Foi só após a morte da tia que os sobrinhos da bancária aposentada Ivete Koch encontraram explicação para um quadro de ansiedade profunda e isolamento percebido na idosa de 78 anos no último verão que passaram juntos. Sempre organizada na vida financeira, Ivete havia sido vítima do golpe do empréstimo.
Ao analisar as conversas de WhatsApp e documentos de Ivete depois que ela faleceu, vítima de insuficiência pulmonar, a família descobriu que empréstimos de R$ 11,2 mil e dívidas com diferentes instituições de cartões de crédito haviam sido feitos. Conforme a sobrinha Débora Koch, 49 anos, criminosos descobriram o número de telefone da tia e passaram a persuadi-la.
— Ela não tinha filhos e passava as férias conosco. Notamos que estava diferente, nervosa. Só depois descobrimos o que aconteceu. Foi toda a vida correta, honestíssima e ficou com vergonha de nos contar. O golpe correu a saúde da minha tia — lamenta Débora.
O golpe do empréstimo, aplicado por um grupo criminoso desarticulado pela Polícia Civil na semana passada, mira, em geral, pessoas em situação financeira vulnerável. O público preferido desses golpistas inclui idosos, aposentados, negativados e quem precisa de dinheiro com urgência.
Como funciona o golpe do empréstimo
- A maioria das abordagens ocorre via WhatsApp, e as negociações são feitas online ou em supostos escritórios, de forma presencial.
- O grupo utiliza pseudônimos tanto no primeiro contato com as vítimas quanto no atendimento presencial no escritório, numa tentativa de dificultar a identificação. Virgínia e Helena são os principais nomes.
- Os criminosos contatam idosos que já possuem empréstimos ativos e se apresentam como correspondentes das instituições financeiras originais.
- Oferecem novos empréstimos, refinanciamentos dos já existentes com juros baixíssimos e redução de valores das parcelas.
- Para isso, convencem as vítimas a enviarem fotos e documentos ou a comparecerem presencialmente em um escritório onde fazem procedimentos de biometria, fotografias e assinaturas de documentos.
- Há relatos de que o grupo também costuma dopar os idosos que comparecem ao local físico,no bairro Bom Fim, na área central de Porto Alegre, para retardar qualquer tipo de reação ou raciocínio.
- A partir disso, são abertas contas bancárias e contratados novos empréstimos. Os valores obtidos são transferidos para terceiros.
Novas vítimas
Conforme a delegada Ana Luiza Caruso, titular da Delegacia de Proteção ao Idoso, semanalmente surgem novas vítimas do golpe do empréstimo. Em 2026, somente nesta delegacia, pelo menos 30 pessoas procuraram a polícia.
— Todas as semanas temos esse tipo de ocorrência. Diferentes criminosos costumam abordar as vítimas pelo WhatsApp e até na porta de saída dos bancos — alerta a delegada, que ainda investiga como os bandidos têm acesso aos números de telefone das pessoas.
Quando foi deflagrada operação da Polícia Civil, no dia 8 de abril, a investigação contabilizava 400 idosos captados em um grupo de WhatsApp. Desses, 19 haviam registrado ocorrência, incluindo dona Ivete. Até a última terça-feira (14), o número de boletins relacionado ao grupo criminoso desarticulado pela polícia subiu para 25.
Olha o golpe
Como se proteger
- Desconfie de promessas excessivamente atraentes
- Procure o gerente do banco em caso de dúvidas ou movimentações financeiras suspeitas.
- Confira a credibilidade do estabelecimento que oferece serviço e se é é autorizado pelo Banco Central.
- Não forneça dados bancários e documentos a pessoas desconhecidas.
- Não faça assinatura de contratos ou biometria com pessoas desconhecidas.
- Não faça depósito ou pagamento antecipado para liberar o valor de empréstimo.
Procure ajuda
- Disque 100
- Polícia Civil: telefone 197 e WhatsApp (51) 98444-0606
- Delegacia Online da Polícia Civil no RS
- Delegacia de Polícia de Proteção ao Idoso de Porto Alegre: Palácio da Polícia, Avenida Ipiranga, 1.803, bairro Santana - 51 3288-2303
- Defensoria Pública do Estado do RS: orientação jurídica e ações civis
- Ministério Público: (51) 3295-1100



















