
A Polícia Civil concluiu a investigação sobre o caso dos três ciclistas que morreram vítimas de atropelamento na RS-115 em Três Coroas, no Vale do Paranhana. O motorista José Carlos Almeida Bessa, 42 anos, está preso desde o dia do acidente, que aconteceu em 21 de fevereiro.
O motorista, que estava embriagado e fugiu do local do acidente, segundo a polícia, foi indiciado por triplo homicídio triplamente qualificado. A Polícia Civil entendeu que ele cometeu o crime por meio cruel, que impossibilitou defesa das vítimas e gerou risco comum.
Segundo o delegado Ivanir Caliari, responsável pela investigação, a conclusão da polícia é de que houve dolo eventual. O entendimento é de que o condutor, que não era habilitado e havia ingerido bebida alcoólica, assumiu o risco de matar, ao ser imprudente.
Além dos três homicídios, Bessa também foi indiciado por crimes de trânsito de embriaguez ao volante e condução de veículo automotor sem carteira de habilitação, gerando risco de dano.
Testemunhas
Na semana passada, a polícia ouviu testemunhas que relataram ter visto o motorista bebendo naquela madrugada em dois estabelecimentos: um bar e uma boate. A dona do bar, em Igrejinha, disse que Bessa bebeu ao longo de três horas. Ele teria chegado ao bar por volta da 1h, já embriagado, e deixado o estabelecimento às 4h.
Depois disso, ele dirigiu até uma boate, no limite entre Igrejinha e Taquara. Câmeras de segurança flagraram o condutor seguindo em direção à casa noturna, às 4h24min. Ele deixou o estabelecimento às 5h24min.
O segurança desta casa noturna também prestou depoimento na semana passada e relatou que o homem deixou o local minutos antes do acidente e que estava bêbado. Outra testemunha já havia relatado aos policiais ter visto o motorista dirigindo em zigue-zague na rodovia, minutos antes do atropelamento.
O motorista foi preso em casa, horas após o atropelamento. O teste do bafômetro realizado após a prisão indicou 0,70 miligrama de álcool por litro de ar expelido, índice que configura crime de trânsito. O carro dele foi localizado na garagem da residência.
A prisão foi convertida em preventiva pelo Judiciário ainda no fim de semana. Na decisão do magistrado, consta que o motorista "estava em estado de embriaguez, sem habilitação, dormiu ao volante, trafegou pelo acostamento e empreendeu fuga do local, evadindo-se da responsabilidade e da prestação de socorro".
As vítimas
As ciclistas Clarissa Felipetti, 38 anos, e Fernanda Mikaella da Silva Barros, 34, morreram no local do acidente. Elas estavam acompanhadas de Isac Emanuel Ribeiro da Silva, 35 anos, marido de Clarissa. Ele chegou a ser hospitalizado, mas também não resistiu e morreu no dia 24 de fevereiro. Isac e Clarissa deixam dois filhos. Os três planejavam um passeio de cerca de cem quilômetros pela região.
Fotógrafa há mais de 20 anos, Clarissa era conhecida em Três Coroas tanto pelo trabalho quanto pela participação ativa em provas de ciclismo e corridas de aventura. Formada em Educação Física e em Publicidade e Propaganda, ela já havia atuado como assessora de imprensa da prefeitura e trabalhava no setor de marketing de uma empresa, além de registrar eventos esportivos. Clarissa e o marido costumavam se revezar nos cuidados com as crianças para manter a rotina de treinos.
Já Fernanda era natural de Minas Gerais e trabalhava em uma fábrica de calçados. Em nota, a companhia lamentou a perda.
"Fernanda não era apenas uma profissional dedicada e comprometida, ela era verdadeiramente parte da nossa família. Com seu jeito doce, seu sorriso sempre presente e sua disposição em ajudar, marcou a vida de todos", diz o comunicado.
A imobiliária Subli Imóveis, da qual Isac era sócio, fez uma publicação na qual comunicou e lamentou a morte. "Isac foi um homem íntegro e generoso, pai exemplar, esposo dedicado e amigo leal", diz.
A Associação Igrejinhense de Ciclismo também usou as redes sociais para lamentar a morte de Isac. Segundo a Assicibike, a bicicleta "não era apenas um meio de transporte para Isac — era sua paixão, seu refúgio, sua alegria".
Contraponto
Após ser preso em flagrante, José Carlos Almeida Bessa optou por permanecer em silêncio. Em 23 de fevereiro, a advogada Camila Schmorantz, responsável pela defesa do preso durante audiência de custódia, enviou nota sobre o caso.
Nesta segunda-feira (2), a reportagem fez novo contato com a defesa, que informou que ainda não teve acesso ao indiciamento. Confira a nota anterior enviada pela defesa:
"Em razão dos recentes acontecimentos e da ampla repercussão do caso envolvendo meu cliente, venho, na qualidade de sua advogada, esclarecer que a defesa está comprometida em assegurar que todos os fatos sejam apurados de forma justa, técnica e dentro dos limites da lei, na tentativa de afastar qualquer tipo de dolo.
Manifesto meu mais profundo respeito e solidariedade às famílias das vítimas Sissa e Fernanda neste momento de dor irreparável, reconhecendo a gravidade do ocorrido e, afirmo que estou em orações pela recuperação do Isac. Ressalto, contudo, que o processo judicial é o espaço legítimo para a análise das circunstâncias, das provas e das responsabilidades, garantindo-se o direito constitucional à ampla defesa e ao contraditório.
Reitero que qualquer julgamento precipitado, antes da conclusão das investigações, pode comprometer a busca pela verdade real e a aplicação correta da justiça. A defesa seguirá colaborando com as autoridades competentes para o pleno esclarecimento dos fatos."





