
Ana Beatriz, Maria Cecilia e Maria Antônia têm entre 18 e 19 anos. Na manhã desta segunda-feira (2), as jovens impecavelmente fardadas de verde oliva marchavam e entoavam o hino nacional emocionadas. A comoção não era para menos. Elas entraram para história ao serem as primeiras mulheres a ingressarem nas Forças Armadas para prestar serviço militar inicial.
O trio faz parte do Pelotão Alfa, composto por 37 jovens. A cerimônia inédita ocorreu no 3º Batalhão de Comunicações e Guerra Eletrônica (3º B Com. GE), do Comando Militar do Sul (CMS).
— Passamos por todas as etapas juntas. Agora estamos juntas de novo. É muita felicidade saber que somos as primeiras e faremos parte da história militar do Brasil — relata Maria Cecilia Ledur Machado, 18 anos, ao lado da irmã gêmea, Maria Fernanda.

O alistamento feminino é voluntário. Para os homens, obrigatório. Conforme o Exército, o alistamento militar para serviço inicial começou em 1908, por meio do decreto 6.947. A determinação era exclusiva ao público masculino. Somente um século depois, as mulheres passam a ter mesma oportunidade.
Porém, outras funções e cargos com idade superior a 18 anos já faziam parte das atividades militares.
— Mulheres estão nas Forças Armadas oficialmente desde 1992. Na Segunda Guerra Mundial já tivemos muitas que serviram como enfermeiras. Se formos mais longe na história, Maria Quitéria participou da Guerra da Independência, tendo de se disfarçar de homem. Hoje essas 37 mulheres não precisam disso. Estão aqui. É bacana — resume o Comandante Militar do Sul, General de Exército Luís Cláudio de Mattos Basto.
Dois pelotões na Capital
Somente em Porto Alegre, 67 mulheres devem ingressar em 2026. Foram 37 nesta segunda-feira, e outras 30 devem entrar em agosto, no denominado Pelotão Bravo.
Além da Capital, o CMS compreende diversos municípios de Santa Catarina e Paraná. As cerimônias de Serviço Militar Inicial também devem ocorrer em Santa Maria e Curitiba. Ao todo, serão 168 jovens.
168 mulheres no CMS
- Porto Alegre – 67
- Santa Maria – 39
- Curitiba – 62
Realização em família

As 37 recrutas contaram com a companhia de amigos e familiares assistindo à cerimônia.
Antes das 4h, os pais de Ana Beatriz Dias Mayer, 19 anos, acionaram uma corrida de carro por aplicativo. A família saiu de Viamão.
— Temos quatro filhas, quatro meninas. A Ana é a mais nova e a primeira a entrar no Exército. Estamos muito orgulhosos por essa oportunidade que alegra a toda família — comemora o pai, o jardineiro Paulo Rogério Macedo Mayer, 57 anos.
A filha complementa:
— Tive muito apoio deles. Estou entre essas mulheres tão capazes quanto os homens. Já sou alguém na vida, visto farda, não um uniforme comum — celebra a jovem recruta.
Treinamento e atuação
Depois do período de treinamento básico, que ocorre no 3º Batalhão de Comunicações e Guerra Eletrônica, em Porto Alegre, as recrutas serão distribuídas para atuar no próprio batalhão, no Colégio Militar de Porto Alegre e no Hospital Militar de Área de Porto Alegre.
Em todo país, foram contempladas 1.467 vagas para o serviço militar inicial feminino, sendo 1.010 para o Exército, 300 para a Aeronáutica e 157 para a Marinha. Os postos estão distribuídos em 145 municípios de 21 estados e do Distrito Federal.
Disputaram as vagas deste ano cerca de um milhão de homens e 33 mil mulheres.
1.467 vagas para o serviço militar inicial feminino em 2026
- Exército – 1.010
- Marinha – 157
- Aeronáutica – 300

Inscrições abertas para 2027 até 30 de junho
O prazo para alistamento já está aberto para nascidos no ano de 2008 que desejam ingressar em 2027. As inscrições são gratuitas e seguem até o dia 30 de junho deste ano.
O cadastro pode ser realizado pela internet no endereço, neste link, ou de forma presencial em uma das Juntas Militares distribuídas pelo país. O processo é gerenciado pelo Ministério da Defesa.
Critérios
Para o alistamento voluntário, é preciso que as candidatas preencham dois critérios:
- residir em um dos municípios contemplados no Plano Geral de Convocação;
- completar 18 anos em 2026 (ou seja, ter nascido em 2008).
Entre os documentos solicitados estão:
- certidão de nascimento ou prova de naturalização;
- comprovante de residência;
- documento oficial com foto, como identidade ou carteira de trabalho.
10% do efetivo das Forças Armadas é feminino
O alistamento feminino voluntário foi possibilitado a partir do decreto 12.154, de 27 agosto de 2024.
Atualmente, as Forças Armadas possuem 37 mil mulheres, o que corresponde a cerca de 10% de todo o efetivo. Com a adoção do alistamento, o número de oportunidades deve crescer gradativamente.
Hoje, as mulheres atuam nas Forças principalmente nas áreas de saúde, ensino e logística ou têm acesso à área combatente por meio de concursos públicos específicos em estabelecimentos de ensino, como o Colégio Naval (CN), da Marinha, a Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx) e a Escola Preparatória de Cadetes do Ar (EPCAR), da Aeronáutica.

