER DOMINGUES FRANCISCO sempre esteve, e assim permanecerá, à inteira disposição das autoridades. A Defesa aguarda o acesso integral aos elementos de prova para manifestação oportuna e aprofundada, confiante de que o devido processo legal conduzirá ao pleno esclarecimento dos fatos, com a consequente demonstração de sua inocência e a prevalência da Justiça.
Ricardo Breier, Amanda B.T. Breier e Alessandra C. D. Grützmacher.



