
Quando Vitor Hugo Oliveira Simonin, de 18 anos, se apresentou à 12ª Delegacia de Polícia de Copacabana na última quarta-feira (4), a cena chamou atenção antes mesmo de qualquer declaração. Acusado de participar do estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos, o jovem vestia uma camiseta preta com a frase em inglês "Regret nothing", que pode ser traduzida como "Não me arrependo de nada".
A expressão circula nas comunidades masculinas online associada ao coach britânico-americano Andrew Tate, um dos influenciadores mais conhecidos do movimento "Red Pill" e autodeclarado misógino.
Nas redes sociais, a imagem gerou reação imediata: usuários interpretaram a escolha da roupa como uma afronta deliberada às autoridades e à vítima.
Quem é Andrew Tate

Andrew Tate é um coach britânico-americano de 39 anos, ex-campeão mundial de kickboxing, que construiu fama global na internet disseminando conteúdo abertamente misógino.
Sua visibilidade começou em 2016, quando participou do reality show Big Brother no Reino Unido e foi expulso após seis dias com a divulgação de um vídeo em que aparecia agredindo uma mulher. Ele alegou que a gravação havia sido editada.
Nas redes, passou a exibir um estilo de vida milionário, com carros esportivos, jatos particulares e iates, e a propagar a ideia de que o sucesso masculino está ligado à dominação e à rejeição dos valores feministas.
Em uma entrevista citada pela rede britânica BBC, declarou: "Sou absolutamente um misógino". E acrescentou: "Quando você é realista, é sexista. Não há como estar enraizado na realidade e não ser sexista."
No mesmo vídeo, descreveu mulheres como "intrinsecamente preguiçosas" e afirmou que "não existe mulher independente".
Para seus seguidores, Tate representa o sucesso econômico atrelado a uma masculinidade que se opõe ao que chama de "agenda feminista". O discurso combina misoginia com apelo às frustrações econômicas e afetivas de jovens que se sentem fracassados nos relacionamentos, na escola ou na carreira.
Tate acumula mais de 10 milhões de seguidores no X, antigo Twitter. Foi banido do Instagram, Facebook, TikTok e YouTube em 2022 por violar políticas contra discurso de ódio.
Também foi expulso do Twitter à época, após afirmar que mulheres deveriam "assumir a responsabilidade" por sofrerem agressões sexuais. A conta foi restaurada depois que o bilionário Elon Musk adquiriu a plataforma.
A série Adolescência, da Netflix, cita o nome de Tate em uma cena sobre o movimento "incel" e a influência da "machosfera" sobre adolescentes.
Acusações criminais
Na Romênia, Andrew Tate e seu irmão Tristan são réus por estupro, tráfico humano e formação de organização criminosa voltada à exploração sexual de mulheres. Segundo a Justiça romena, eles teriam estruturado, em 2021, um grupo que atuava na Romênia e no Reino Unido.
Os dois foram detidos em dezembro de 2022 em um subúrbio de Bucareste e formalmente denunciados em junho de 2023, junto com duas suspeitas romenas.
Em março de 2024, a polícia britânica obteve mandado para extraditar os irmãos para o Reino Unido, onde também respondem por acusações de agressão sexual.
No mês seguinte, advogados de quatro mulheres que afirmam ter sido agredidas por eles entraram com ação civil na Suprema Corte do Reino Unido pedindo indenização.
Em julho de 2024, a polícia de Devon e Cornwall moveu outra ação civil acusando os irmãos de não pagar impostos sobre 21 milhões de libras, cerca de R$ 155 milhões, obtidos com negócios online, incluindo a plataforma Hustlers' University.
Tate ficou em prisão domiciliar na Romênia de agosto de 2024 até fevereiro de 2025, quando deixou o país e viajou de jato particular para os Estados Unidos ao lado de Tristan.
O porta-voz dos irmãos afirmou, na época, que eles "negam inequivocamente todas as acusações e denunciam o que consideram ser um uso abusivo do sistema legal".
A "machosfera"
A "machosfera", do inglês manosphere, é uma rede de comunidades online que propagam ideologias antifeministas e discursos de subjugação das mulheres.
Andrew Tate é uma de suas figuras centrais, mas o ecossistema é mais amplo.
Os "red pills" tomam o nome do filme Matrix (1999): "tomar a pílula vermelha" significa, na narrativa desses grupos, "despertar para a realidade" e enxergar as mulheres e o feminismo como forças que prejudicam os homens.
Os incels, abreviação do inglês involuntary celibates ou "celibatários involuntários", são homens que se descrevem como incapazes de ter relacionamentos afetivos ou sexuais com mulheres.
Com o tempo, parte do movimento passou a atribuir essa condição às próprias mulheres e chegou a defender abertamente a violência contra elas.
Já o MGTOW, sigla de Men Going Their Own Way, prega o afastamento total de relacionamentos com mulheres, vistas como um obstáculo ao desenvolvimento pessoal e financeiro.
Esses grupos propagam uma ordem de gênero rígida, definem papéis fixos para homens e mulheres e ignoram a autonomia feminina.
Também lucram com a monetização do discurso de ódio e reforçam a ideia de que o valor da mulher está atrelado à aparência. Os algoritmos das redes sociais amplificam essa circulação ao priorizar o engajamento, e conteúdo de ódio tende a gerar mais interação do que conteúdo neutro.
A frase estampada na camiseta de Vitor Hugo, "Regret nothing", é um dos mantras que circulam nesse ambiente.
Crime em Copacabana

O estupro ocorreu na noite de 31 de janeiro, em um apartamento em Copacabana, na zona sul do Rio de Janeiro. Segundo o inquérito da 12ª DP, a adolescente foi levada ao local por um colega de escola e ex-namorado, um menor de 17 anos com quem mantinha uma relação amorosa.
No elevador, ele avisou que outros amigos estariam no apartamento. Ela recusou qualquer relação com eles.
Dentro do quarto, enquanto mantinha relação sexual com o ex-namorado, os outros quatro entraram. Ela pediu para não ser tocada e foi ignorada. Os jovens a agrediram fisicamente, com puxões de cabelo e golpes, e a impediram de sair do quarto. Todos a violentaram sexualmente.
Um deles chegou a perguntar se a mãe a via nua, já que ela estava "machucada e sangrando", segundo o relato da vítima à polícia.
Ao sair do prédio, a adolescente ligou para o irmão dizendo achar que teria sido estuprada. A família a levou à delegacia para registrar boletim de ocorrência. O exame de corpo de delito confirmou hemorragia e escoriações nas partes íntimas, lesões nas costas e glúteos e a presença de sêmen.
Câmeras de segurança do prédio registraram a saída dos suspeitos em horários próximos ao crime. Um relatório policial aponta que, ao retornar ao apartamento depois de acompanhar a vítima até a saída, o adolescente foi filmado fazendo gestos que investigadores interpretaram como de comemoração.
A polícia classifica o episódio como "uma emboscada planejada": a investigação indica que a vítima foi atraída por meio do vínculo afetivo com o menor para que mantivesse relações com ele e com os amigos.
A jovem reconheceu os suspeitos pelas imagens das câmeras. A Polícia Civil encaminhou o inquérito ao Ministério Público e solicitou a prisão dos envolvidos.
Os suspeitos
Quatro jovens maiores de idade são réus pelo crime, além do adolescente investigado por ato infracional análogo:
- João Gabriel Xavier Bertho (19 anos)
- Mattheus Verissimo Zoel Martins (19)
- Bruno Felipe dos Santos Allegretti (18)
- Vitor Hugo Oliveira Simonin (18)
João Gabriel e Mattheus foram presos no dia 3 de março. Vitor Hugo e Bruno Felipe se entregaram no dia seguinte.
O adolescente era procurado desde 5 de março, quando a Justiça autorizou mandado de apreensão. Ele se entregou no dia seguinte. Por ser menor, a identidade não é divulgada. O procedimento relativo a ele foi encaminhado para a Vara da Infância e Juventude.
Vitor Hugo é filho de José Carlos Simonin, que ocupava o cargo de subsecretário de Governança, Compliance e Gestão Administrativa do Estado do Rio de Janeiro. Ele foi exonerado no dia 4 de março.
Após o caso, outras três jovens procuraram a polícia e afirmaram ter sido vítimas de estupro praticado por Vitor Hugo, segundo o g1.
A 6ª Câmara Criminal do Rio negou, na terça-feira (3), pedido de habeas corpus para revogar a prisão de três dos suspeitos. O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro informou que os processos tramitam em segredo de Justiça por envolverem estupro e menor de idade.

