
Enquanto o corpo de Luciani Aparecida Estivalet Freitas, 47 anos, estava escondido no apartamento dela na Praia dos Ingleses, em Florianópolis, os suspeitos de matá-la já gastavam o dinheiro da vítima.
Compraram arcos de balestra (uma espécie de arco e flecha), controles de videogame, celulares, televisão, suplementos vitamínicos e até fuzis e pistolas de airsoft, tudo com os cartões e o CPF da corretora de imóveis gaúcha. Foi exatamente esse rastro de compras que levou a polícia a identificar e prender os suspeitos em menos de 72 horas.
— Dezenas de mercadorias sendo compradas por plataforma online, especialmente. Com isso, a gente conseguiu chegar até a identificação de um adolescente que estava fazendo a retirada dessas mercadorias em pontos de entrega — explicou o delegado Anselmo Cruz, responsável pela investigação, em entrevista ao programa Gaúcha Mais, da Rádio Gaúcha, nesta sexta-feira (13).
A Polícia Civil de Santa Catarina confirmou nesta sexta que parte de um corpo esquartejado encontrada em córrego de Major Gercino, município distante cerca de 130 quilômetros de Florianópolis, é o de Luciani. O reconhecimento foi feito após parentes irem até Balneário Camboriú confirmar a identidade da vítima.
A principal linha de investigação é latrocínio, roubo seguido de morte.
Três pessoas estão presas. Na quinta-feira (12), a administradora de uma pousada na Praia dos Ingleses, de 47 anos, foi detida em flagrante no próprio estabelecimento.
No mesmo dia, um casal foi preso em Gravataí, na região metropolitana de Porto Alegre, por policiais rodoviários federais, quando tentava fugir para o Rio Grande do Sul. A mulher tem 30 anos, e o namorado, 27.
O homem estava foragido desde agosto de 2022, quando assaltou uma padaria em São Paulo onde havia trabalhado e baleou na cabeça o dono do estabelecimento, que morreu. Havia mandado de prisão contra ele.
Segundo o delegado Cruz, ele vivia há pelo menos um ano e meio em Florianópolis com nome falso para escapar da Justiça.
Crime planejado por vizinhos
Luciani morava havia quase três anos naquela pousada. Conhecia a administradora, que se apresentava como amiga dela. O suspeito de 27 anos e o irmão adolescente, de 14, moravam no mesmo prédio, vizinhos de porta da vítima.
— Com certeza isso foi um crime planejado, preparado, com antecipação — afirmou o delegado.
A administradora tinha chave de todos os apartamentos do estabelecimento. Por isso, segundo Cruz, não há como afirmar que houve arrombamento. Os suspeitos podiam entrar quando quisessem. O crime aconteceu dentro do apartamento de Luciani.
O delegado contou que, durante as diligências na pousada, flagrou o suspeito ligando para a administradora por telefone.
— Dizendo para não deixar a polícia entrar, para esconder tudo direitinho, para eles não se incomodarem — relatou Cruz.
Luciani teria sido morta entre 4 e 5 de março. O corpo ficou no apartamento dela até a madrugada do dia 7, quando foi removido.
O casal e o adolescente levaram os restos mortais até uma ponte numa área rural de Major Gercino e jogaram no rio, divididos em cinco pacotes.
As buscas para localizar as demais partes do corpo — cabeça e membros — seguem em andamento na região.
As compras com os dados de Luciani já haviam começado em 6 de março. Quando o casal foi preso em Gravataí, estava com armas de airsoft adquiridas com os dados da vítima, entre elas fuzil e pistolas. Airsoft é uma modalidade esportiva que usa réplicas de armas de fogo, que disparam projéteis de plástico, sem poder letal.
"Não era ela de forma alguma"
A família começou a desconfiar quando as mensagens vindas do celular de Luciani passaram a ter erros gramaticais incompatíveis com o perfil dela.
Palavras como "respentem", "persiguindo", "precionando" e "reornizar" apareciam nos textos. Em uma das mensagens, a remetente dizia estar sendo perseguida por um ex-namorado.
— Ela me manda aquele texto com erros gramaticais, bem o que não é usual dela, sabe? A nossa irmã tem graduação, pós-graduação, foi professora universitária, então a gente já notou que não era ela de forma alguma — disse o irmão Matheus Estivalet Freitas, que mora em Itapema, no norte de Santa Catarina.
Desde 5 de março, Luciani tinha parado de aparecer nos grupos de família. No dia 9, Matheus foi pessoalmente ao apartamento da irmã. A porta estava trancada, e o cachorro de Luciani estava do lado de fora.
Ele entrou pela janela e encontrou a kitnet em desordem, com alimentos em avançado estado de decomposição. No mesmo dia, registrou um boletim de ocorrência.
O desaparecimento foi comunicado formalmente à polícia em 10 de março por familiares. A investigação estabeleceu que ela já estava morta havia dias.
Suspeitos negam o crime
Todos os suspeitos identificados até agora estão presos. O adolescente de 14 anos não participou da morte; ele retirava as encomendas a mando do irmão.
A definição sobre eventual responsabilização dele ainda está em apuração. A mãe dos dois chegou a ser conduzida à delegacia, mas foi ouvida como testemunha e não foi indiciada.
Os suspeitos negam o crime. O delegado Cruz disse ter percebido "traços fortes de psicopatia" nos investigados.
— Pessoas extremamente dissimuladas, tentativa de serem manipuladores, assim, um perfil bem sério. Em termos do trabalho policial, a gente não tem dúvida nenhuma quanto à autoria deles — avaliou.
A causa da morte ainda depende de perícia. O corpo foi encontrado de forma parcial, apenas o tronco foi localizado até agora, o que pode dificultar a determinação do óbito. A investigação continua para colher elementos periciais e cumprir medidas que ainda dependem de autorização judicial.
Luciani nasceu em Alegrete e cresceu em Canoas, na região metropolitana de Porto Alegre. Trabalhava como corretora de imóveis e também intermediava locações para a própria pousada onde morava, na Praia dos Ingleses, em Florianópolis.
O delegado Cruz afirmou que os suspeitos podem ter escolhido a vítima justamente por ela ter poucos vínculos locais.
— A ideia dela não ter muitos vínculos familiares (em Florianópolis), talvez de que ela não teria pessoas que fossem reclamar por ela ou perceber a ausência dela — disse.


