
Em frente à casa onde Juliane Cristine Schuster, 30 anos, vivia com a filha caçula, na Rua das Flores, na área rural de Santa Clara do Sul, um rastro de destruição se mistura com recordações de uma vida em família. No gramado e na garagem, brinquedos, bicicletas e ursinhos de pelúcia foram abandonados, em meio às marcas provocadas pelo motorista de uma caminhonete, que invadiu o local na noite de segunda-feira, passando por cima do que havia pela frente.
Ao volante, segundo a investigação, estava Elton Luiz Leuze, 58 anos, que manteve relacionamento de um ano e nove meses com Juliane. Os dois estavam separados havia cerca de um ano.
A mulher, encontrada morta na terça-feira (10), era mãe de duas filhas, de 13 e cinco anos. O ex-marido dela, Fabiano Luís Fleck, 37 anos, pai das meninas, também foi morto no ataque. O atual namorado de Juliane, de 45 anos, foi atingido pelo veículo e ficou debaixo dele, até ser resgatado. Ele segue hospitalizado, em Porto Alegre, com ferimentos graves.
O corpo de Leuze foi encontrado na manhã desta quarta-feira (11) em frente à sede da Brigada Militar de Santa Clara do Sul. O revólver de calibre 38, que seria a mesma arma usada no crime, foi localizado com ele. Segundo a polícia, o homem teria tirado a própria vida com um disparo de arma de fogo.
Sobrinho ouviu estampido

Na noite de segunda-feira (9), o pedreiro Juliano Stoll, 32 anos, que é sobrinho de Fleck, ouviu um estampido. Também morador da Rua das Flores, estranhou o barulho, mas não desconfiou da tragédia que se passava a poucos metros dali. Na manhã seguinte, ao sair de casa, passou em frente à moradia de Juliane. Foi quando avistou a filha caçula da mulher.
— Saí daqui, vi a menina sentada na janela ali. Ainda bem que ela abriu a janelinha. Dei mais uma aceleradinha, e tinha uma caminhonete enfiada dentro da garagem. Dei uma freada, fui para trás, olhei assim, e não vi a Juliane, não vi nada. Aí ela só chamava pelo pai: "Cadê meu pai?" — recorda Stoll.
A menina contou que estava trancada no quarto por orientação da mãe.
— Ela chegou a comentar que a mamãe antes de ir para o banheiro, ela não falou que tinha morrido, mas antes de ir para o banheiro "a mamãe disse para eu trancar a porta". Foi o que ela disse. O policial chegou e a porta estava mesmo trancada. Nós conseguimos tirar ela pela janela — recorda.
Grito de ajuda

O pedreiro foi até a garagem, onde avistou o corpo do tio, já sem vida. Neste momento, o namorado de Juliane, que havia sido atropelado na garagem, começou a pedir socorro.
— Acho que se recuperou, naquele momento, acho que acordou, aí ele começou a gritar por ajuda — descreve.
Ao perceber que não conseguiria removê-lo debaixo da caminhonete, ele pediu socorro à Brigada Militar. A vítima só foi removida com a chegada dos bombeiros.
— Minha esposa tentou avistar a Juliane, pra ver onde ela estava, e ela estava no banheiro. O Fabiano era uma pessoa que não fazia mal para ninguém, só trabalhava. A Juliane a mesma coisa. Todo mundo se dava bem — relata.
"Pai coruja"

O sobrinho conta que o tio era muito ligado às filhas. No período em que Juliane residiu no Litoral, ele que ficou responsável pelo cuidado delas. Após o retorno dela, há cerca de um ano, a caçula voltou a morar com a mãe. Fabiano costumava visitar a filha regularmente, e mantinha bom relacionamento com a ex.
— Ele se dava bem com o namorado dela também. Não tinham problema. O Fabiano era uma pessoa muito boa. Trabalhador. Um pai coruja. Tanto que tinha vindo ver a pequena, quando isso aconteceu — diz Stoll.


