
O senso comum pode indicar que são mais suscetíveis a golpes virtuais pessoas idosas, possivelmente mais distantes dos centros urbanos. A análise dos registros no Rio Grande do Sul nos últimos anos, no entanto, não confirma esta expectativa.
O perfil mais comum de vítima de golpe virtual no Estado representa também as parcelas mais numerosas na população gaúcha: mulher branca, moradora da região metropolitana de Porto Alegre e com idade entre 18 e 59 anos.
Zero Hora analisou dados da Secretaria do Estado da Segurança Pública (SSP) de registros entre julho de 2023 e janeiro de 2026. Das 41.350 vítimas:
- 71,8% tinham entre 18 e 59 anos (29.676 pessoas);
- 27,9% eram idosos com 60 anos ou mais (11.521); e
- 0,4% (153) eram crianças ou adolescentes (idade menor do que 18 anos).
O levantamento indica que 90,3% das vítimas são brancas, seguidas de pretas (5,8%), pardas (3,8%), amarelas (0,1%) e indígenas (0,05%).
A maior parte das vítimas (51,5%, ou 21.301) eram mulheres, e 45,3% dos que levaram o caso à polícia eram do sexo masculino (18.739). Em 3,2% dos registros (1.335) não há informação do sexo da pessoa lesada.
Porto Alegre lidera o número de registros (7.026) no período, seguido de Canoas (1.294), Caxias do Sul (995), Viamão (936) e Bagé (910). Veja o histórico completo em todos os municípios gaúchos no mapa abaixo:
Quem cai em golpes
Segundo a psicóloga e pesquisadora comportamental na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) Maria Adriana Campelo, não há evidências científicas que comprovem a existência de um “perfil psicológico” único de pessoas que caem em golpes virtuais.
Segundo ela, os criminosos costumam direcionar tentativas a grupos que percebem como mais vulneráveis, como idosos, pessoas com menor familiaridade com tecnologia ou indivíduos que enfrentam dificuldades financeiras.
Muitas vítimas possuem alto nível de escolaridade. Isso acontece porque os mecanismos psicológicos explorados pelos golpistas são inerentes à condição e funcionamento da mente humana. Não se trata de falta de inteligência, mas de como o cérebro reage em determinadas circunstâncias.
ADRIANA CAMPELO
Psicóloga
Por isso, o que determina a queda no golpe é a fase da vida da vítima: situações de luto, separação ou crise financeira deixam a pessoa mais vulnerável a narrativas que prometem alívio ou soluções rápidas.
Olha o golpe
Somado a isso, é comum o uso de situações de urgência ou pressão emocional, como “sua conta está irregular e será bloqueada agora”, “um familiar sofreu um acidente” ou promessas de ganhos extraordinários, que despertam medo, ansiedade ou empolgação.
— Em vez de um perfil psicológico específico, geralmente observamos uma combinação de fatores situacionais, emocionais e cognitivos. O golpista não precisa de uma vítima desinformada ou ingênua, precisa apenas de alguém que, naquele momento, esteja agindo por hábito ou emoção, deixando o pensamento analítico em segundo plano — pontua a psicóloga.
O cruzamento entre esses fatores emocionais e o uso contínuo de telas possibilita que também jovens sejam vítimas. Deivith da Cunha, professor da área de Tecnologia da Informação na UniRitter, pontua que o domínio do ambiente digital pode gerar falsa sensação de segurança:
— O contato intenso com a internet e aplicações gera frequentemente excesso de confiança, o que abre espaço para erros. Muitos jovens agem de forma automática, clicando em links ou aceitando termos sem ler — exemplifica.
Uma análise mais detalhada dos dados de faixas etárias mostra que, entre os adultos, o grupo de com idade entre 30 e 44 anos é o que tem mais vítimas de golpes virtuais (28,8% do total), seguido pela faixa etária de 45 a 59 (28,7%) e depois pela de 18 a 29 (14,2%).
— Há golpes que empregam métodos sofisticados de engenharia social que vitimam pessoas que não são idosas e que têm intimidade com o ambiente virtual. São golpes mais sofisticados que empregam o uso de inteligência artificial (IA), que geram prejuízos a vítimas de 30 a 50 anos — pontua Eibert Moreira, delegado e diretor do Departamento Estadual de Repressão aos Crimes Cibernéticos (DERCC) da Polícia Civil.
Criação de áudios, vídeos e fotos com IA são algumas das artimanhas tecnológicas usadas para enganar vítimas, segundo os especialistas.
Outra preocupação no horizonte das autoridades é o crescimento de vítimas idosas. Se considerada a evolução dos casos no Estado, a quantidade de pessoas com 60 anos ou mais vítimas de fraudes saltou de 19,4% em 2023 para 35,1% em 2026. Segundo Eibert Moreira, entre as fraudes mais comuns no grupo estão os golpes do amor, do falso familiar e do boleto.
Os golpes têm o mesmo padrão: uma narrativa que induz a vítima a pagar valores indevidos. O que muda é a roupagem, com histórias e personagens diferentes. Muito mais do que repressão, é preciso trabalhar na prevenção e educação, pois os golpes virtuais são, hoje, o grande desafio da segurança pública.
DELEGADO EIBERT MOREIRA
Diretor do Departamento Estadual de Repressão aos Crimes Cibernéticos (DERCC)














