Nas três vezes que foi intimado para prestar depoimento à polícia, Cristiano Domingues Francisco, 39 anos, se manteve em silêncio. A aparente tranquilidade em cada oitiva e mesmo diante dos holofotes apontados condiz com o perfil reservado, como descrevem pessoas que conviveram com ele.
Nascido em setembro de 1986, formado em Direito e brigadiano com honrarias no currículo policial, ele é o principal suspeito pelo desaparecimento de três pessoas da família Aguiar, vista pela última vez em janeiro deste ano, em Cachoeirinha.
Cristiano está preso desde 10 de fevereiro. A investigação afirma ter materialidade para indiciá-lo por duplo homicídio (contra os ex-sogros, Isail e Dalmira) e feminicídio (cometido a ex-mulher, Silvana).
Um antigo professor universitário, que quis ter o nome preservado, relatou lembrar de Cristiano como um estudante educado e discreto. Foi por isso que tomou com estranhamento o fato de o ex-aluno ser o principal suspeito de um crime que, segundo a polícia, contou com premeditação e extrema frieza.
— Era um sujeito que dava para abonar a conduta. Me causou surpresa esse caso. Lembro dele, inclusive nos intervalos das aulas, sempre sozinho, quieto, na dele — disse o professor.

Trajetória na polícia
A carreira policial precede o ingresso no curso de Direito. Soldado da Brigada Militar (BM) desde 2009, Cristiano atuava, por último, no patrulhamento ostensivo em Canoas. O serviço se dava principalmente no bairro Guajuviras. Em 2019, recebeu uma medalha de Serviço Policial, na categoria bronze. Em dezembro de 2024, recebeu a Estrela de Reconhecimento da BM. A condecoração demonstra bons serviços prestados à corporação.
O conhecimento do suspeito, com 17 anos de experiência na área da segurança pública, foi apontado pela Polícia Civil como um dos aspectos mais complexos para a apuração do crime de desaparecimento.
— Estamos diante de alguém que conhece o trabalho policial e fez tudo pensando em dificultar a investigação, esconder provas — disse o delegado Anderson Spier, quando o caso completou um mês.
Dias depois, laudos periciais e checagens com antenas de telefonia e georreferenciamento provaram que Cristiano esteve com celular da ex-companheira depois dela ser vista pela última vez, em 24 de janeiro. Ficou comprovado para a polícia que o telefone dela estava com o policial nos dias 26 e 27 de janeiro, inclusive enquanto ele estava de serviço. O sinal do aparelho marcou a localização em frente a 3° Companhia do 15° Batalhão da BM, em Canoas. A polícia também confirmou que o falso post em uma rede social de Silvana, onde ela relatava ter sofrido um acidente foi feito pelo próprio suspeito.
A defesa de Cristiano mantém a posição de que ele é inocente e que os fatos ainda são inconclusivos.
A Corregedoria da BM acompanha o caso e afirmou a Zero Hora que a investigação é de responsabilidade da Polícia Civil. O órgão não informou se há ou não ocorrências e denúncias contra a atividade profissional de Cristiano. Preso no Batalhão de Operações Especiais (BOE), em Porto Alegre, Cristiano está afastado das atividades militares.
Já o Tribunal de Justiça (TJ) do Rio Grande do Sul confirmou o ingresso de um processo por suposta agressão durante uma abordagem policial. O fato teria acontecido em um abrigo de Canoas, durante a enchente de 2024. A ação foi arquivada depois que o Juizado Especial Criminal registrou a ausência injustificada da vítima a uma audiência em maio de 2025. Conforme o Judiciário, a situação "implicou no reconhecimento da renúncia tácita ao direito de representação, e a consequente extinção da punibilidade do acusado". Jeverson Barcellos, atual advogado do suspeito, disse não ter conhecimento sobre o episódio.
Casamentos
Além de Canoas, Cristiano trabalhou em outras cidades como Viamão e Alvorada. Foi nessa última que conheceu a atual esposa. À época, ela era estagiária de tecnologia da informação no batalhão da BM. Começaram a namorar e se casaram em 2022. Cristiano foi ao altar com farda de gala. A cerimônia temática incluiu ensaio fotográfico dentro da viatura policial.

Esse foi o segundo casamento do policial. O primeiro foi com Silvana, com quem tem um filho de nove anos. O ex-casal namorou por dois anos e ficou casado por oito. Moravam em bairros vizinhos. Ele, na Vila Fátima, e ela, na Vila Anair. Foi assim que se conheceram.
Cristiano e Silvana se casaram no civil e optaram por uma pequena comemoração somente com a família e pouquíssimos amigos. Logo após oficializarem o matrimônio, abriram um armazém na esquina das ruas Guaíba e Amazonas, no bairro Vila Fátima. O local se manteve em funcionamento por cerca de um ano. A primeira casa em que moraram foi no mesmo bairro. Depois de um tempo, Silvana e Cristiano se mudaram para uma residência na Rua Fidel Zanchetta, no bairro Parque Granja Esperança.
O casamento durou oito anos. O filho tinha dois anos quando se separaram. Conforme a polícia, não havia processo judicial ou registro policial de Silvana contra Cristiano. No entanto, duas semanas antes de sumir, em 9 de janeiro, ela compareceu ao Conselho Tutelar para registrar que o ex-marido desrespeitava as restrições alimentares do filho. Testemunhas ouvidas pela polícia informaram que o casal teve atritos ao longo dos anos.
Desaparecimentos causam espanto na vizinhança
No bairro Vila Fátima, em Cachoeirinha, a incredulidade também é comum entre os que viram Cristiano e o irmão mais novo crescerem na região. O silêncio impera por ali. As pessoas têm receio de ter o nome atrelado ao caso brutal, que tem sido o principal assunto da cidade há quase três meses.
Outro fato é o respeito à família do investigado, descrita repleta de boas referências: "Pessoas sérias e trabalhadoras", "bons vizinhos". A mãe, dona de casa e muito atenciosa aos filhos; o pai, já falecido, um homem cordial. Por anos, trabalhou como motorista.
— Não dá para acreditar e prefiro não me meter. Vi esses meninos, ele e o irmão, crescerem correndo aqui pela rua. Cristiano era um guri educado com a gente. Passava, cumprimentava, brincava por aqui desde esse tamanhinho — diz um vizinho.
Outro morador da mesma rua completou, também em tom de pesar:
— A gente realmente não sabe o que se passa dentro da cabeça das pessoas, não sabe no que elas são capazes de se transformar e fazer.
Além do trabalho como policial militar, Cristiano fazia um serviço intermediando aluguéis de serviços de caminhões.
A rota de Cristiano no dia que Silvana sumiu

À polícia, Cristiano disse, à época em que foi ouvido na condição de testemunha, que ele e a companheira estiveram juntos de um amigo e de outro homem na noite de 24 de janeiro. O grupo se reuniu para jantar em um espaço gastronômico em Cachoeirinha. Cristiano chegou perto da meia-noite e permaneceu cerca de uma hora. Imagens do estabelecimento comprovaram o relato. Pouco antes, passou em um churrasco onde encontrou amigos. Durante o dia, ele disse ter ido até um terreno verificar uma obra da família. A última declaração não pode ser comprovada pela polícia até o momento.
A investigação aponta que há inconsistência nos relatos e não há sustentação para os álibis apresentados. Os detalhes, porém, não foram informados.
Cristiano foi chamado a depor quatro vezes. Na primeira, como testemunha. Nas outras três, nos dias 10 e 20 de fevereiro e no dia 6 de abril, quando foi ouvido como suspeito, permaneceu em silêncio.
Outras três pessoas estão sendo investigadas por supostamente tentarem atrapalhar as investigações: duas por fraude processual e uma por falso testemunho. Conforme a polícia, eles não são suspeitos de envolvimento nos desaparecimentos.


