A coletiva de imprensa da Polícia Civil, na última sexta-feira (17), em que foram apresentadas conclusões do inquérito sobre o desaparecimento da família Aguiar, em Cachoeirinha, causou sentimentos de tristeza e revolta em parentes das vítimas por causa das motivações para os crimes, da premeditação e da crueldade do suspeito.
— Cristiano esperou o fim de semana quando o filho estava junto dele e, portanto, longe da Silvana, a deixando exposta e vulnerável para matar. Fez tudo planejado. Os parentes ainda estão profundamente abalados e nem conseguem falar — relatou o advogado da família Aguiar, Gilmar Souza Vargas.
A Polícia Civil indiciou o policial militar Cristiano Domingues Francisco, 39 anos, por duplo homicídio, feminicídio e ocultação de cadáveres. Ele é ex-companheiro de Silvana Aguiar, 48, e ex-genro de Dalmira German Aguiar, 70, e Isail Aguiar, 69. Os três estão desaparecidos desde o fim de janeiro. Segundo a polícia, foram mortos, mas os corpos ainda não foram localizados. Cristiano e Silvana têm um filho de nove anos.
A investigação ainda indiciou a esposa, o irmão, um amigo, a mãe e a sogra do ex-policial por delitos como fraude processual e associação criminosa. O Ministério Público do Rio Grande do Sul (MP) vai avaliar o inquérito e pode denunciar os investigados à Justiça ou pedir que a polícia aprofunde a investigação.
A Brigada Militar (BM) informou que vai instaurar um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) para apurar a conduta do policial.
Motivação para os crimes

Na sexta-feira, o Diretor da 1ª Delegacia de Polícia Regional Metropolitana (1ª DPRM), delegado Anderson Spier, foi convicto ao responder sobre o que a investigação apontou como o motivo dos crimes (veja no vídeo acima):
— A motivação é bem clara. A motivação parte de uma tensão existente entre a Silvana e o Cristiano em razão da educação do filho. Isso fica bem comprovado durante toda a nossa investigação.
Os assassinatos de Idail e Dalmira, segundo o delegado, teriam sido cometidos para encobrir o primeiro assassinato e porque o policial teria sido pressionado pelos ex-sogros, que questionavam o paradeiro da filha.
— Eles (Isail e Dalmira) suspeitavam que o Cristiano tinha um dedo nessa história — disse Spier.
Ao longo da investigação, foi avaliada a hipótese de motivação financeira para os crimes, o que acabou não sendo confirmado.
Discussão por brigadeiro e disputa pela guarda do filho
Um áudio de seis minutos enviado por Silvana para a melhor amiga parecia anunciar o que aconteceria dias depois, segundo a polícia. O relato amedrontado carregava a vontade de fazer um registro de ocorrência contra o ex-marido.
— A Silvana disse, em áudio, que ele era maquiavélico pelo que fazia com ela e como ele se comportava diante das relações sociais — salientou durante a coletiva o delegado Anderson Spier.
O arquivo não foi divulgado em observação à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
Silvana também teria relatado à amiga que o filho estava com problemas gastrointestinais por consumir lactose na casa do pai.
— Nesse áudio, a discussão se deu em torno de um cuidado alimentar que ele (Cristiano) não teve, ou seja, ele teria dado brigadeiro para a criança, e a criança no dia seguinte teria apresentado problemas gástricos. O conflito vinha em relação à forma de cuidados com esse menor — explicou o delegado Diego Traesel.
Silvana teria relatado, ainda, estar cansada e dito que procuraria um advogado para buscar a guarda unilateral do menino. No começo de janeiro, chegou a procurar o Conselho Tutelar para denunciar negligência do pai em relação à alimentação do menino. No dia 2 de janeiro, Cristiano relatou por mensagem à atual ex-esposa: "Agora minha paciência acabou."
Após o desaparecimento da mãe e a prisão do pai, o filho de Silvana e Cristiano está com a avó paterna. Os advogados da família Aguiar, Elen Zucatti e Gilmar Souza Vargas, tentam, desde março, a reversão da guarda.
— Saber que a criança está junto da avó paterna é uma situação de desespero. A família do suspeito está ruindo, todos estão envolvidos e o menor está lá. É o momento de a Justiça libertar ele da família paterna — avalia o advogado.
O pedido tramita na Vara da Família de Cachoeirinha. Os advogados também pedem o atendimento psicológico do menino e um novo acompanhamento por parte do Conselho Tutelar. À reportagem, o Conselho Tutelar informou que respeita o sigilo do caso e que não vai se manifestar.
Trabalho policial continua
Mesmo com o envio do inquérito ao MP, a Polícia Civil ainda analisa materiais. Mais depoimentos podem ser colhidos diante de novos indícios e outras buscas aos corpos, que ainda não foram localizados, podem ser feitas.
Contraponto
Cristiano está preso desde 10 de fevereiro. Nas três vezes em que foi intimado para prestar depoimento à polícia, manteve-se em silêncio.
Jeverson Barcellos, advogado do PM, informou que ainda não teve acesso à íntegra do inquérito e das medidas cautelares, por isso, vai aguardar para se manifestar.
A reportagem tentou contato com a advogada Suelen Lautenschleger, responsável pela defesa da mãe de Cristiano, que tem a guarda do filho dele com Silvana. Até o momento, não houve retorno. O espaço segue aberto para manifestação.


