
O segurança de um estabelecimento nas proximidades da RS-115 disse ter visto o motorista que atropelou ciclistas em Três Coroas, no sábado (21), deixando o local embriagado — o que foi confirmado pelo teste do bafômetro (leia mais abaixo). O relato foi feito à Polícia Civil na manhã desta terça-feira (24). Outros depoimentos ainda estão sendo coletados pela investigação.
Segundo o delegado Ivanir Caliari, que conduz a investigação, a testemunha disse que isso aconteceu minutos antes do atropelamento, que teria acontecido por volta das 5h40min. A polícia também analisou câmeras de segurança. O motorista cruza por um dos pontos de monitoramento às 4h22min, seguindo na direção da boate, localizada no limite entre Igrejinha e Taquara, e retorna às 5h27min. Isso, somado ao depoimento do segurança, faz a polícia acreditar que o motorista permaneceu cerca de uma hora no estabelecimento.
Uma câmera de segurança em Três Coroas registrou o momento que os três ciclistas pedalam juntos no acostamento da rodovia, às 5h37min.
O motorista do carro atingiu os ciclistas fugiu do local sem prestar socorro. O condutor foi identificado como José Carlos Almeida Bessa, 42 anos. Uma das placas do veículo foi encontrada em meio aos destroços do acidente, o que auxiliou na identificação. Bessa foi preso em casa, em Três Coroas, ainda no sábado. O carro dele foi encontrado na garagem.
Segundo a Polícia Civil, o teste do bafômetro indicou 0,70 miligrama de álcool por litro de ar expelido, o dobro do que caracteriza crime de trânsito. Ainda de acordo com os investigadores, o homem não era habilitado, embora o carro estivesse registrado no nome dele. A prisão em flagrante foi convertida em preventiva no domingo (22) pelo Judiciário.
Outros depoimentos
Ainda nesta terça-feira, a polícia pretende ouvir pelo menos mais uma testemunha. O intuito é detalhar o comportamento do condutor antes do acidente. A polícia já sabe que ele esteve em, pelo menos, dois estabelecimentos naquela madrugada, e que consumiu bebida alcoólica.
— Ele foi primeiro num bar e depois na boate — afirma o delegado.
O relato do segurança ouvido nesta terça-feira vai na mesma linha do que havia sido dito por outra testemunha ouvida na segunda-feira. Um motorista disse ter visto Bessa deixando esse mesmo estabelecimento e dirigindo em zigue-zague na rodovia.
A polícia trata o caso como duplo homicídio doloso no trânsito, além da tentativa de homicídio. O entendimento é de que houve dolo eventual, no momento em que o condutor assumiu o risco de matar.
Terceiro ciclista morto
Na manhã desta terça-feira, foi confirmada a morte do terceiro ciclista, que havia ficado ferido no acidente. Isac Emanuel Ribeiro da Silva, 35 anos, estava hospitalizado desde o fim de semana, em Canoas, em estado gravíssimo.
A esposa de Isac, Clarissa Felipetti, 38 anos, também foi atropelada e morreu no local. O casal deixa dois filhos. A outra vítima é Fernanda Mikaella da Silva Barros, 34. Os três planejavam um passeio de cerca de cem quilômetros pela região.
A imobiliária Subli Imóveis, da qual Isac era sócio, fez uma publicação na qual comunicou e lamentou a morte. "Isac foi um homem íntegro e generoso, pai exemplar, esposo dedicado e amigo leal", diz.
A Associação Igrejinhense de Ciclismo também usou as redes sociais para lamentar a morte de Isac. Segundo a Assicibike, a bicicleta "não era apenas um meio de transporte para Isac — era sua paixão, seu refúgio, sua alegria".
O velório do ciclista deve ser realizado nesta quarta-feira (25) pela manhã e o sepultamento no horário da tarde.
Contraponto
Após ser preso em flagrante, José Carlos Almeida Bessa optou por permanecer em silêncio. A advogada Camila Schmorantz, responsável pela defesa do preso durante audiência de custódia, enviou nota sobre o caso na segunda-feira (23).
Confira a nota na íntegra:
"Em razão dos recentes acontecimentos e da ampla repercussão do caso envolvendo meu cliente, venho, na qualidade de sua advogada, esclarecer que a defesa está comprometida em assegurar que todos os fatos sejam apurados de forma justa, técnica e dentro dos limites da lei, na tentativa de afastar qualquer tipo de dolo.
Manifesto meu mais profundo respeito e solidariedade às famílias das vítimas Sissa e Fernanda neste momento de dor irreparável, reconhecendo a gravidade do ocorrido e, afirmo que estou em orações pela recuperação do Isac. Ressalto, contudo, que o processo judicial é o espaço legítimo para a análise das circunstâncias, das provas e das responsabilidades, garantindo-se o direito constitucional à ampla defesa e ao contraditório.
Reitero que qualquer julgamento precipitado, antes da conclusão das investigações, pode comprometer a busca pela verdade real e a aplicação correta da justiça. A defesa seguirá colaborando com as autoridades competentes para o pleno esclarecimento dos fatos."



