
A ausência se repete no dia a dia. A saudade de Raíssa Müller, 21 anos, é sentida diariamente por familiares, mesmo um ano após a morte da estudante de fisioterapia.
Exatamente um mês depois de completar 21 anos, a jovem que sonhava viajar pelo mundo teve a casa invadida e foi assassinada a facadas ao lado do namorado, Eric Richard de Oliveira Turato, 24.
O crime aconteceu em 18 de abril de 2025, em Feliz, no Vale do Caí. O suspeito é Vinícius Britz, 25 anos, ex-companheiro da estudante. Ele teria sido motivado por ciúmes depois de ver, em uma rede social, uma foto de um jantar do casal com amigos. A defesa dele afirmou ter identificado "inconsistências" na reconstrução dos fatos, mas diz que se reserva a apresentar os elementos em plenário (leia abaixo).
Depois do crime, cometido dentro da casa da família de Raíssa, momentos que antes eram marcados por celebração, carregam silêncio e tristeza.
— A gente tenta seguir a vida, mas ainda sente muito. Tem dias muito difíceis. Datas como Natal, Ano Novo e Páscoa pesam muito. É o sentimento de que sempre falta alguém. Ela é lembrada o tempo todo pela família. A gente sorri, conversa, mas está pensando nela o tempo todo — conta Maísa Müller, 32 anos, irmã da vítima.
A forma com que a morte ocorreu torna o processo de luto ainda mais difícil — supostamente causada por alguém em quem a família já havia confiado.
Não tem como esquecer, porque foi muito brutal. Se ela tivesse falecido por uma doença ou até um acidente, talvez a gente entendesse, mas da forma que o que aconteceu, isso dói demais. Dói pensar no que ela passou até o momento que ela parou de respirar
IRACI MÜLLER
tia de Raíssa
Para manter a memória de Raíssa viva, familiares e amigos organizam uma caminhada e uma missa na próxima terça-feira (21). A mobilização busca chamar atenção para casos de violência contra a mulher e deve contar com camisetas, cartazes e balões na cor lilás — símbolo da causa. A família de Eric Turato também deve participar.
Espera por julgamento
No campo judicial, o caso já avançou. O suspeito, que também ficou ferido durante o ataque, chegou a ser hospitalizado e acabou preso.
Em maio do ano passado, foi denunciado pelo Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS) pela prática dos crimes de homicídio qualificado e feminicídio.
A denúncia foi aceita e o réu foi pronunciado — decisão que determina o envio do caso a julgamento pelo Tribunal do Júri.
A expectativa da família é de que o julgamento ocorra ainda em 2026. Mesmo assim, o sentimento em relação ao desfecho é ambíguo.
— Eu queria que o julgamento acontecesse para que a gente pudesse, de fato, seguir. Mas, ao mesmo tempo, é um dia que eu nunca queria viver. Eu acho que não existe vitorioso em um processo como esse. Por mais que ele seja condenado, a gente não vai se sentir vitorioso. A gente quer justiça, claro, mas nada vai trazer ela de volta — afirmou a irmã da vítima.
Violência contra a mulher
Outros casos seguem sem desfecho
O caso de Raíssa não é isolado. Em abril de 2025, as ocorrências de feminicídio saltaram 1.000% no Rio Grande do Sul em relação ao ano anterior.
Onze mulheres tiveram seus sonhos interrompidos naquele mês. Dez delas foram assassinadas em um período de cinco dias, em meio ao feriadão de abril.
Na maioria das ocorrências — 10 dos 11 casos contabilizados pela Secretaria Estadual da Segurança Pública (SSP) —, os suspeitos dos crimes são companheiros ou ex-companheiro das vítimas. Em um episódio, o agressor era padrasto da vítima.
Veja como está o andamento dos outros casos de abril de 2025 na Justiça:
- Franciele Greff Mentz, 33 anos: morta a facadas dentro de casa em 12 de abril de 2025, em Novo Hamburgo, no Vale do Sinos. O companheiro, Airton da Silva Fonseca, confessou o crime. Ele foi pronunciado, e o caso aguarda a definição da data do júri.
- Juliana Jansen Ribeiro, 34 anos: encontrada morta em uma área isolada próxima à BR-116, em 17 de abril de 2025, em Camaquã. O suspeito é o companheiro, Adegildo Boeira Duarte, que está preso. O processo teve início em junho de 2025, com denúncia do Ministério Público, e está na fase de pronúncia, quando a Justiça decide se o caso irá a júri.
- Caroline Machado Dorneles, 25 anos: grávida de três meses, foi morta com 19 facadas na madrugada de 18 de abril, em Parobé, no Vale do Paranhana. O suspeito é o ex-companheiro, Carlos Daniel de Oliveira, também pai do bebê. Ele se entregou à polícia no dia seguinte. O caso aguarda a análise de recursos da defesa para a definição se irá ao Tribunal do Júri.
- Simone Andrea Meinhardt, 49 anos: morta dentro de casa, com uso de arma branca, em dia 18 de abril de 2025, em Santa Cruz do Sul, no Vale do Rio Pardo. O companheiro foi preso em flagrante. O réu foi pronunciado, e o processo está em fase recursal.
- Juliana Proença, 47 anos: assassinada a facadas na frente da filha de seis anos, em 18 de abril de 2025, em São Gabriel, na Fronteira Oeste. O ex-companheiro, Gilberto Artifon, foi preso em flagrante. O processo está concluso para decisão sobre a pronúncia.
- Patrícia Viviane de Azevedo, 50 anos: técnica de enfermagem, foi morta a tiros dentro de casa em 18 de abril de 2025, em Viamão, na Região Metropolitana. O ex-companheiro, Augusto Santos Silva, foi pronunciado para júri, mas a defesa recorreu. O caso será analisado pelo Tribunal de Justiça após manifestação do Ministério Público.
- Jane Cristina Montiel Gobatto, 54 anos: morta a facadas na tarde de 18 de abril de 2025, em Bento Gonçalves, na Serra. O crime ocorreu na residência que ela vivia com o companheiro, Milton Gobatto, que é suspeito pelo crime. O processo está suspenso devido a um incidente de insanidade mental, com perícia prevista para junho de 2026.
- Laís Malaguez Meyer, 32 anos: assassinada a tiros em frente ao trabalho em 21 de abril de 2025, em Pelotas, no sul do Estado. O ex-companheiro, Tiago Vieira Medeiros, teria conversado com ela durante oito minutos e, antes de ir embora, teria atirado contra a vítima, que morreu no local. O processo aguarda a análise de recursos da defesa sobre o envio do caso a júri.
- Leobaldina Rocha Lyrio, 41 anos, e Diênifer Rauani, 14: vítimas de duplo feminicídio em 21 de abril de 2025, em Ronda Alta, no norte do RS. O suspeito, Juliano Henn, 48 anos, companheiro e padrasto, cometeu suicídio após o crime. Como o agressor cometeu suicídio, não há processo judicial em andamento.
Contrapontos
A reportagem procura a defesa dos suspeitos. O espaço está aberto para manifestações.
Caso Raíssa Müller
O advogado Abel Bueno, que representa Vinícius Britz, suspeito pelo feminicídio de Raissa Muller e o homicídio de Eric Turato, afirmou em nota que foram identificadas "inconsistências e lacunas" no caso, "especialmente no que diz respeito à efetiva reconstrução da dinâmica dos fatos". Veja a nota na íntegra:
"A defesa esclarece que o processo teve início sob a condução da Defensoria Pública, tendo o atual patrono assumido a representação do acusado já em fase avançada da ação penal.
Após assumir o caso, a defesa técnica passou a realizar uma análise aprofundada dos autos, identificando inconsistências e lacunas relevantes, especialmente no que diz respeito à efetiva reconstrução da dinâmica dos fatos, que até o momento não se mostra devidamente esclarecida.
Diante disso, foram requeridas diligências consideradas imprescindíveis para o completo esclarecimento do ocorrido, medidas estas que não haviam sido anteriormente postuladas, mas que se revelam fundamentais para a busca da verdade dos fatos.
A defesa ressalta que o julgamento pelo Tribunal do Júri exige rigor na análise das provas e responsabilidade na formação de convencimento, razão pela qual não irá antecipar teses neste momento, reservando-se a apresentar de forma técnica e fundamentada todos os elementos em plenário."
Caso Laís Malaguez Meyer
A defesa de Tiago Vieira Medeiros, suspeito pelo feminicídio de Laís Malaguez Meyer, 32 anos, afirmou que vai se manifestar nos autos do processo. Veja a nota na íntegra:
"A defesa do acusado, com o devido respeito à dor dos familiares da vítima e à relevância do debate proposto pela reportagem, reserva-se o direito de manifestar-se exclusivamente nos autos, por se tratar de processo ainda em curso, com diligências em andamento e sem julgamento definitivo.
É fundamental lembrar que o Estado Democrático de Direito assegura a toda e qualquer pessoa — independentemente da gravidade da imputação — o direito à presunção de inocência, ao contraditório e à plenitude de defesa, garantias constitucionais que não podem ser relativizadas mesmo diante de tragédias irreparáveis. A formação de narrativas unilaterais, antes do pronunciamento da Justiça, compromete não apenas o equilíbrio processual, mas também fomenta um clima social de pré-julgamento e linchamento simbólico, tão incompatível com os valores fundamentais que nos sustentam como sociedade.
A defesa também entende a importância de promover a conscientização e o enfrentamento à violência contra a mulher. No entanto, alerta para o risco de que casos específicos — ainda sub judice — sejam instrumentalizados como elementos de mobilização social, sem que se tenha assegurado, de forma plena, a responsabilização com base em provas produzidas sob o crivo do Judiciário.
Reafirmamos, por fim, o compromisso ético com a legalidade, a justiça e a dignidade da pessoa humana, destacando a necessidade de que todos os envolvidos em situações de tamanha complexidade e dor sejam tratados com responsabilidade, equilíbrio e humanidade.
Pelotas, 19 de abril de 2026.
Aline Lourenço de Ornel
Advogada – OAB/RS 79.927
Francisca Cavalheiro Legório
Advogada – OAB/RS 127.741"
Caso Franciele Greff Mentz
O advogado Omar Dupont, que representa Airton da Silva Fonseca, suspeito pela morte de Franciele Greff Mentz, afirmou que não comentará o caso. Leia a manifestação íntegra:
"Na medida em que grato pela atenção e oportunidade, esclareço que por razões de ordem ético profissional, não tecerei comentários".
Caso Juliana Proença
A Defensoria Pública do Estado (DPE), que representa Gilberto Artifon, suspeito pela morte de Juliana Proença, afirmou que irá se manifestar somente nos autos do processo.
Como pedir ajuda
Brigada Militar – 190
- Se a violência estiver acontecendo, a vítima ou qualquer outra pessoa deve ligar imediatamente para o 190. O atendimento é 24 horas em todo o Estado.
Polícia Civil
- Se a violência já aconteceu, a vítima deverá ir, preferencialmente à Delegacia da Mulher, onde houver, ou a qualquer Delegacia de Polícia para fazer o boletim de ocorrência e solicitar as medidas protetivas.
- Em Porto Alegre, a Delegacia da Mulher na Rua Professor Freitas e Castro, junto ao Palácio da Polícia, no bairro Azenha. Os telefones são (51) 3288-2173 ou 3288-2327 ou 3288-2172 ou 197 (emergências).
- As ocorrências também podem ser registradas em outras delegacias. Há DPs especializadas no Estado. Confira a lista neste link.
Delegacia Online
- É possível registrar o fato pela Delegacia Online, sem ter que ir até a delegacia, o que também facilita a solicitação de medidas protetivas de urgência.
Central de Atendimento à Mulher 24 Horas – Disque 180
- Recebe denúncias ou relatos de violência contra a mulher, reclamações sobre os serviços de rede, orienta sobre direitos e acerca dos locais onde a vítima pode receber atendimento. A denúncia será investigada e a vítima receberá atendimento necessário, inclusive medidas protetivas, se for o caso. A denúncia pode ser anônima. A Central funciona diariamente, 24 horas, e pode ser acionada de qualquer lugar do Brasil.
Defensoria Pública – Disque 0800-644-5556
- Para orientação quanto aos seus direitos e deveres, a vítima poderá procurar a Defensoria Pública, na sua cidade ou, se for o caso, consultar advogado(a).
Centros de Referência de Atendimento à Mulher
- Espaços de acolhimento/atendimento psicológico e social, orientação e encaminhamento jurídico à mulher em situação de violência.
Ministério Público do Rio Grande do Sul
- O Ministério Público do Rio Grande do Sul atende o cidadão em qualquer uma de suas Promotorias de Justiça pelo Interior, com telefones que podem ser encontrados no site da instituição.
- Neste espaço é possível acessar o atendimento virtual, fazer denúncias e outros tantos procedimentos de atendimento à vítima. Para mais informações clique neste link









