
Em fevereiro, médicos receberam, por e-mail, uma cobrança do Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul (Cremers). A mensagem (veja na imagem acima) solicita um pagamento para regularização da anuidade da instituição: R$ 919,56. Além disso, há o nome e o registro do médico, com um link para a quitação.
— O e-mail era igual à correspondência do Cremers, o aspecto, as cores, até o valor da anuidade era o mesmo que tínhamos de pagar. Desconfiei porque já tinha pago e por saber que a cobrança não é feita daquela forma (por e-mail) — conta Enilde Guerra, conselheira do Cremers.
Segundo a médica, outro motivo de desconfiança foi o e-mail do remetente, que não era relacionado ao domínio do site da instituição (cremers.org.br): o correio eletrônico dos golpistas fazia uma relação genérica a um conselho de medicina.
— Enviamos o aviso a todos os médicos alertando que aquilo era falso. Fizeram com uma precisão impressionante, é um golpe profissional — acrescentou.
O relato exemplifica o chamado golpe do boleto falso. A fraude ocorre quando cobranças indevidas são enviadas por e-mail, SMS ou aplicativos de mensagens, como WhatsApp. As variações da fraude incluem o envio de link e QR Code para o pagamento do que, segundo a narrativa, seria um débito da vítima.
Esse tipo de estelionato também está relacionado ao golpe da falsa promoção, no qual sites oferecem produtos com descontos nas redes sociais, recebem o pagamento e não entregam o bem.
Outra versão do crime é a criação de sites que simulam espaços virtuais de lojas conhecidas e órgãos do poder público. Enganada pela plataforma, a vítima realiza o pagamento acreditando estar em um ambiente oficial.
Um levantamento do site Jusbrasil indica que o golpe do boleto falso é o segundo mais mencionado em decisões judiciais (24,9 mil vezes) no país, atrás apenas do golpe do falso motoboy.
O estudo reúne 129 mil sentenças proferidas no Brasil entre 2010 e 2025. No Rio Grande do Sul, o cenário é o similar: 526 decisões citam o golpe do boleto falso entre 2017 e agosto de 2025, que coloca a prática também no segundo lugar.
Uso de IPVA e IPTU por golpistas
Outra tática dos criminosos é simular cobranças feitas por órgãos públicos. Segundo a Secretaria da Fazenda (Sefaz) do governo estadual, golpes ocorrem com cobranças indevidas do Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA).
"Verifica-se que o contribuinte acessou um ambiente fraudulento, geralmente a partir de busca em mecanismos como o Google ou por links recebidos por e-mail, redes sociais ou aplicativos de mensagem. Esses sites criminosos imitam visualmente as páginas oficiais, o que dificulta a identificação durante o acesso", respondeu a pasta por meio de nota.
A Sefaz informou que não envia boletos, links de pagamento ou QR Codes sobre o IPVA. O governo do Estado não utiliza cobrança via boleto bancário para o imposto. O pagamento do IPVA deve ser realizado exclusivamente pelo aplicativo IPVA RS, pelo site ipva.rs.gov.br, ou pelo portal oficial do DetranRS, sempre com o domínio rs.gov.br.
"Antes de confirmar um Pix, o contribuinte deve verificar se os dados do destinatário são: Ipva Sefaz/RS – CNPJ 87.958.674/0001-81 – Banco do Estado do RS S.A", orienta a Sefaz.
Em 2025, a prefeitura de Porto Alegre lançou um alerta para a situação: foi verificado que criminosos enviavam mensagens com falsas intimações, cobranças de taxas ou processos relacionados aos contribuintes. Um dos focos identificados é o pedido de pagamento do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU).
— Por vezes, o golpista tem acesso ilegal a bases de dados e copia a identidade visual do boleto. Assim, consegue criar uma guia parecida com a original, com o nome, endereço e outras informações do contribuinte. A pessoa que não verifica quem é o beneficiário pode cair no golpe — diz Jonathan Videira, superintendente-adjunto de tecnologia da informação da Secretaria da Fazenda da prefeitura da Capital.
Segundo Videira, golpes foram registrados no passado, mas não há relatos de ocorrências neste ano. Videira afirma que a prefeitura da Capital não envia guias de pagamento para regularizar débitos e alerta para que os canais oficias sejam acessados:
- telefone 156 (opção 4)
- WhatsApp, pelo número (51) 3433-0156
- site de parcelamento de dívidas.
Segundo Wambert Di Lorenzo, diretor do Procon de Porto Alegre, o pagamento de boletos deve ser evitado porque estes são facilmente adulterados por golpistas.
— A principal dica é conferir o destinatário do dinheiro. A pessoa pode avançar no aplicativo de pagamento no celular sem concluir para ver quem é o beneficiário. Se é uma fraude, o golpista pode colocar um nome fantasia ou de terceiros. Também é importante dar preferência para pagamentos com cartões de crédito e ter cuidado com anúncios de produtos nas redes sociais — comenta.
Em caso de prejuízo, o orientação é salvar as informações do golpe (números de telefone, comprovantes e prints de conversas) e registrar presencialmente o caso em uma delegacia ou pelo site da Polícia Civil.
Dicas para se proteger do golpe do boleto falso
Verifique os dados do beneficiário antes de pagar
Confira se o nome do recebedor é realmente a empresa contratada ou o órgão público correto. Veja se o banco destinatário corresponde ao informado na cobrança. Em caso de divergência, não pague.
Desconfiar de código de barras com falhas
Evite boletos com erros visuais, números desalinhados ou informações inconsistentes. Também não ligue para o telefone que aparece no próprio boleto, pois pode ser um contato controlado pelo golpista.
Entre em contato diretamente com a empresa ou órgão
Em caso de dúvida, procure os canais oficiais no site verdadeiro da instituição ou em documentos anteriores e confirme se a cobrança existe.
Não imprima boletos fora dos canais oficiais
Gere a segunda via apenas no site oficial da empresa ou pelo aplicativo oficial do serviço contratado. Evite links recebidos por mensagens ou e-mails.
Fonte: Banco Central do Brasil


