“Sei que muitos enganaram pessoas e roubaram o dinheiro suado delas usando meu nome, mas acredite em mim, você está com o verdadeiro Elon Musk”. Esse trecho é de uma conversa entre a reportagem de Zero Hora e uma conta falsa do empresário dono da Tesla, X (antigo Twitter) e SpaceX, considerado a pessoa mais rica do mundo.
O perfil é um dos inúmeros a oferecer carros modernos, celulares recém-lançados e dinheiro em troca do pagamento de uma taxa de entrega dos bens.
Olha o golpe
Segundo a Polícia Civil, há, no Rio Grande do Sul, 55 registros de golpes relacionados ao nome do empresário, em fraudes como o golpe do amor ou em pedido de pagamentos de valores para o recebimento de presentes.
Entre sexta-feira (20) e quarta-feira (25), a reportagem conversou com sete contas que dizem ser do empresário sul-africano radicado nos Estados Unidos.

Como o contato é feito
Contas falsas são criadas em redes sociais com o nome e fotos de Elon Musk. No Threads, por exemplo, imagens do que seria a rotina do empresário são postadas diariamente, em uma tentativa de “legitimar” o perfil.
Parte dos conteúdos é feita com inteligência artificial. Em um vídeo manipulado, Musk distribui dinheiro a pessoas em situação de rua; em outro, ele faz um pedido de casamento segurando um buquê de flores e um anel.
Algumas das postagens atingem milhares de comentários, em diversos idiomas. Um dos posts recebeu 26 mil respostas, entre elas a de uma conta possivelmente de uma brasileira. “Quando você vier ao Brasil de novo, me avise dez dias antes [...] quero conhecer você pessoalmente”, escreveu.
“Já me sinto nos teus braços, te amando intensamente”, escreveu outro perfil com foto de uma idosa. “Você não me deu valor, mostrou teu caráter, não me senti feliz [...] agora acabou mesmo”, desabafou outra após um “desentendimento” com o bilionário.
Nos comentários das postagens, números de Telegram e WhatsApp, que seriam de Musk, são divulgados para quem quer iniciar uma conversa. Foi o que Zero Hora fez e trocou mensagens com as contas, todas dos Estados Unidos.

Modus operandi
Após uma saudação, um deles perguntou: “Sabe que tenho um pacote para você?”. Depois, são enviadas imagens de carros novos da marca Tesla, que pertence a Musk, e de unidades de iPhone 17, o último modelo de celular da Apple, além de maletas com dólares. São esses os “presentes” oferecidos por Musk aos seguidores. Para recebê-los, o “fã” deve enviar nome, telefone, e-mail, endereço e uma foto.
“Tudo o que você precisa fazer é efetuar um depósito para que seus pacotes sejam entregues com sucesso, ok?”, explicou um deles na sequência.
Eles solicitaram o pagamento com a compra de cartões presente, um tipo de cartão pré-pago com um código que pode ser resgatado para comprar produtos ou serviços na internet.
Dois dos perfis ofereceram a opção de transferir o dinheiro via Pix: chaves aleatórias com nomes de mulheres como beneficiárias foram informadas. “Mas não deixe de adquirir o cartão hoje para que o pacote chegue até você”, escreveu outro.
Um deles disse que os bens seriam recebidos cinco horas após o pagamento. Outro mandou uma foto que mostrava o carregamento de um avião da FedEx, empresa norte-americana de entregas. “Como pode ver, estamos ocupados organizando seus pacotes”, justificou uma das contas.
Em outra tática, um contato das Filipinas, país do sudeste asiático, que se passava por um funcionário da FedEx, enviou uma mensagem: “Sou o entregador do Elon, sou eu quem entregará o presente para você no Brasil”.
Uma das contas fez chamadas de vídeo pelo WhatsApp para convencer a reportagem de que estava falando com Musk. Na verdade, o estelionatário apenas reproduziu um vídeo em que o empresário aparecia dentro de um carro.
Uso de IA
Zero Hora pediu aos contatos provas de que eram o empresário. Com o uso de inteligência artificial, um deles enviou um áudio em inglês (idioma nativo do empresário), no qual uma voz similar à de Musk diz para a pessoa não se preocupar. “Tudo o que você precisa fazer é efetuar o seu pagamento”.
Outro enviou um vídeo falso do empresário falando em português. “Minha querida, não é golpe, nunca será. Você precisa confiar em mim, apenas confie em mim”.
— É mais fácil perceber que o vídeo é falso, que a voz não é do empresário. Já o áudio é mais difícil, porque a pessoa pode não conhecer bem a voz dele e ser induzida. Porém, o ponto principal é entender que uma pessoa famosa, como Elon Musk, não vai entrar em contato — diz Dalvan Griebler, cientista da computação e professor da PUCRS.
Paulo Ricardo Muniz Barros, professor do curso de Ciência da Computação da Feevale, leu as conversas entre Zero Hora e os perfis falsos e disse que há indícios de uso de inteligência artificial nas respostas.
— Podemos observar questões referentes a uso de português e inglês misturado. Há tentativas de manter o contexto da conversa quando a vítima (a reportagem) tenta desviar a conversa e o atacante mantém uma linha de raciocínio. Também há erros no uso do português, o que indica um potencial de ser algum texto gerado de forma automática — pontua.
A reportagem encerrou os contatos com os perfis falsos sem efetuar pagamentos.
Alvos dos golpes
Uma das vítimas do golpe no Estado foi uma idosa de 84 anos, moradora de Cachoeirinha, na Região Metropolitana. Em novembro de 2025, a família dela procurou a Polícia Civil para registrar o caso.
Segundo a delegada Luciane Bertoletti, que investiga o crime, a estimativa é de que a idosa tenha perdido mais de R$ 100 mil. Durante meses, ela fez o que os criminosos pediram à reportagem: comprou cartões presente e transferiu dinheiro.
— Ela gastava todo o dinheiro com os cartões, além de ter transferido parte de um valor que recebeu do Estado. Disse que ia se casar com ele e estava preparando a festa de casamento. Também falou que eu não tinha que me meter no relacionamento dela com o Elon — conta a delegada.
Entre os 55 casos envolvendo o nome do bilionário está também a história de uma idosa de Porto Alegre que perdeu R$ 26 mil no mesmo golpe. Em Lajeado, no Vale do Taquari, uma vítima teve prejuízo de R$ 6 mil depois de “dar presentes” ao bilionário Elon Musk.
Segundo o delegado Filipe Bringhenti, diretor da Divisão de Crimes Cibernéticos da Polícia Civil, os criminosos se valem de engenharia social para identificar vítimas vulneráveis e oferecer promessas de relacionamento que resultam em golpes financeiros.
— Depois chegam pedidos de valores para pagar a passagem aérea ou outra despesa sem a qual jamais se encontrarão e serão felizes. Se a vítima paga, vem outro pedido com outro motivo. O golpe só termina quando a vítima desperta para a realidade ou um familiar toma conhecimento e a convence de que o namorado famoso não passa de um golpista — pontua.

















