
O Ministério Público denunciou, nesta quinta-feira (5), o motorista que causou a morte de três ciclistas na RS-115, em Três Coroas, no Vale do Paranhana, em 21 de fevereiro. José Carlos Almeida Bessa, 42 anos, foi enquadrado por três homicídios triplamente qualificados, embriaguez ao volante, direção sem habilitação gerando perigo de dano e fuga do local do acidente. Se a denúncia for aceita pela Justiça, Bessa se tornará réu pelos crimes.
— O Ministério Público na sua função institucional e constitucional de defesa da vida, buscará a responsabilização do autor do fato na exata medida de sua culpabilidade, tal qual como consta na denúncia ofertada, como medida da mais inteira e lídima Justica — destacou o promotor Evandro Lobato Kaltbach, que assina a denúncia.
A Polícia Civil indiciou Bessa por triplo homicídio triplamente qualificado. O delegado Ivanir Caliari entendeu que ele cometeu o crime por meio cruel, que impossibilitou a defesa das vítimas e gerou risco comum. As ciclistas Clarissa Felipetti, 38 anos, e Fernanda Mikaella da Silva Barros, 34, morreram no local do acidente. Elas estavam acompanhadas de Isac Emanuel Ribeiro da Silva, 35 anos, marido de Clarissa. Ele chegou a ser hospitalizado, mas também não resistiu e morreu no dia 24 de fevereiro. Isac e Clarissa deixam dois filhos.
Motorista parou para beber em bar e boate, dizem testemunhas
Na tarde da sexta-feira, um dia antes do acidente, estaria eufórico por ter recebido o dinheiro que usaria para trocar os quatro pneus do Palio, o carro envolvido no acidente. Ele esteve em uma oficina, fez a troca e foi para casa. Bessa é casado há 23 anos e tem quatro filhos, sendo dois menores de 18 anos.
Por volta das 19h, saiu com a esposa e um filho para lanchar. Depois, segundo pessoas próximas, foi para a casa de um cunhado, onde bebeu até as 22h. Neste horário, voltou para casa levando a esposa e o filho. Segundo conhecidos, ultimamente, a esposa estava insistindo para a família voltar para o Acre, onde Bessa trabalhou e se casou depois de sair da cidade natal, Pauini, no Amazonas. Os dois discutiram por causa do assunto e Bessa decidiu voltar para a casa do cunhado.
Segundo testemunhas, como tinham bebido toda a cerveja disponível, ambos saíram com a ideia de comprar mais cerveja e voltar para casa do cunhado. Mas acabaram indo para um bar, onde Bessa bebeu por cerca de três horas.
Ainda conforme testemunha, ele ficou no estabelecimento, inicialmente, acompanhado pelo cunhado. Depois, levou o irmão da esposa para casa e voltou para o mesmo bar, em Igrejinha, próximo ao limite com Três Coroas. Ao sair deste local, ele foi para uma boate onde ficou por cerca de uma hora e também ingeriu bebida alcoólica. O atropelamento ocorreu poucos minutos depois dele sair da boate.
Quando Bessa foi preso em casa, depois de fugir do local do atropelamento sem prestar socorro, o teste do bafômetro indicou 0,70 miligrama de álcool por litro de ar expelido, índice que configura crime de trânsito. O carro, comprado por ele em janeiro de 2025, foi localizado na garagem da residência. Bessa nunca teve Carteira Nacional de Habilitação (CNH). Segundo pessoas próximas, não tinha conseguido emitir o documento por não saber ler nem escrever. Ainda assim, fazia uso do Palio, inclusive, para trabalhar. Todos os dias, dirigia entre Três Coroas e Gramado levando outros colegas para a obra em que prestava serviço.
Depois de atingir os ciclistas, Bessa teria ligado para esposa dizendo "ter feito uma besteira e que esperaria a polícia para ir preso". Mas não esperou. Fugiu, deixando para trás uma placa do veículo. Sobre o motivo da fuga, alegou a familiares que temeu um linchamento.
Conforme a polícia, Bessa não tem registros policiais nem criminais no Estado, no Acre, onde morou, e no Amazonas, de onde é natural. Bessa trabalha na área da construção civil como ferreiro. Atualmente, prestava serviços à construtora de um irmão, em uma obra em Gramado.
As vítimas
Fotógrafa há mais de 20 anos, Clarissa Felipetti, 38 anos, era conhecida em Três Coroas tanto pelo trabalho quanto pela participação ativa em provas de ciclismo e corridas de aventura. Formada em Educação Física e em Publicidade e Propaganda, ela já havia atuado como assessora de imprensa da prefeitura e trabalhava no setor de marketing de uma empresa, além de registrar eventos esportivos. Clarissa e o marido costumavam se revezar nos cuidados com as crianças para manter a rotina de treinos.
Já Fernanda Mikaella da Silva Barros era natural de Minas Gerais e trabalhava em uma fábrica de calçados. Em nota, a companhia lamentou a perda. "Fernanda não era apenas uma profissional dedicada e comprometida, ela era verdadeiramente parte da nossa família. Com seu jeito doce, seu sorriso sempre presente e sua disposição em ajudar, marcou a vida de todos", diz o comunicado.
A imobiliária Subli Imóveis, da qual Isac Emanuel Ribeiro da Silva era sócio, fez uma publicação na qual comunicou e lamentou a morte. "Isac foi um homem íntegro e generoso, pai exemplar, esposo dedicado e amigo leal", diz.
A Associação Igrejinhense de Ciclismo também usou as redes sociais para lamentar a morte de Isac. Segundo a Assicibike, a bicicleta "não era apenas um meio de transporte para Isac — era sua paixão, seu refúgio, sua alegria".
Contraponto
A defesa de José Carlos Almeida Bessa prefere não se manifestar no momento.



