
Uma série de relatos de mulheres sobre casos reiterados de importunação sexual dentro de um hospital em Porto Alegre levou à prisão do técnico de enfermagem John Douglas de Lima Machado, 40 anos, que trabalhava no Hospital Nossa Senhora da Conceição. Ele é suspeito de crime sexual contra 14 colegas. As descrições das vítimas sobre o comportamento do técnico se assemelham e, em alguns casos, se repetem, apontando para um modus operandi que consiste em tocar o corpo delas, beijar o rosto próximo da boca e forçar aproximações.
Uma das vítimas relatou, em dezembro do ano passado, que o técnico vinha a assediando sexualmente. A mulher relatou que ele costumava dar beijos no canto da boca e chegou a beijar seu pescoço sem consentimento. A mulher disse ainda que o colega ficava olhando para ela e que fazia questão de passar rente ao seu corpo.
Outra funcionária, ouvida em 6 de janeiro deste ano, relatou que estava numa sala com o técnico e que ele a ajudou a colocar um paciente na maca de tomografia. Neste momento, a mulher relatou que ele encostou o quadril contra o corpo dela.
Houve ainda uma das vítimas que relatou ter realizado plantões no hospital e que estranhou o comportamento do técnico de enfermagem. Ela disse que ele agia “sempre tocando na pessoa e falando sempre muito próximo" e que "causava sempre um desconforto".
Em 7 de janeiro, uma das vítimas relatou à polícia que o homem tinha se aproximado dela no corredor e começado a massagear seus ombros. A mulher contou que deu um tapa na mão dele e que disse não querer nenhum envolvimento.
As mulheres relatam que os casos aconteciam, geralmente, em momentos em que elas ficavam sozinhas com o investigado. Uma das vítimas, ouvida em janeiro, disse que os atos aconteciam “sempre de uma forma isolada, numa sala sozinha, com uma pessoa. Então nunca é na frente de ninguém".
“Muitas mulheres não se reconhecem como vítimas”, alerta delegada
Em dezembro de 2025, colegas passaram a relatar episódios que teriam acontecido nos meses anteriores — ele trabalhava no hospital desde agosto. O caso foi comunicado à administração da casa de saúde — que abriu um procedimento para apurar os fatos e afastou o técnico do trabalho em janeiro — e também à polícia.
Nem todas as mulheres que relataram os episódios para o hospital optaram por registrar ocorrência. É comum, segundo a delegada, que as mulheres vítimas desse tipo de crime tenham dificuldade em perceberem a situação pela qual passaram.
Muitas mulheres não se reconhecem como vítimas. As vítimas sofrem o primeiro abuso e não acreditam que aquilo esteja acontecendo. Então, primeiro, elas não entendem. Depois, colocam a culpa em si: 'Fiquei muito perto dele. Talvez eu tenha dado alguma abertura no meio de uma conversa, por um sorriso ou por ser uma pessoa simpática, propiciei isso ao agressor'. A vítima não tem culpa.
FERNANDA CAMPOS HABLICH
Titular da da 2ª Delegacia da Mulher de Porto Alegre
A importunação sexual passou a ser prevista em lei no ano de 2018, como forma de tipificar condutas que antes não tinham um amparo legal.
— Pode ser considerado importunação sexual aquele ato para satisfazer a própria lascívia. Quando o agente encosta muito perto, aquele beijo com uma saliva mais aparente, um toque indesejado no ombro, nas costas, um abraço apertado — explica a delegada Fernanda Campos Hablich, da 2ª Delegacia da Mulher de Porto Alegre.

Prisão e silêncio
O suspeito foi preso no fim da tarde de terça-feira (17), de forma preventiva, e optou por permanecer em silêncio. Segundo a polícia, no hospital, o técnico negou os crimes, alegando que se tratava de brincadeiras que tinham sido mal entendidas, mas ele ainda será ouvido formalmente no processo.
A polícia investiga neste momento se outras mulheres podem ter sido vítimas do mesmo crime.
— A equipe da delegacia inteira se mobilizou em ouvir as vítimas e, principalmente, acolhê-las. Quando elas falam, exteriorizam aquilo e se sentem acolhidas, sentem que o Estado está as protegendo e ouvindo. Toda equipe da delegacia se mobilizou desde o início do procedimento até a prisão —disse a delegada.
Contraponto
A reportagem busca contato com a defesa de John Douglas de Lima Machado. O espaço segue aberto para manifestação.
A reportagem também entrou em contato com o Grupo Hospitalar Conceição, que informou que "o empregado investigado foi afastado das funções no dia 02/01, enquanto corria a investigação".
A assessoria da casa de saúde ainda esclareceu que ele permanece afastado e que "o processo acusatório (PAD) está em fase final de instrução". Durante o processo, 24 testemunhas foram ouvidas. O técnico ainda será interrogado.
Por fim, acrescenta que "a Corregedoria foi criada nesta gestão do GHC, em 2024, para reforçar procedimentos internos de apuração e governança. Graças a esta unidade criada, foi possível dar celeridade para este caso".
Violência contra a mulher
O que é importunação sexual
- É quando se pratica ato libidinoso ou comete outra prática contra alguém, sem sua permissão, para satisfazer desejo sexual.
- Pode ser, por exemplo, apalpar, tocar, beijar à força, masturbar-se, entre outros. A pena prevista é de reclusão de um a cinco anos.
Como agir
- Em muitos casos, a vítima não consegue pedir ajuda porque fica paralisada. Por isso, é essencial que quem testemunha esse tipo de crime também saiba como agir.
Ligue imediatamente para a Brigada Militar, pelo 190. - Se ocorrer dentro de ônibus, tente identificar a linha e localização do ônibus.
- Se possível, fotografe o agressor, se for vítima ou testemunhar um caso desses.
- Se o crime já aconteceu, tranquilize a vítima e oriente que ela registre o fato. Neste caso, é possível registrar o fato em qualquer delegacia ou pela Delegacia Online. Também é possível entrar em contato com a Polícia Civil pelo 181 ou (51) 98444-0606.









