Os relatos de duas vítimas do cardiologista Daniel Pereira Kollet, 55 anos, preso preventivamente desde 30 de março e indiciado por violência sexual mediante fraude, definem os atos e a postura do médico como monstruosa.
Uma das mulheres revela que o Kollet era médico de sua família e chegou a tratar de seus avós, mãe, irmão e tios. Ela procurou o consultório do cardiologista ao descobrir um problema de saúde.
— Ele chegou bem alegre, apagou a luz e perguntou como eu estava, disse que ia cuidar de mim, ia ser meu médico. Ele começou a passar o aparelho em volta dos meus seios (eu estava sem a parte de cima da roupa), foi descendo, passando na minha barriga, nas minhas costas e mandou eu sentar na maca. Nesse momento, falei que eu não queria, fiquei em choque — contou a vítima em entrevista ao programa Timeline, da Rádio Gaúcha, nesta terça-feira (14).

A paciente precisou voltar para uma nova consulta, em razão do agravamento de sua condição. Ela conta que o abuso ocorreu novamente. Neste caso, ela relembra que foi atendida diretamente na sala de Kollet.
— Cada vez que eu entrava, que ia fazer consulta, ele chaveava a porta e fechava a cortina. Quando eu chegava, estava aberta (a porta) — conta.
No relato, afirma que foi vítima de estupro em sua última consulta e demorou a entender o que havia ocorrido.
— Eu não sentia nem meu caminhar, não lembro quando cheguei em casa. Ele é um monstro — desabafa.
Funcionária diz que também foi vítima
A segunda mulher ouvida pela Rádio Gaúcha tinha apenas 18 anos na época. Ela conta que trabalhava no consultório do cardiologista.
— Ele começou fazendo algumas piadinhas, me oferecendo dinheiro para comprar uma lingerie.
A ex-funcionária conta que o caso de violência sexual ocorreu em uma ocasião em que estava sozinha com o médico dentro da sala dele. Ela diz ter sido "prensada contra a parede" e segurada pelos punhos.
A vítima conta que ficou em pânico. Após o ato, diz que o cardiologista começou a falar que ninguém iria acreditar se ela denunciasse, porque ele "era um homem conceituado na cidade".
— Quando eu saí de lá (do escritório), eu fiquei alguns meses sem sair de casa, porque isso me afetou. Meu maior medo era sair na rua e cruzar com ele, era o meu maior pânico. (...) Ele é um monstro, um monstro — aponta.
Os casos teriam ocorrido no consultório de Kollet, em Taquara, no Vale do Paranhana. A investigação da Polícia Civil identificou ao menos 42 mulheres vítimas de violência sexual.
Contraponto
O que diz a defesa do médico
O escritório CAMPANA ADVOGADOS informa que está atuando no caso, adotando todas as medidas cabíveis.
A defesa registra que, na tarde de hoje, passou a ter acesso integral ao conjunto dos inquéritos policiais relacionados às supostas vítimas, o que permitirá a análise mais ampla dos elementos investigativos.
Em avaliação inicial, verificamos que a grande maioria dos fatos mencionados refere-se a relatos antigos, remontando a anos atrás, bem como que há menções envolvendo pessoas que, em princípio, sequer eram pacientes do profissional investigado, circunstâncias que serão devidamente apuradas no decorrer do processo.
A defesa esclarece que não irá se manifestar, neste momento, sobre situações específicas ou casos individualizados, em razão do sigilo que envolve os procedimentos, bem como para preservar a adequada condução da apuração e o próprio exercício do direito de defesa.
Ressaltamos que a ampla divulgação do caso tem gerado significativa repercussão, motivo pelo qual a defesa atuará com cautela e responsabilidade na análise individual de cada situação.
Registramos, ainda, que já foi protocolado pedido de liberdade, o qual aguarda análise pela autoridade judicial competente.
Por fim, a defesa afirma que seu cliente mantém a negativa quanto às imputações que lhe são atribuídas, aguardando o regular andamento do processo para o devido esclarecimento.
O que diz o Cremers
"O Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul (Cremers) tomou conhecimento dos fatos, e medidas administrativas já foram tomadas para investigação do caso. A situação é grave e deve ser apurada com rigor. Se comprovada a denúncia, todas as ações necessárias serão tomadas para punir os responsáveis."

